Opinião

Trump e a masculinidade

Legitimamos a força em detrimento do respeito, confundindo liberdade com domínio. Não é assim que Trump age, ao desconhecer os limites do direito?

Trump e a masculinidade
Trump e a masculinidade
Donald Trump. Foto: ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP
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“Em vez de seduzir para obter, batalhe para conquistar.”
Elvira Vigna

A masculinidade, mais uma vez, está em questão.

Em primeiro lugar, pela quantidade de feminicídios no Brasil, indicativa da masculinidade tóxica que ainda predomina entre nós. Em segundo, pela noção de domínio que parece prevalecer nas relações afetivas — mais especificamente, dos homens sobre as mulheres. Em terceiro lugar, essa lógica se estende às relações homossexuais, nas quais também se busca a dominação afetiva de um sobre o outro, quase como garantia da manutenção do vínculo ou, ao menos, da preservação do ego do eventual abandonado.

Aparentemente, na sociedade atual, a imagem egóica é o bem mais precioso a preservar. Por vezes, mais importante até do que a própria presença da pessoa amada.

Vivemos uma época confusa, em que se assimila educação a respeito. No entanto, respeito vai muito além de educação. Posso cumprimentar alguém, abrir-lhe a porta, e ainda assim desrespeitar seus sentimentos, inclusive sua dignidade.

Não serão os russos que irão detonar a Otan, mas os próprios Estados Unidos

Legitimamos a força em detrimento do respeito, confundindo liberdade com domínio. Não é assim que Trump age, ao desconhecer os limites do direito? O próprio slogan “Faça a América Grande de Novo” já indicava o retorno do imperialismo. Não foi por meio dele que a América se tornou grande? Não foi pela espoliação da América Latina que os Estados Unidos viraram potência, inclusive territorial? Não foi o petróleo da Venezuela e dos países árabes que os financiou?

Mais uma vez, o século XXI aproxima-se tragicamente do século passado. A Europa colonizadora experimenta agora o terror da colonização. Ao ameaçar tomar a Groenlândia da Dinamarca, Trump faz com que provem do próprio veneno — como Hitler, igual e tragicamente, fizera.

Não serão os russos que irão detonar a Otan, mas os próprios Estados Unidos. Ao obrigar a Venezuela a comprar exclusivamente produtos norte-americanos, Trump nada mais fez do que recuar aos anos pré-Chávez, quando o petróleo venezuelano era sugado pelas petroleiras estadunidenses e à Venezuela restava importar até alfaces dos EUA.

Os caminhos da liberdade são tortuosos. Por vezes, assemelham-se mais aos trens-fantasmas da nossa infância.

No artigo “A ousadia transgressora de uma individuação feminista”, publicado na revista Cult, Patrícia Teixeira e Carmen Lívia Parise recordam-nos:

“Gilles Deleuze já nos disse que, na cartografia dos saberes, o criativo, o subversivo ou o revolucionário se apresentam sempre pela boca dos minorizados. Trabalhar com os inumeráveis estados do ser supõe uma psique que não comporta identidades fixas. Em vez disso, imagina devires. Será somente minorizando o instituído que o novo poderá devir.”

Que falta nos faz Nise da Silveira neste momento de parto histórico.

Como fazer com que a esquerda compreenda que são os grupos oprimidos que podem trazer a mudança? São os minorizados que podem furar a bolha das castas socioeconômicas, alavancando transformações reais.

No mesmo número da revista, Walter Melo tece considerações sobre o nascimento do futuro, citando Marco Polo, a quem se atribui a seguinte reflexão:

“Aos vivos, não cabe um inferno futuro, mas o inferno que compartilhamos todos os dias. Para não sofrermos, temos duas opções: uma fácil e outra arriscada. Aceitar o inferno em que vivemos, integrando-nos a ele até não mais o perceber; ou reconhecer, em meio ao inferno, quem não o é, preservá-lo e abrir-lhe espaço.”

A tarefa torna-se ainda mais arriscada na medida em que, de acordo com a neurociência, somos impelidos a reproduzir comportamentos e a aceitar o inaceitável pela simples força do hábito — hábito que nos traz segurança, ainda que às custas do desrespeito à nossa própria dignidade e independência.

Trata-se, portanto, de remar contra a maré. Um exercício de força real, confiança e perseverança. Para os crentes, um exercício de fé. Daí a importância de os setores progressistas compreenderem o potencial de mudança existente entre aqueles que partilham a fé — sejam cristãos, muçulmanos, judeus ou praticantes de tradições religiosas de matriz africana ou indígena.

Em Futuro Ancestral (Companhia das Letras), Ailton Krenak observa, citando Conceição Evaristo:

“A professora Conceição Evaristo disse uma coisa genial: as pessoas acham mais fácil acabar com o mundo do que acabar com o capitalismo. É verdade. Simplesmente nos acomodamos com a ideia de que o capitalismo não vai acabar. Pelo contrário: ele vai nos entulhar de coisas, e teremos tanta comida, tanta bebida, tanto de tudo, que não vai faltar nada. E assim seguimos, enclausurados nas metrópoles, deixando essa ideia absurda nos conduzir.”

Pouco se fala em refletir, de fato. Não o reflexo dos espelhos — esse narcisismo, por vezes maléfico, que levou Hitler e ainda leva Trump a cometer crimes contra a humanidade.

É preciso refletir sobre como nossas gaiolas douradas podem brilhar tanto quanto aprisionar.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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