Sobre Primo Levi e a identificação com as crianças de Fossoli

O relato do escritor me jogou de volta para momentos da minha própria infância

Foto: Reprodução

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Opinião

Impressionou-me, leitor ou leitora, ensaio publicado recentemente no caderno de cultura da Folha de S.Paulo pelo cientista político Renato Lessa sobre um escritor célebre, mas que eu desconhecia – Primo Levi, judeu-italiano que sobreviveu a Auschwitz e foi um dos expoentes de um gênero: a literatura de testemunho, o relato dos sobreviventes à experiência do horror. Comecei a ler alguns dos seus livros, inclusive os poemas.

Os escritos enraizados em vivências sempre têm mais peso e apelo emocional. Isso vale, também, para as obras de arte em geral e, por isso, talvez se possa dizer que a realidade é a forma mais perfeita de ficção. O escritor, o artista em geral não precisa, a rigor, inventar nada – apenas recuperar lembranças e lançar luz sobre a experiência vivida.

Não é o que fazem os grandes escritores, os grandes artistas? Não inventam, nem fabricam propriamente. Procuram ancorar-se na realidade que viveram diretamente, que sentiram na própria carne, por assim dizer – ainda que as obras não sejam estritamente autobiográficas, como as de Levi. Esse processo de elaboração foi retratado de forma maravilhosamente vívida no último filme de Pedro Almodóvar, Dor e Glória. Espero que o leitor ou leitora tenha visto o filme, que trata das dores e dos abismos do processo criativo e constitui, segundo Almodóvar, o seu projeto mais pessoal.

Quando assisti a Dor e Glória, lembrei-me imediatamente de um episódio do fim da vida de Dostoievski, contado por Dmitri Merejkovski, um dos mais importantes romancistas e críticos russos do século passado. Com 15 anos, ele começara a escrever poemas, e seu pai, ao encontrar Dostoievski por acaso em um jantar, teve a suprema ousadia de pedir uma opinião sobre os escritos do filho. Em fragmento autobiográfico, Merejkovski relembrou a visita ao apartamento minúsculo do romancista, a sala de estar apertada, cheia de exemplares de Os Irmãos Karamázov, o escritório também apertado, em que ele estava sentado corrigindo provas tipográficas. Constrangido, gaguejando, o rapaz leu seus versos infantis. Dostoievski ouviu em silêncio, visivelmente aborrecido. “Fraco, ruim, não vale nada”, disse ele, por fim. E soltou a frase que se tornaria famosa: “Para escrever bem, é preciso sofrer, sofrer!” Interessante, também, foi a resposta protetora do pai: “Que não escreva melhor então; não quero que sofra”.

No ensaio de Lessa, tocaram-me em especial as referências aos textos de Levi sobre o campo de concentração de Fossoli, aldeia perto de Carpi, onde se fazia a triagem dos prisioneiros destinados à deportação. Levi relata como as mães cuidavam dos filhos às vésperas do transporte final para Auschwitz, como elas preparavam com esmero as provisões para a viagem, davam banho, arrumavam suas malas e lavavam suas roupas. “Ao alvorecer”, lembra o escritor, “o arame farpado estava cheio de roupinhas penduradas para secar”, imagem de impacto, observa Lessa, que tem altíssimo poder de retenção. Levi prossegue: “Elas não esqueciam as fraldas, os brinquedos, os travesseiros, todas as pequenas coisas necessárias às crianças e que as mães conhecem tão bem”.

Ao transcrever essas frases, reencontrei a emoção que senti quando da primeira leitura. Posso cometer, leitor/leitora, a suprema ousadia, comparável à do pai de Merejkovski, de dizer que me identifiquei com as crianças de Fossoli? É que o relato de Levi me jogou de volta para momentos da minha própria infância. Meu pai era diplomata e ficava, infelizmente, pouco tempo em cada posto. Quase nunca morávamos mais de dois anos na mesma cidade. Meus irmãos e eu éramos seguidamente “deportados” para outra cidade, outro país, outra língua. Nosso pequeno mundo vinha abaixo de repente e lá íamos nós, transportados, às vezes no meio do ano letivo, para nova escola, em novo país e para um idioma que não sabíamos. Era terrível. A cada mudança, porém, nossa mãe tinha o cuidado de colocar todos os nossos brinquedos, livros, revistinhas, apetrechos diversos, até fiapos de coisas, num grande baú azul-claro. Quando a mudança chegava na nova casa, com que alegria abríamos o baú e reencontrávamos todos os nossos pequenos elos com a vida anterior! Os objetos têm uma força que não pode ser subestimada.

A representação do sofrimento intenso ressoa em nós de forma especialmente aguda quando remete, de alguma forma, a situações em que todos nós vivemos, ainda que em escala muito menor. E assim se estabelece o elo entre os casos extremos, as grandes tragédias e a vida corriqueira, os dramas de que ninguém escapa.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Economista. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, e diretor-executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países

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