

Colunas
Tudo na Flip são esquinas (até o Valter Hugo Mãe de chinelas)
Como andar elegante, sem reclamar, distribuindo simpatias, depois de meter o dedo em um paralelepípedo na Festa
Tudo na Flip são esquinas, o mundo é irreal, ainda bem, e às oito e trinta da manhã muitas das esquinas de Paraty estavam tomadas pela mesma fila, quilométrica, de gente nova, velha, alta, baixa, sorridente e carrancuda, todas à espera de Valter Hugo Mãe e Carla Madeira.
Ele chegou primeiro, passando entre as pessoas com simpatia, distribuindo acenos, o século dos imbecis em uma ecobag, um jeito tímido de olhar para o chão. Não se pode descuidar do chão em Paraty. Estava calor e o Valter todo de escuro, camisa preta, calças pretas, elegante, chinelos de dedo brasileiríssimos. As pedras pregam peças. Acho que vi o Valter tirar os olhos dos paralelepípedos enquanto atendia uma fã, um passo em falso, o dedão desprotegido pela sandália de borracha metendo-se na via pública, acho que vi o rosto do Valter tentando esconder a dor bem no momento da foto, o homem é um gigante, não encontro esse clique em rede social alguma, depois ele saiu andando sem mancar e falou brilhantemente com a Carla Madeira e distribuiu autógrafos, tudo é rio, tudo é dor, na literatura e na vida pode-se muito, inclusive tropeçar.
Reencontrei Valter à noite, ele jantava em um restaurante de esquina, o escritor novamente no meio do povo, fiquei pensando se a unha dele estaria bem, tanto paralelepípedo ainda para superar, tanta gente, já não sei se ele chutou realmente uma pedra, mas me preocupei, tentei olhar o pé do Valter sob a mesa, não consegui, havia gente de mais. Então toda a luz da cidade apagou, abrupta, o restaurante no breu, ruas, casas, nenhum livro aceso, uma loucura. Eu só imaginava como o Valter faria para voltar ao hotel no escuro, com o dedão batido e de chinelas, nem sei de fato se ele andou de chinelo ali, acho que tenho certeza de que sim. A literatura pode muito.
Quem saiu do restaurante fui eu, dobrando esquinas, querendo ir a um lugar e saindo inevitavelmente no mesmo do instante anterior, passando pelos mesmos cantos o tempo todo, um som de pandeiro, samba de partido alto é no asfalto. A Flip é um filme do Buñuel, e a literatura é uma navalha cortando o olho de toda a gente, feroz. O século é dos imbecis e também dos perspicazes, graças a deus, e graças a deus Paraty não tem pudicos na escuridão ou a literatura haveria de ficar cega.
Em uma esquina, outra, a mesma, havia um sarau em que um poeta neomarginal, no escuro, trepado em uma mesa, gritava que é preciso sair do transe para entrar na transa. E é mesmo. Eu transo poesia, mas tenho lido mais prosa, é preciso sair da prosa e também sair da pressa. Olhei aquilo tudo, não consegui parar de andar, quando vi já estava em outra esquina, outra que era uma mesma, Paraty é assim, também a vida. Um escritor de quarenta anos caminhava em zigue-zague, escorando-se nos muros, parando para respirar, perdendo o rumo, não era o blecaute, mas o porre. Parecia a morte, bem ali, no meio das vielas, perdida nas esquinas, aquele escritor era a morte da literatura, algo que deveria ser inadmissível na Flip, mas eu vi, acho que vi, a navalha sangrando a própria literatura.
Uma casa lotada, as pessoas para fora batiam palmas. Soube que ali dentro estava o Arnaldo Antunes, que faria um show e teve seus primeiros versos silenciados pelo apagão. O que faz um poeta sem as palavras? Parece que ouvi de dentro da casa alguém dizer eu fico um pouco depois eu saio daqui, eu vai embora, eu fico fora de si, não sei se escutei mesmo, mas pedi para que o Arnaldo não fosse embora, de lugar algum.
Porque é preciso coragem para continuar. Especialmente nas esquinas. Eu mesmo, microfone em punho, no meio de uma casa esquinada, lotada, falei: sou um macho escroto. Falei mesmo, sou mesmo (tento não ser, juro), depois fui tomar uma cerveja e ainda me deram os parabéns. Ainda não estava escuro naquele momento, havia luz. Há poesia em cada canto, sempre. Tudo na Flip são esquinas, e as ecobags cheias de livros pesam nos ombros, mas ninguém reclama.
E eu penso até agora em como o Valter Hugo Mãe conseguiu andar tão elegante, sem reclamar, distribuindo simpatias, depois de meter o dedo em um paralelepípedo. A literatura pode tudo.
A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
2026 já começou
Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.
A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.
Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.
Assine ou contribua com o quanto puder.
Leia também
Quem você está lendo? A pergunta que mudou o rumo da minha vida literária
Por Ricardo Pieralini
Escrever para desconstruir masculinidades disfuncionais
Por Ricardo Pieralini
Bruto, animal, eu sou o homem de neandertal do menino Ney e da Paulliny Tort
Por Ricardo Pieralini



