Milton Rondó

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Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da ONU e representante, alterno, do Itamaraty no extinto Consea

Opinião

‘Temos que parar de nos desenvolver e começar a nos envolver’

‘De fato, como retomar o poder político sem o engajamento da população? Sem que seja ouvida? Cultivada?’, questiona Milton Rondó

Foto:  Neto Gonçalves/Divulgação  Foto:  Neto Gonçalves/Divulgação
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“O mais perfeito dentre os homens é aquele que ama o próximo sem pensar se aquela pessoa é boa ou má”.
Maomé.

A que reflexão exigente nos insta o profeta!

Segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), os conflitos agrários no País cresceram 1000% nos últimos oito meses. As principais vítimas foram os indígenas.

O desgoverno federal foi o principal responsável, estimulando a grilagem de terras, o desmatamento ilegal e o armamento dos latifundiários.

Essa política insana, suicida, representa ameaça para todos: não apenas camponeses, mas também os que habitam o meio urbano – no Brasil e no exterior.

Com efeito, em entrevista recente, a ativista indiana Vandana Shiva alerta para os riscos que a destruição em massa do meio ambiente representa para todo o planeta.

Observa a estudiosa: 75% da destruição do planeta é ocasionada pelo agronegócio, que só alimenta 25% da população.

O aumento desse índice poderá ocasionar a inviabilidade da vida humana sobre a Terra. Não estamos longe dessa linha de não retorno, como os números da CPT, acima citados, evidenciam.

Somem-se aos desastres ambientais os desastres sociais e veremos em que ponto crítico encontra-se a humanidade: a Síria enfrenta a mais grave catástrofe humanitária suportada por um país desde a II Guerra Mundial. No vizinho Líbano, terrivelmente empobrecido, um de cada quatro habitantes é imigrante, na maioria sírios e palestinos.

No brilhante “A vida não é útil” (Companhia das Letras), Ailton Krenak reflete: “O poder, o capital entraram em um grau de acúmulo que não há mais separação entre gestão política e financeira do mundo.”

De fato, no golpe de 2016, presenciamos a subordinação do poder político ao capital financeiro, que dirigiu a ruptura democrática, em conluio com governos estrangeiros, não havendo corsários sem arrimo estatal.

Aduz Krenak: “Temos que parar de nos desenvolver e começar a nos envolver.”

De fato, como retomar o poder político sem o engajamento da população? Sem que seja ouvida? Cultivada?

Muito sabiamente, o sábio indígena insta-nos à ação engajada aqui e agora: “Há muito tempo não programo atividades para ‘depois’. Temos de parar de ser convencidos. Não sabemos se estaremos vivos amanhã. Temos de parar de vender o amanhã.”

Em “Aprendendo a Viver” (Editora Rocco), Clarice Lispector também urge: “Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena!”.

E como ousou essa judia, ucraniana, pernambucana, carioca, brasileira!

Na mesma obra, encontramos: “Há um provérbio que diz: é melhor ser enganado por um amigo do que desconfiar dele.”

Para alguém que, ainda bebê, como o Cristo, precisou fugir do ódio dos pogroms mortais contra os judeus, na Europa Oriental no início do século passado, aquela afirmação da cronista é plena de significado, unindo, mais uma vez, as culturas abraâmicas, a atestar a herança comum de judeus, muçulmanos e cristãos.

Tristemente, porém, o ano começou com bombardeios de Israel à Faixa de Gaza – campo de concentração palestino a céu aberto -, alegando legítima defesa, após foguetes de Gaza atingirem o mar territorial israelense.

Vale notar que as reflexões de Clarice estão sempre pautadas pela coragem, podendo desvelar-nos campos íntimos e coletivos, políticos: “Feliz apenas por ‘fazer parte”.

Quantos significados nesse significante! Quantos sentidos para essas poucas palavras!

Essa imigrante, qual anjo, arquétipo abraâmico, veio para iluminar a força e a ousadia da herança comum, universal, nossas raízes mais profundas, de tronco único, saltando sobre as divisões, os muros, as fronteiras, divisas e limites, divinamente sintetizando: “Pertencer é viver”.

Somos realmente cultura, pertença, que é universal, não nos separa, une; não nos coloca acima, mas ao lado, junto, em partilha, em comunhão: o inconsciente coletivo que nos fora desvelado por Carl Gustav Jung.

Recorda-nos Leonardo Boff, em “O livro dos elogios” (Editora Paulus): “Companheiro é aquela pessoa com quem compartimos o pão (cum panis).”

Podemos, portanto, ser todos companheiros e companheiras! Aliás, devemos! Nosso destino na Terra é comum, ou não será, como o Papa tem repetido à exaustão! Basta que compartilhemos o pão! Esse sinal maior do Cristo na última ceia. Ao compartilhar o pão, jamais nos separaremos.

Isso é muito simples? É, mas como é difícil!

Recorrendo mais uma vez a Clarice, lembremos ainda esta bela ponderação: “Que ninguém se engane: só se consegue a simplicidade através de muito trabalho”.

Um Feliz Ano Novo a todas e todos, na esperança de que possamos mergulhar em nossas alegrias e dores juntos, sentindo a felicidade e a tristeza do outro e da outra como a própria e usando todos os dons à nossa disposição para transformar dor em alegria, tristeza em felicidade, indiferença em amor.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Milton Rondó

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