Opinião

Talvez seja o momento de voltarmos a valorizar a experiência

Contrapor à cultura do ódio a da amizade, o dialogar à ignorância, o conhecimento ao fechamento

O filósofo camaronês Achille Mbembe durante palestra. Foto: AFP
O filósofo camaronês Achille Mbembe durante palestra. Foto: AFP

“A verdade expressada em palavras é a maior força que pode haver na vida de qualquer pessoa. Não chegamos a ter compreensão completa dessa força, porque suas consequências nunca são vistas de imediato.” 

Leon Tolstoi.

A chacina do Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, no dia 21 de novembro, que vitimou oito jovens, está longe de ser um fato isolado, sendo político na verdade.

Para melhor contextualizar e entender, recomendo a leitura de “Políticas da Inimizade”, de Achille Mbembe (n-1 edições e Embaixada da França no Brasil).

Com efeito, Mbembe assim analisa a contemporaneidade política: “Irreprimíveis, o desejo de apartheid e a fantasia do extermínio constituem a linha de frente, em suma, a prova de fogo do início deste século. Vetores por excelência da descerebração contemporânea, por toda parte eles fazem com que os regimes democráticos, ao abrir a boca, exalem um hálito fétido e, em delírio furioso, levem vida de bêbados…Levadas às suas últimas consequências, elas desembocam quase inexoravelmente no anseio de destruir – o sangue derramado, o sangue convertido em lei, em expressa continuidade com a ‘lex talionis‘ (a lei do talião) do Antigo Testamento.”

Ou seja, para a morte de um policial, morrem oito, em contrapartida; conforme a lei do “olho por olho, dente por dente”. Lei do Antigo Testamento, à qual se remetem a oligarquia – para se proteger e inibir toda qualquer revolta -, os evangélicos neopentecostais e os carismáticos católicos.

Dessa forma, percebe-se a funcionalidade dessas formas de religiosidade, induzindo à aceitação do “castigo” e à inibição da revolta. A difusão delas garante a possibilidade da aplicação da pena de morte, sem que tenha sido legalizada, mas sendo – pela interpretação que dão ao Velho Testamento – legitimada.

Não que sua legalização não tenha sido buscada, pelo projeto de lei que tentou introduzir o “excludente de ilicitude”, proposto pelo então ministro da Justiça Sergio Moro, atual candidato à Presidência pelo Podemos.

Em uma análise que combina ciência política e psicanálise – e atualizando o filósofo francês Michel Foucault – Mbembe acresce: “No contexto da rivalidade mimética exacerbada pela ‘guerra ao terror’, dispor, preferencialmente de forma espetacular, do próprio inimigo se tornou passagem obrigatória na constituição do sujeito e em sua entrada na ordem simbólica do nosso tempo. Na realidade, tudo acontece como se a negação do inimigo fosse vivida, enquanto tal, como uma profunda ferida narcísica. Ser privado do inimigo – ou não ter sofrido atentados ou outros atos sangrentos fomentados por aqueles que nos odeiam a nós e ao nosso modo de vida – equivale a ser privado do tipo de relação de ódio que permite que se dê vazão aos mais variados desejos que de outra forma seriam proibidos. É ser privado do demônio sem o qual quase nada é permitido, por mais que nossa época apele com enorme urgência à licença plena, ao descobrimento e à desinibição generalizada. É também se ver frustrado em sua compulsão de se atemorizar, em sua capacidade de demonizar, no tipo de prazer e satisfação sentidos quando o suposto inimigo é abatido pelas forças especiais ou quando, capturado vivo, é submetido a intermináveis interrogatórios e levado para ser torturado em um ou outro dos lugares secretos que maculam nosso planeta.”

De fato, esse simbolismo é trabalhado na população em seus níveis mais profundos, inclusive o religioso, talvez o mais penetrante.

Em uma lanchonete na estrada, deparei-me com os seguintes dizeres talhados na madeira: “Deus honra quem merece honra”. Portanto, não ama todos, como acreditavam os cristãos, mas somente alguns. Os demais já não são Seus filhos e filhas, não merecem favores e graças.

A afirmação não dista, ao contrário, conforma-se inteiramente com o seguinte bordão da extrema-direita: “Direitos humanos para humanos direitos.” Portanto, os que não forem julgados direitos pelos algozes – sem direito ao devido processo legal, pois liminarmente dele excluídos ao não fazerem jus aos direitos humanos – podem ser sumariamente eliminados.

Ao lado disso, a introdução da realidade virtual trouxe ainda maiores desafios para a correta percepção da política, em todas as suas formas, da arte à segurança pública.

Com efeito, em “Carpe Diem”, de Roman Krznaric, editora Zahar, o autor observa: “Essa ideia foi poderosamente defendida no livro clássico ‘Four Arguments for the Elimination of Television’, de 1978, escrito pelo ex-executivo de publicidade televisiva Jerry Mander. ‘Em uma geração, de centenas de milhares na evolução humana’, escreveu ele, ‘os Estados Unidos haviam se tornado a primeira cultura a substituir a experiência direta do mundo por versões secundárias, mediadas da experiência…Na visão de Mander, porém, a TV nos submergiu num ambiente artificial como nunca antes, acelerando a difusão da experiência mediada e nos introduzindo numa nova era de vida por procuração. Tornou-se normal sentar em frente a uma tela e passar uma porção substancial do dia assistindo a outras pessoas viverem suas vidas – ou atores fingindo ser outras pessoas -, em vez de vivermos a nossa. Em termos históricos, isso foi nada menos que bizarro.”

Talvez, seja o momento de voltarmos a valorizar a experiência, a vivência, o “vissuto” dos italianos.

Contrapor à cultura do ódio a da amizade, o dialogar à ignorância, o conhecimento ao fechamento.

Vale recordar que, no conhecer, todas as formas são igualmente importantes, sem hierarquia, uma vez que escalonar guarda mais relação com a sombra do poder – a artificialidade manipuladora – do que com a real escala de valores.

Milton Rondó

Milton Rondó
Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da Organização das Nações Unidas (ONU) e representante, alterno, do Ministério das Relações Exteriores no extinto Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).

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