Justiça

Todo cidadão brasileiro tem direito à memória e à verdade

Livro Cativeiro sem fim, sobre a ditadura civil-militar, denuncia crime de sequestro de bebês pelos militares

Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

O Brasil vive hoje um tempo de manipulação dos medos e da ignorância de grande parte da população em relação à própria história e também sobre a ditadura. Aliás, sempre houve manipulação na mídia e na política, além de censura sobre o que aconteceu nos porões da repressão entre 1964 e 1985. Contudo, o jornalismo, queiram o não, foi, é e será o espaço crítico do presente e do passado. É o jornalismo que continua a indagar de que maneira a história tem sido contada aos brasileiros.

Atualmente, vemos com mais amplitude a presença de uma força que usa a internet, arquivos e imagens, manipulados ou não, para apresentar uma narrativa revista do passado. Principalmente sobre os anos recentes onde o Brasil foi governado por uma ditadura civil-militar. Esse revisionismo histórico mantém a mão pesada sobre temas que foram abafados pela censura, pela opressão de um sistema econômico escravista e colonial ainda existente, em pleno século 21. Sistema que criou uma ideologia dominante, parcial e excludente.

 

Acredito que o jornalismo, em sua mais pura concepção, investigativo, capaz de ouvir todas as vozes, é capaz de ultrapassar essa barreira que começa a ser erguida. É preciso confrontar as fragilidades de noções criadas para a verdade, realidade, preconceito, cidadania e autenticidade que foram jogadas no lixo por meio de campanhas que mobilizam as redes sociais e inundam telefones e computadores pessoais com histórias irreais, com fake news, manipulando o inconsciente coletivo da sociedade.

Então, nada mais propício que neste momento de mentiras escritas e imagens editadas que são infiltradas em mentes e lares distorcendo a realidade, tentando apagar a história e “invisibilizar” personagens de carne e osso, que seja colocado em prática o que chamo de Jornalismo de Reconstrução. Não se trata de disputar espaço para impor significados e poderes. Nem balela. Mas de escrever a história em todos seus tons, com todos seus personagens. Ouvir as vozes apagadas e esquecidas. Mostrar os documentos guardados em gavetas há décadas. Uma reescrita da história de forma ética, sem o apagamento dos sujeitos, sem manipulação dos fatos, do medo e do ódio às diferenças e à educação.

É preciso quebrar a bolha social da desinformação, travestida de informação real. É o que procuro fazer no livro Cativeiro sem fim, uma parceria com o Instituto Vladimir Herzog e a Alameda Editorial.

O livro-reportagem conta as histórias de sequestros e apropriação de bebês, crianças e adolescentes filhos de militantes de esquerda ou de pessoas contrárias ao regime ditatorial por agente das forças militares no Brasil nas décadas de 1960 e 1970 (https://youtu.be/jFO7P0p59S4). Como um butim de guerra, os militares se apropriavam dessas vítimas, chamadas de “filhos de subversivos”, de “bebês malditos”. Na Argentina, por exemplo, há registro de 500 casos desse crime bárbaro contra a humanidade.

Agora, 34 anos depois de terminar formalmente, a ditadura civil-militar brasileira (1964-1985) tem reveladas essas histórias que estão longe de ter acabado. São segredos dentro do segredo, histórias que ficaram escondidas da população e dos livros.

A revelação desse segredo da ditadura brasileira é fruto de reportagem investigativa que durou mais de três anos. Percorri mais de 20 mil quilômetros do território brasileiro em busca dessas pessoas sequestradas. Dos 19 casos levantados até agora, encontrei e entrevistei cinco vítimas. Os demais casos são contados por familiares ou pessoas intimamente ligadas às vítimas, que continuam desaparecidas. Todos têm documentos que comprovam a existência do crime de sequestro.

Dos 19 casos denunciados, 11 estão diretamente relacionados à Guerrilha do Araguaia, no sudeste do Pará. São filhos de militantes políticos ligados ao PCdoB e também filhos de lavradores que aderiram ao movimen­to guerrilheiro. Há ainda 5 casos em Mato Grosso, 1 no Rio de Janeiro, 1 no Paraná e 1 em Pernambuco.

Essas 19 descobertas são fruto da firmeza e teimosia de um repórter, neces­sárias para negar a versão histórica existente de que no Brasil a ditadura não foi tão cruel como nos demais países da América Latina. Comprova que o Jornalismo de Redescoberta é um método de pesquisa eficiente, utilizado para elucidar fatos pro­positadamente imersos na escuridão do autoritarismo.

Nos casos revelados no livro Cativeiro sem fim, é investigada a motivação desse crime e descobre-se que, sob a ótica da caserna, os sequestros de bebês e crianças – como se fosse crime nascer numa família de oposição ao regime militar – há uma lógica de guerra desenvol­vida para manter o poder e de derrotar os inimigos.

Ainda hoje, a descoberta e denúncia desses crimes de guerra mantém a lógica de negação dos crimes mais bárbaros praticados durante a ditadura. Nada a declarar continua sendo a posição das forças militares. Pesquisadores e a Comissão Nacional da Verdade (CNV) tiveram e ainda têm muitas dificuldades em obter informações dos militares.

Daí a importância do livro Cativeiro sem fim: sua importância documental, que reconstrói a verdade dando voz aos esquecidos, àqueles tornados invisíveis pela opressão, censura e manipulação dos fatos. Trilha o caminho comprometido com os direitos humanos, a justiça social e a democracia.

A ditadura, com os sequestros de bebês, crianças e adolescentes, além de acabar com histórias de vida e negar o direito das famílias de enterrar seus mortos, também tirou de crianças o direito de conhecer sua própria história, de conhecer sua própria família. Como no caso do filho de Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão, que teve seu filho levado pelas forças militares no Araguaia. Ou então Rosângela, entregue a família de militares no Rio de Janeiro, cujo pai “adotivo” era motorista de um dos presidentes-generais.

Cativeiro sem fim e a denúncia da existência de pelo menos 19 casos de sequestro e apropriação de bebês, crianças e adolescentes, filhos de militantes políticos durante a ditadura civil-militar, entregues às famílias de militares ou pessoas a eles ligadas, são uma ação mais que legítima e importante para combater o preconceito, as fake news e a manipulação das informações e da verdade. Abre importante debate na sociedade, sob novas perspectivas, e cria argumentos críticos no discurso histórico sobre a ditadura brasileira.

Afinal, é precisa saber por que no Brasil não temos avançado tanto na investigação dos crimes cometidos por agente do Estado. Por que se insiste até hoje em pôr uma pedra sobre ou negar assunto tão importante?

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

Assine nossa newsletter

Receba conteúdos exclusivos direto na sua caixa de entrada.

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fonte confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!