Maria Inês Nassif

Jornalista e cientista social. Trabalhou nos principais jornais do país. Foi assessora do Instituto Lula.

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Sinais de exaustão do bolsonarismo

O clã deu vários tiros no pé e o Congresso aliado da família aprova furiosamente leis impopulares

Sinais de exaustão do bolsonarismo
Sinais de exaustão do bolsonarismo
Jair Bolsonaro, ex-presidente condenado e preso pela trama golpista. Foto: Nelson ALMEIDA / AFP
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O que mais intriga num processo de fascistização das massas é que uma multidão cega persiga um líder obtuso, construído em torno de mentiras e de ideias tão simplistas e vagas que relativizam a verdade e o bom senso. Assim foi feito o “Mito”, como se autodenominava Jair Bolsonaro. Para um observador da história, todavia, intriga também o fato de existir um ponto de exaustão, além do qual o gênio das Mil e Uma Noites da extrema-direita é recolhido à lâmpada, para lá dormir até que alguém tenha a infeliz ideia de limpá-la e, sem querer, liberar um demônio de ideias pobres que enfeitiça multidões.

No caso brasileiro, os sinais de exaustão ocorreram de repente, quando se imaginava que Bolsonaro, mesmo após uma tentativa de golpe de Estado, protegera sua popularidade do impacto das inúmeras revelações de seu desprezo, e do seu clã, pela democracia, pelo dinheiro público e pelo sofrimento dos mais vulneráveis. Mesmo condenado e preso, o ex-capitão conseguiu transferir para o filho Flávio simpatias de um eleitor forjado no fenômeno de ascensão da extrema-direita e feito à imagem e semelhança do líder: a massa extremista é conservadora, machista, misógina, racista, anticomunista e homofóbica, e mantida unida e coesa em torno de “valores” ditos “cristãos”, de preferência adquiridos em templos evangélicos liderados por bispos e pastores com ativa militância em favor da extrema-direita e copartícipes das decisões de governo do período bolsonarista.

As últimas pesquisas dão pistas de que a evasão de eleitores do legado bolsonarista é ainda pequena, mas quebra a lógica de adesão cega à cultura do ódio. Registram mudanças entre os eleitores evangélicos e entre os jovens originários de uma juventude fascista cultivada pela venda ideológica de uma suposta “liberdade”, traduzida pelo fetiche da motocicleta e do trabalho sem patrão. Há abalos ainda nas convicções extremistas de uma população de renda média, que sonhou com a ascensão social por mérito e tem limites aos seus sonhos definidos por um capitalismo cada vez mais concentrador. Há dúvidas entre os brasileiros com escolaridade e renda alta, historicamente refratários ao PT e ao Lula, que embarcaram na aventura fascista certos de levar o seu quinhão num sistema político baseado na manipulação.

É alentador perceber que o “clique” no eleitorado bolsonarista disparou quando entrou em cena a questão nacional – um atentado à “pátria”, à qual o líder fascista Jair Bolsonaro se apresentava como o único defensor, contra um suposto “comunismo” praticamente banido do mapa mundial em 1989, com a queda do muro de Berlim. Note-se também que, entre os eleitores ouvidos pela Vox Brasil,­ Quaest, AtlasIntel e BTG Nexus, está registrado o entendimento de que o filho de Bolsonaro é responsável pelos recentes ataques dos EUA ao País. Flávio Bolsonaro foi aos Estados Unidos tirar uma foto com Donald Trump e saiu de lá com dois atentados à pátria no bolso: a classificação de grupos criminosos brasileiros como terroristas pela Casa Branca, que “autoriza” legalmente o governo estadunidense a invadir o território brasileiro a pretexto de eliminá-los (a exemplo do que acaba de fazer na Venezuela) e uma nova sobretaxa de produtos brasileiros.

Não apenas a questão externa entra na conta de uma mudança de humor no eleitorado de extrema-direita. Internamente, um governo de esquerda, demonizado pelo bolsonarismo, assume a defesa de direitos constantemente ameaçados por um Congresso venal que corre contra o tempo para aprovar um pacote de maldades em favor de seus interesses, e contra aqueles da maioria dos brasileiros. O que o Legislativo tem feito, com o auxílio oportunista dos presidentes da Câmara e do Senado, é aprovar o maior número de projetos impopulares enquanto possui uma maioria avassaladora no Senado e na Câmara. No ano que vem, não se sabe se terá. O Senado terá renovado dois terços de seus quadros pela eleição de outubro. O PL, maior partido da oposição na Câmara, só se manterá grande se Flávio for competitivo na disputa eleitoral.

Nesse meio tempo, o que o governo tem feito é assumir uma posição clara de defesa dos interesses do País e das classes menos favorecidas da população. A defesa do Pix e da soberania do país, ameaçados pelos EUA, a adoção de programa para reduzir o endividamento popular, a posição corajosa em defesa do direito de aborto de crianças grávidas e a isenção de IR para quem ganha até 5 mil reais são posições que não apenas definem um governo, mas expõem a fragilidade dos vínculos da extrema-direita com os interesses da população. Lula deixou de lado a esperança de que negociar com extremistas pode produzir bons frutos. O estadista e o político que existem dentro dele assumiram uma posição. •

Publicado na edição n° 1418 de CartaCapital, em 24 de junho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Sinais de exaustão do bolsonarismo’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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