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Triturador de técnicos
O incessante troca-troca de treinadores no meio dos campeonatos traz um descrédito enorme ao futebol brasileiro
O papel do técnico no futebol brasileiro chegou a um ponto de desacerto total. Ficou concretizada, na acepção da palavra, uma inversão completa dos valores da função.
Hoje, fala-se com naturalidade que um treinador, ao chegar, traz um sistema fixo e engessado – o tal do “esquema”. O time do “professor” tem de jogar assim e pronto, não importa o elenco.
A saída do Filipe Luís do Flamengo foi a gota d’água.
Na verdade, não foi uma demissão, foi uma dispensa que fez jorrar essa discussão fundamental para a saúde do esporte.
Esse modelo engessado é muito conveniente para incrementar a compra e venda de jogadores, numa orgia de negócios que traz um descrédito enorme ao nosso futebol.
Paulo Bracks, diretor do Atlético-MG, não suportou a pressão e destampou a panela. Usou expressões contundentes, dizendo que “o futebol brasileiro é um triturador de gente” e que “é preciso parar de moer pessoas”.
Ele chegou a analisar o absurdo de se trocarem treinadores no meio dos campeonatos por perfis completamente distintos. Nesse ponto, as “janelas” de transferência até ajudam a conter a sanha das transações.
Aos torcedores resta a dúvida: onde fica essa mina de ouro que banca multas contratuais vultosas? Ou será que os próprios técnicos já acomodam a situação nos acordos prevendo o calote?
Não foi à toa que criaram os transfer bans que estão na moda.
As disputas que acontecem em modelos diferentes – pontos corridos, mata-mata – também viraram desculpa: o cara termina uma competição campeão e, no dia seguinte, é trocado por outro mais afeito à disputa seguinte.
Alguns exemplos são incompreensíveis.
Só no Flamengo, três casos logo me vêm à cabeça: Andrade, Dorival Júnior e agora o Filipe Luís.
Nesse último caso, o técnico havia renovado o contrato há menos de dois meses. Para que serve a assinatura, então?
Recentemente, um dirigente do Corinthians, tentando explicar a permanência do seu treinador, usou uma frase curiosa: “Ele está acostumado à continuidade”.
Ora, quem não estaria?
Já comentei por aqui sobre o hábito sadio do Dorival de assumir cargos com projetos de curta, média e longa duração. O resto é com os cartolas.
Com a proximidade dos amistosos, a Seleção Brasileira volta ao centro das resenhas.
Pensando na opção por Carlo Ancelotti, a sequência das convocações ajuda a discutir essa questão da gestão.
O “Mister” sempre deixou claro que valoriza o perfil psicológico e o caráter. Ele mostra que o ambiente criado na convivência prolongada é fundamental para o êxito coletivo.
Nas convocações, ele dá chance a promessas que se destacam mundo afora – como ele mesmo diz, é a “oportunidade de conhecê-los melhor”.
É claro que, até fechar a lista final, podem surgir emergências que exijam jogadores experientes.
A presença constante de Casemiro, por exemplo, entende-se como a necessidade de ter alguém de confiança e longa convivência, que facilita a compreensão das escolhas do técnico no calor do jogo. Confiança é a palavra-chave para atravessar turbulências em um trabalho irregular.
E essa confiança também leva ao surgimento de nomes surpreendentes, que trazem a descontração necessária em períodos críticos.
É o caso do jovem Gabriel Sara, que contou sua “mancada” lá na Turquia: após ser campeão pelo Galatasaray, participou de um jantar com o presidente do país e levou um puxão de orelha por começar a comer antes do anfitrião, quebrando a etiqueta local.
Outra boa história veio do João Pedro, que faz sucesso no Chelsea, da Inglaterra.
Ele teve o nome esquecido pelo treinador na hora da leitura da lista e reagiu com sinceridade: “Dá sempre um frio na barriga, mas com o susto pensei: tô fora!” Logo depois, com a retificação, pôde dizer: “Tô dentro!”
Essa leveza facilita a decisão acertada do presidente da CBF, Samir Xaud, de tratar agora da renovação de Ancelotti pensando no longo prazo, já que se optou pelo treinador mais valorizado do momento.
Por fim, falando em Copa do Mundo, a proximidade do torneio é mais um motivo para torcer pelo fim dessas guerras insanas. Como ficam países como os Estados Unidos, uma das sedes, e o Irã?
A última notícia dá conta de que o Irã confirma a participação, mas reivindica outro país como sua sede oficial, por segurança. A paixão pelo futebol é gigante por lá.
Teerã tem o estádio mais harmônico que já conheci, o Azadi: a arquitetura começa no chão e termina do outro lado de forma integrada à paisagem. Uma joia. •
Publicado na edição n° 1405 de CartaCapital, em 25 de março de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Triturador de técnicos’
Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
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