Sincericídio de Guedes expõe outra vez o projeto antipovo de Bolsonaro

Fala de ministro da Economia não irrita o governo por seu conteúdo, mas por sua sinceridade e indiscrição

Foto: Isac Nóbrega/PR

Foto: Isac Nóbrega/PR

Opinião

Tão logo o ministro Paulo Guedes chamou servidores públicos de parasitas, o exército bolsonarista saiu às redes sociais para passar o pano em suas declarações. “Não se pode generalizar”, disseram alguns, embora permanecessem assinando embaixo do senso comum reverberado por Guedes de que servidores públicos trabalham pouco, ganham muito e são cheios de vantagens. É esta narrativa de privilégios que irá abastecer a defesa de uma reforma administrativa que ignora que o grosso do funcionalismo público está no arco que vai da merendeira da escola municipal à enfermeira da Unidade de Pronto-Atendimento.

O último disparate do ministro é o de que o dólar quando estava baixo era ruim, pois até empregadas domésticas estavam viajando à Disney. Deu-se início à nova passação de pano: Guedes mais uma vez teria se excedido – embora o rumo que esteja dando à economia seja o correto, claro. A verdade é que nem no primeiro e tampouco no segundo caso o ministro cometeu uma derrapada.

Suas afirmações guardam uma coerência sublime com o projeto anti-povo tocado pelo governo Bolsonaro. E também com sua história.

Guedes foi perfilado pela jornalista Malu Gaspar na edição de setembro de 2018 da Piauí. Sua pecha de liberal caricato não é de hoje, chegando a levar na década de 80 o apelido de “Beato Salú” – personagem da novela Roque Santeiro que perambulava anunciando o apocalipse – por causa da contundência catastrófica com que defendia medidas afinadas com o liberalismo ortodoxo, com destaque para o corte de gastos. Após uma reunião na sede da XP investimentos para arregimentar apoio à candidatura de Bolsonaro, Guedes saiu no corredor exclamando em voz alta sua maior obsessão: “gastos, gastos, gastos!”.

O corte de gastos como um fim em si mesmo integra os dogmas religiosos da doutrina neoliberal. São eles que, nos códigos morais do mercado financeiro, justificam o sacrifício humano no altar do rentismo. Na planilha tudo se torna número. Pouco interessa se a mortalidade infantil irá aumentar caso as coisas permaneçam como estão, com a morte de vinte mil crianças e a internação de outras 120 mil até 2030 em virtude dos cortes na saúde, segundo pesquisadores da Fiocruz Minas, Universidade Federal da Bahia, do Imperial College de Londres, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. O problema, segundo Guedes, são os gastos, um mal absoluto, enquanto o Itaú bate o lucro de 28 bilhões, o maior da história entre os bancos brasileiros. Isso durante a mais profunda recessão da história do país.

Nunca é demais ressaltar como Guedes é coerente. Para ele, não há sentido que o serviço público esteja a salvo da uberização das condições de trabalho, hoje em níveis recordes no Brasil. Da mesma forma, pobre deve se satisfazer com o mínimo necessário para ficar em pé, poder trabalhar e tornar possível que a maior parte da riqueza que produz seja apropriada por gente como os acionistas do Itaú, cujos bilionários lucros estão protegidos da mais tímida mordiscada do Fisco. Que o povo esteja trocando o fogão a gás pelo a lenha e o aeroporto pela rodoviária, tanto faz. É parte do roteiro.

O que o ministro fez foi sintetizar um projeto que ostenta entre seus maiores feitos recentes a reforma da Previdência, a reforma trabalhista (lembrem-se dele falando que vai fazer o que Temer fez, só que com o pé no acelerador), o desmonte do Bolsa-Família e a rapina dos fundos públicos para bater as metas de superávit primário e “atrair investimentos” às custas da destruição da rede de proteção social e do aumento brutal de pessoas vivendo em situação de extrema pobreza.

Se houve erro em suas declarações, foi o mesmo cometido pelo nazista Roberto Alvim: não ter sido discreto.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Advogado, mestre em direito constitucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte

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