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Trump ataca

A classificação de facções criminosas domésticas como terroristas e a ameaça de um novo tarifaço não são atos isolados, e sim uma ofensiva contra a soberania brasileira

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O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Foto: Reprodução X
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Os mais recentes ataques trumpistas à soberania brasileira, ao classificar facções criminosas domésticas como terroristas e ao propor um novo tarifaço por supostas práticas comerciais desleais, não são atos isolados, mas tentáculos de um autoritarismo nefasto. As formas autoritárias do século XXI possuem determinadas especificidades, quando comparadas com as do século anterior. Ainda que identifiquemos elementos de continuidade, as manifestações dos últimos anos, por estarem diluídas na rotina democrática, tornam o tema ainda mais desafiador.

O autoritarismo deixou de ser a manifestação de um governo de exceção, em sua acepção clássica, para dar lugar às medidas de exceção associadas à produção fractal e líquida. Utilizamos a denominação autoritarismo líquido para falar dessa nova natureza no interior das rotinas democráticas, por se tratar de medidas fragmentadas, cirúrgicas, acionadas sob uma aparência de legalidade, o que torna sua identificação mais difícil.

Essa nova forma de autoritarismo é identificada no governo Trump. Inicialmente, foram adotadas medidas para restringir o direito à livre expressão por parte de cientistas e pesquisadores, tolher direitos de imigrantes e colocar em xeque o multilateralismo e a soberania das nações.

Nas fronteiras norte-americanas, identificamos claramente o esvaziamento de direitos dos imigrantes, em face dos quais vem sendo adotada a força bruta. Deportações cruéis e degradantes, violência e desrespeito à integridade física e moral objetivam transmitir o contundente recado de que o outro não será aceito ali. Trata-se de um recado categórico de uma nova forma de tratar o inimigo, desumanizando-o ao subtrair a proteção jurídica e política mínima que qualquer corpo humano deveria ter direito em face de todo e qualquer poder político.

No âmbito externo, o trumpismo passou a se insurgir contra o multilateralismo, bem como sobre a arquitetura institucional de Direito Internacional Público fortalecida após as duas grandes guerras, e sobre a soberania das nações, restaurando a guerra nua. A desumanização levada a efeito pela exceção ocorre escolhendo o inimigo e nomeando-o. É a linguagem que desumaniza o inimigo através do enquadramento em determinada categoria supressora de qualquer individualidade, seja enquanto ser humano, seja enquanto Estado dotado de soberania.

Tais exemplos nos levam a afirmar, enfaticamente, que os EUA vivem um momento especialmente autoritário, colocando por terra a imagem de que já assumiram relevante posição na tutela dos direitos em escala global. Isso é grave e vai ter repercussões profundas não apenas na vida norte-americana, mas no mundo todo. Estamos diante da ascensão de uma nova extrema-direita dotada de elevadíssimo potencial autoritário, assim como a clássica extrema-direita nazifascista, mas com novas vestes, bem como um novo instrumental, muito mais sofisticado.

Medo, ódio e insegurança estão sendo capturados pelo soberano através de narrativas pretensamente racionais e legitimadoras da imposição de mecanismos de segregação e violência, em prejuízo da pluralidade e da tolerância. Os exemplos aqui citados, aos quais se somam muitos outros – a exemplo do enfraquecimento de órgãos multilaterais de defesa de direitos, da guerra comercial e da utilização do caos e da força bruta como instrumentos cotidianos de formação de capital político – nos levam a alertar que a história humana não ocorre através de fases estanques, como às vezes a descrição didática em períodos transparece ao inadvertido.

Ao contrário, ela se revela através de processos complexos, nos quais elementos de conformação política e social do período anterior podem ser – e comumente são – identificados nos subsequentes. Inexistem, inclusive, garantias contra retrocessos e involuções civilizatórias. O bolsonarismo está sedento em retomar o poder, com todas as implicações decorrentes e, seguramente, colhe do aprendizado trumpista.

A análise do autoritarismo líquido – assim intitulado por não se assumir como tal, não ser uniforme e minar, em intensidades variadas, os âmbitos da vida democrática – impõe aprofundada análise dos fatores de desestabilização e de subversão dos direitos fundamentais e da democracia. O enfrentamento à gradual fragilização dos espaços e dos sentidos da democracia e da relação de pertencimento à sociedade requer que desnudemos os artifícios das novas formas de autoritarismo, inclusive de matriz neobolsonarista, enfraquecedoras do pacto civilizatório. •

Publicado na edição n° 1416 de CartaCapital, em 10 de junho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Trump ataca’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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