Sim, vidas negras interessam sim

Vamos lembrar quando havia Ângela Davis de punhos cerrados, os Panteras Negras nas ruas, Martin Luther King sonhando

Fotos: Guilherme Gandolfi / @guifrodu

Fotos: Guilherme Gandolfi / @guifrodu

Opinião

Julieta um dia casou-se com Manoel, dez anos mais velha que ele, de véu, grinalda e tudo. Manoel chegou com três filhas, Heloisa, Célia e Elizia, e passou a ser chamado de Manoel de Julieta. Os dois tiveram o Manoelzinho e a Conceição. Um dia Manoel trocou Julieta por uma mais novinha, mas nunca deixou de ser Manoel de Julieta. 

Havia Ângela Davis de punhos cerrados, os Panteras Negras nas ruas, Martin Luther King sonhando, Nelson Mandela na cadeia, John Lewis, Breonna Taylor, Cassius Clay, aliás Mohammed Ali, Al Hajj Malik Al-Shabazz, isto é, Malcon X. 

Julieta não sabia ler nem escrever. 

Ela passava a roupa da nossa casa, uma trouxa enorme que toda segunda-feira. Ninguém nesse mundo passava roupa tão bem como Julieta. Engomava as camisas, passava golas e colarinhos que dava dó de usar. O vinco das calças, nem se fala. Fazia questão de passar toalhas e panos de prato. Até os panos de chão, Julieta passava. 

Ela chamava ferro de passar de ferro elétrico porque havia o ferro à brasa, como o da casa dela. 

Era uma preta cem por cento que usava uma saia azul marinho batendo na canela, uma blusinha branca de pele de ovo rendada nas bordas da gola. Vinha sempre de sandália de couro carregando uma sacola da cânhamo. Era o uniforme que inventou pra si. Julieta ficava em casa até a última peça. 

Na sacola trazia mudas de taioba, folhas de hortelã e ramos de sálvia. 

Muitos sábados fomos passar a tarde na casa de Julieta, no bairro de Santa Mônica, onde ela morava. Era uma casa muito simples, caiada de verde claro, impecavelmente limpa. Julieta colocava paninhos de linho branco em cima dos móveis, protegendo os porta-retratos, um vasinho com flores de plástico, uma fruteira com bananas, laranjas e carambolas. Na parede, uma Santa Ceia e duas fotos ovais, uma dela, outra de Manoel.  

Ela usava tranças muito bem feitas e nós fomos acompanhando durante o passar dos anos, os seus cabelos embranquecendo.

Nas visitas a Julieta, ela nos servia um café muito saboroso, cheiroso, com broa de fubá, ora bolinhos de chuva, ora sequilhos que ela mesmo fazia. 

Lembro-me que Manoelzinho foi crescendo, crescendo e virou doutor numa época em que não havia rap, hip, nem hop. O rock ainda engatinhava com Bill Haley e seus cometas ao som de Rock Around the Clock. 

Agora estou procurando Conceição, a irmã de Manoelzinho.

Sim, vidas negras importam. 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Jornalista e escritor, prepara o lançamento do “Almanaque Maurício Kubrusly”, pela Panda Books.

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