Somos atravessados pelo racismo, mas não estamos todos juntos na luta

Lembrei-me de uma história quando trabalhei como supervisora escolar ao ver 'a união dos pretos' no BBB

Somos atravessados pelo racismo, mas não estamos todos juntos na luta

Opinião

Vamos juntar os pretos para tirar os brancos? A proposta de Lucas Penteado no BBB 21, dá pano pra manga. Assim como o ditado, a frase propositiva de junção de negros como estratégia, também carrega complexidades e gerou polêmicas, mesmo utilizada em um programa que tem como objetivo a eliminação do outro.

Consciente das desumanizações históricas presentes nas produções da Rede Globo, ainda assim acompanho. Se milhares de estudantes assistem, precisamos minimamente saber o que rola. Após ler postagens questionando, decidi utilizar a polêmica frase, vamos juntar os pretos e tecer algumas considerações a partir de relatos de quando atuava na Supervisão Escolar.

Estava ansiosa para começar na supervisão e encerrar o ciclo de atuação na Coordenação, quando em uma reunião de final de período letivo em que estavam presentes todos os supervisores da cidade, notei a presença de uma supervisora negra, que atuava no local para onde eu iria.  Me aproximei e disse a ela: O ano que vem vamos trabalhar juntas, minha irmã. Ela me pareceu receptiva.

Percebi já no começo, que “minha irmã”, que assim será chamada neste artigo, exercia uma liderança no grupo de maioria branca que evitava se aproximar de mim. Entendi as razões quando uma funcionária me revelou que estavam receosos com a minha chegada, pois aquela que eu chamei de “irmã” alertou que deveriam se preparar para receber uma pessoa muito “difícil”.

Em uma das reuniões, a chefia solicitou que formássemos grupos para o trabalho e a minha “irmã” rapidamente propôs que o critério para composição fosse afinidades. Proposta aceita, os grupos foram formados. Não fui convidada para integrar nenhum deles e também não me ofereci. Se possível, escolho não trabalhar com quem demonstra não querer compor comigo.

Me aproximei de outra mulher negra, que atuava em uma das divisões para propor parceria, mas no momento em que citei a obrigatoriedade de implementação das Diretrizes Curriculares para as Relações Étnico-Raciais no currículo, ela encerrou a conversa dizendo que eu era muito “radical”.

Era como o conselho de Dona Ana, mãe de Mano Brown citado no rap dos Racionais, Jesus chorou:

“Paulo acorda, pensa no futuro que isso é ilusão. Os próprio preto não tá nem aí com isso não, Olha o tanto que eu sofri, que eu sou, o que eu fui. A inveja mata um, tem muita gente ruim”.

Decidi trabalhar sem a parceria da Supervisão quando em uma tarde, atendi uma ligação telefônica de um deles, um homem branco que destilou racismo disfarçado em pseudo elogio e cuidado:

“Preciso da ajuda da nossa RAINHA DE BATERIA.

Quer um conselho, MINHA QUERIDA? Pare de falar das relações de RAÇA.

Você está se transformando em uma CARICATURA para o grupo!”

Busquei alianças em outros espaços e não foi difícil encontrar pessoas dispostas a cooperar. Organizei dezenas encontros para estudo e convidava profissionais de todas as escolas da região para participar. Após 6 anos, fui convidada a assumir chefia do grupo e as relações étnico raciais foram de forma pioneira incluídas no Plano de Ação da Supervisão.

Estiveram comigo estudiosos como: Antônio Carlos Malachias, Rosangela Malachias, Vera Lucia Benedito, Luana Antunes, Deivison Faustino, Valter R. Silvério, Rosane Borges, Sidney Santiago Kwanza, Bruna Valim, Djamila Ribeiro, Rosane Borges, Hasani Santos, Jefferson Sankofa, dentre outros, mas aquela que eu chamei de “irmã”, jamais cooperou.

“Minha irmã” foi para outra instituição, mas antes de sair teve duas ações significativas. A primeira quando me contou com a voz embargada que, ao chegar na academia que se exercitava, foi abordada por três homens brancos. Eles diante de todos ordenaram que ela higienizasse alguns aparelhos imaginando que ela trabalhava na limpeza.

A segunda quando reuni a supervisão escolar, como chefa pela primeira vez. No momento em que disse ao grupo: Aceitei o desafio para liderar esse grupo, porque reconheço a importância que de que estar neste lugar, não é uma escolha que faço, apenas por mim.  “Minha irmã” se levantou diante do grupo, veio ao meu encontro e me beijou na face sem dizer uma palavra.

 

 

Se eu pudesse aconselhar o Lucas, durante o reality, diria que é importante juntar os pretos nos campos de luta. Contudo, essa construção necessita de mãos e mentes dispostas e comprometidas com a pauta. Diria que há muitos exemplos na história deste país que comprovam que a união é uma estratégia possível e importante, dentre eles a Marcha das Mulheres Negras-2015, que reuniu cerca de 50 mil mulheres negras, com visões e experiências diferentes, em Brasília, conclamando um novo pacto civilizatório. Foi a maior marcha contra o racismo desde a de Zumbi, em 1995.

Diria que saber-se pertencente a um grupo minoritário, não faz de alguém um ativista, sequer um aliado. Que é preciso saber que existem diferentes níveis de letramento racial e perversidades na composição das subjetividades que certamente nos desapontarão.

Já a Rede Globo não precisa de conselhos. Ela sabe dos avanços e conquistas em prol da justiça racial, não só neste pais. O BBB 21 me parece com a velha estratégia comum. A mesma utilizada pelo homem que me chamou de rainha de bateria destilando seu racismo “elogiosamente”: desqualificar pautas e conquistas importantes transformando as em caricaturas se escondendo em uma capa desonesta de aparente cordialidade e bondade. Estratégia covarde e violenta gerada por sentimentos como o ressentimento e o medo do que sabe que não conseguirão conter.

Se Lucas estivesse no BBB com Mano Brown – e não com Projota (que disse que era Brown para Lucas) –  o conselho que ouviria provavelmente seria o mesmo que Dona Ana deu a seu filho, e não o mito da democracia racial defendido com emoção por Projota. Felizmente, para o nosso alívio e o dele também, Lucas escolheu sair pra pegar essa visão.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Pedagoga com 30 anos de experiência na área da Educação no município de São Paulo. Foi Coordenadora Pedagógica, Supervisora Escolar 10 anos. Supervisora Técnica por 4 anos. Diretora da Divisão de Normatização Técnica da Secretaria Municipal de Educação.

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