Alberto Villas

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Jornalista e escritor, prepara o lançamento do “Almanaque Maurício Kubrusly”, pela Panda Books.

Opinião

Tiros na comunidade

Matam Jorges, Luccas, matam Jeniffers, matam Vanessas. As idades variam entre os dedos de duas mãos e quatro mãos, nunca passam dos vinte e poucos anos

Foto: Agência Brasil Foto: Agência Brasil
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Todo dia. Não importa se é na calada da noite, no início do dia, antes mesmo do nascer do sol. Ou se é à noite, depois que ele já se foi e veio a lua. Ouve-se tiros na comunidade. Um barulho seco que se multiplica por muitos. Gritos de dor, de socorro. Os cachorros latem, é automático. Vem o choro, a tentativa de salvar uma vida, o sangue ainda quente na terra. Todo dia, é raro o dia que não tem tiros na comunidade.

Matam Jorges, Pedros, Jonatas, Luccas, matam Jeniffers, matam Vanessas também. As idades variam entre os dedos de duas mãos e quatro mãos, nunca passam dos vinte e poucos anos. Quase todos pretos, olhando de perto, todos pretos. De noite, por volta de oito e meia, nove horas, a cena já desfeita dos crimes aparecem no principal telejornal do país. Sempre a mesma história. A mãe da vítima, quando ainda tem força para falar, fala, pede justiça. Faz uma breve biografia do filho que se foi: menino bom, trabalhador, tinha sonho de ser jogador de futebol, de ser veterinário, de ser alguém na vida. Parentes mais revoltados, já fora do estado de choque, colocam a boca no trombone. Dizem que os tiros vieram dos policiais, que não havia confronto algum, que chegaram atirando.

Corta pro delegado que diz que vai apurar com rigor. Já recolheram as armas para saber de onde vieram os tiros. Todos os envolvidos foram afastados do trabalho de rua, viraram burocráticos. A noite cai na comunidade, depois do boa noite dos dois apresentadores do telejornal.

A mãe ainda tem força para abrir o armário do filho morto e abraçar todas as roupas dele, camisetas com estampas em inglês, bermudas largas, cuecas Hering, e jogar tudo em cima da cama. Vai mandar pro primo que tem o mesmo tipo físico do filho que se foi.

Todos colocam as suas cabeças em travesseiros finos de paina e tentam dormir e não conseguem. Qualquer barulho, um sobressalto. Até mesmo a gata no cio que geme no telhado é motivo para acender a luz e espiar pela fresta da janela. Quem será a próxima vítima? O repórter de plantão cochila na redação, segurando a cabeça, incomodado com a claridade do computador. Ele espera mais uma notícia para ir rapidinho para a comunidade e dar tempo de entrar ao vivo no Bom Dia Rio.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Alberto Villas

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