Mário Maurici

Deputado estadual pelo PT-SP

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Tarcísio é protagonista do ‘Corra que a Polícia Vem Aí’ paulista

Esperamos que a Alesp crie a CPI, que o MP investigue as irregularidades, que a imprensa dê visibilidade a esse escândalo – e que a sociedade cobre o governador

Tarcísio é protagonista do ‘Corra que a Polícia Vem Aí’ paulista
Tarcísio é protagonista do ‘Corra que a Polícia Vem Aí’ paulista
O secretário de Segurança Pública de SP, Guilherme Derrite, e o governador paulista, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Foto: Alesp/Reprodução
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Não é comédia, nem ficção, mas uma tragédia desastrosa de pura realidade. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, protagoniza uma política de (in)Segurança Pública que poderia fazer alusão à obra cinematográfica e se chamar “Corra que a Polícia Vem Aí em São Paulo”.

Em recente texto na CartaCapital (Avalanche de “casos isolados”), a repórter Mariana Serafini traz o panorama da política de Tarcísio e seu secretário Guilherme Derrite desde que assumiram, em 2023. “Na contramão do País, São Paulo registrou aumento de 60,9% nas mortes decorrentes de intervenção policial em 2024”, escreveu, com lastro nos dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

Foram 813 homicídios em 12 meses, mais de ­duas mortes por dia! Enquanto a média nacional de mortes cometidas por policiais militares em serviço caiu 3% no ano passado, em São Paulo, o número explodiu e subiu 60,9% em relação a 2023.

Algo precisa ser feito para mudar o quadro. Ainda mais porque, nas últimas semanas, um novo escândalo veio à tona. Os registros da plataforma que a Polícia Militar usa para arquivar as imagens capturadas pelas câmeras dos uniformes indicam fragilidades no sistema. Pior: há indícios de um esquema de manipulação e fraudes para deletar gravações ou alterar informações dos arquivos salvos.

Simplesmente, nomes de policiais que levavam câmeras em seus uniformes para gravar ações ostensivas foram alterados no sistema, inviabilizando a consulta aos arquivos. Há casos em que as gravações foram deletadas, como o da ocorrência de 9 de março de 2024, no Morro do José Menino, em Santos. Foi nesse dia que Joselito dos Santos Vieira foi morto com três tiros de fuzil e nove de pistola.

Há dois anos, a empresa Axon chegou a ser questionada pela PM-SP sobre manipulações indevidas e fraudes na plataforma. Ou seja, os órgãos de segurança de Tarcísio sabiam dos problemas e nada fizeram. Além disso, circulam em grupos de mensagens informações sobre a venda de “serviço” de clonagem dos cartões de acesso às câmeras dos uniformes.

Os deputados estaduais do PT na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) tomaram duas providências imediatas: pedir ao Ministério Público que investigue e iniciar a coleta de assinaturas para instalar uma CPI.

Câmeras nos uniformes são importantes ferramentas de controle e fiscalização do trabalho policial, mas também captam imagens cruciais para constituir provas em investigações de combate às organizações criminosas. É tecnologia tanto a favor do trabalho policial, como para debelar práticas delituosas de agentes de segurança pública.

Desde que foi adotado esse recurso tecnológico, em 2020, o número de mortes de policiais e as cometidas por policiais caía ano a ano. Em 2023, quando Tarcísio e Derrite assumiram, voltou a subir: 34%, num total de 333 pessoas mortas por policiais em 2023; e 60,9%, com 813 homicídios praticados por PMs em 2024. Esse recrudescimento não é fruto do acaso, mas de uma política de (in)segurança que se ampara em três pilares: 1. Discurso duro e fácil, de combate à criminalidade com uso da força policial; 2. Incentivo à violência policial como método de tratamento das ocorrências; e, 3. Desmonte das estruturas de inteligência e investigação criminal.

Dos primeiros pilares, temos como resultado imediato as operações Escudo e Verão, na Baixada Santista, com 84 pessoas mortas, entre julho de 2023 e abril de 2024. Há muitos relatos de civis assassinados nessas investidas.

Mas o incentivo à violência como método policial se viu em vários outros casos: de um homem atirado de um viaduto a agressões físicas em abordagens a mulheres. Segundo o FBSP e a Unicef, de 2022 a 2024, as mortes de crianças e adolescentes decorrentes de intervenções policiais aumentaram 120% no Estado. Por óbvio, pessoas negras são 3,7 vezes mais vítimas letais da PM-SP.

A trajetória dos números mudou não por acaso. As fraudes nas câmeras são mais um ingrediente do desmonte das estruturas de inteligência e investigação criminal. Tarcísio primeiro foi contra as câmeras, depois resistiu à sua implantação e freou o ritmo de expansão. Com a alta nos casos de violência policial, viu-se pressionado e passou a dizer que elas cumpriam uma função. É pouco.

Esperamos que a Alesp crie a CPI, que o MP investigue as irregularidades, que a imprensa dê visibilidade a esse escândalo – e que a sociedade cobre o governador. São Paulo precisa e merece uma reviravolta na Segurança Pública que enfrente o crime, proteja cidadãos de todas as origens, avance no uso de tecnologias e invista na inteligência e na investigação para que as organizações criminosas sejam desmontadas no médio e longo prazos. Esse é o caminho.

A opinião de colunistas e convidados não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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