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Signos, ideologia e política de aniquilação

Opinião

Começo esse escrito com duas frases que, tamanho o horror que carregam, foram insistentemente replicadas nas redes desde o domingo 21, num contexto misto de pânico e clamores por mais amor, respeito, alteridade, afeto… ou só pela democracia, mesmo. Todo mundo já sabe a autoria, então não vou referenciar. Aí está: “Vai haver uma limpeza como nunca houve antes nesse País. Vou varrer os vermelhos do Brasil.

Sem entrar no mérito da varredura, pois não há espaço nesta coluna para explorar a obsessão que fascistas têm com limpeza, pergunto: quem ou o que são “os vermelhos”?

Seriam os canadenses ou japoneses, dadas suas bandeiras nacionais? O Boi Garantido de Parintins, ou quem sabe a torcida do Inter de Porto Alegre? Personagens fictícios, como Papai Noel, Saci Pererê, a Mônica, eles também serão varridos por suas indumentárias? E a Coca Cola, entra nessa conta? Ou, quem sabe, varrer-se-á o nome do País, já que a extração da madeira que o nomeia, o pau-brasil, notoriamente servia para a produção de tinta vermelha?

A resposta óbvia, no contexto, a gente sabe, e a fixação nacional contra o vermelho tem origem na bandeira do PT e no fato de que a cor está também indelevelmente associada ao comunismo – que há muito não passa de ameaça fantasma por estas terras.

É inegável que o vermelho representa ideologias revolucionárias, tradicionalmente associadas a isso que chamamos de esquerda. Porém a cor não apenas não representa somente isso, como também está longe de representar todas as manifestações por revolução: tradicionalmente relacionado ao feminismo, por exemplo, está o roxo. (Pensando logicamente, isso nos isentaria dessa varredura, sim? A mente ferve.)

Vermelho é uma cor cheia de significado, que remete a paixões e energia vital. Em coisas como maquiagens e flores, tende a indicar romance ou sedução. Em restaurantes, é aplicada por estimular o apetite. É a cor do sangue, da carne, e talvez por isso seja a única nomeada em todos os idiomas conhecidos (além de branco e preto, mas tecnicamente o primeiro é a totalidade das cores, e o segundo, ausência).

Nos discursos cristãos o vermelho é associado ao pecado, ao diabo, aos desejos do corpo. E até bem pouco tempo atrás, todos os anúncios de absorventes higiênicos usavam líquidos azuis para descrever visualmente as vantagens de produtos com abas ou quaisquer outras firulas, tamanho o tabu com a menstruação, que indica o pavor que o sangramento mensal das mulheres gera na sociedade.

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Vermelho é uma cor em que são embutidos significados diferentes. E não é originalmente brasileiro que o vermelho sirva como signo que aglutina desejos fascistas por extermínio.

Qualquer um que não declare votar no presidenciável Jair Bolsonaro pode ser, hoje, marcado como “vermelho”. Li há pouco nas redes sociais o relato de uma mãe cujo filho adolescente foi perseguido por eleitores declarados do deputado por estar usando uma camiseta contendo um H na cor.

Confundiram o apreço do garoto pela saga Harry Potter com H de Haddad. Há alguns anos, ainda nas manifestações pró ou contra o impeachment de Dilma Rousseff, já havia gente reportando sofrer agressões por estar vestido com alguma peça vermelha, mesmo sem estar participando de nenhum ato.

A aglutinação do produto interno bruto chamado ódio neste tempo-espaço Brasil deposita no signo “vermelho” o que é na realidade uma imensa paleta de cores, e inclinações ideológicas e políticas, e existências e vivências. Essa confusão não é acidental, mas meticulosamente causada.

Como muito bem colocou a ativista feminista Lara Werner em sua página de Facebook, “Analfabeto político é sempre um analfabeto semiótico”. Essa frase potente conversa lindamente com duas máximas de filósofos da comunicação e da linguagem; a primeira, “Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo”, de Ludwig Wittgenstein, e a segunda, “O meio é a mensagem”, de Marshall McLuhan.

Essas duas frases me acompanham há muito, e não porque as considero máximas irrefutáveis – pelo contrário, se por vezes concordo integralmente com uma ou outra, as vezes as considero essencialistas. Mas as cito porque ambas dizem muito sobre esse período eleitoral.

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Conheço muitos eleitores do Bolsonaro, e os vejo pelas minhas redes, que elegi manter plurais por achar saudável saber como pensa quem pensa muito diferentemente de mim. Não me interessa viver em uma câmara de eco, e sim que meu pensamento seja desafiado. Mas essa manutenção só é saudável se pautada no apreço pelo debate, não em desejos mórbidos por aniquilação. Assim, tenho evitado gente anti-vermelho nestes dias insanos, para manter a sanidade.

Em uma coluna publicada aos 21 de setembro indiquei que ascensão da chapa Bolsonaro-Mourão me assustava porém não surpreendia, por ser um sintoma cultural de uma nação já bem violenta. E embora eu ache realmente leviano enquadrar todos que declaram voto no ex-capitão como fascistas, não escondo estar de queixo e espírito caídos frente a variedade de gentes que o bolsonarismo abarca e a facilidade com que parte significativa desse imenso contingente populacional desconsidera o caráter autoritário do projeto que defende.

Não tenho conseguido interagir com estes eleitores, e não por falta de tentativa, mas porque o diálogo tende a ser natimorto. Ora, se os limites da linguagem são os limites do nosso mundo, encontrar pontes entre quem interpreta palavras e discursos de formas tão dissonantes não é tarefa fácil – sobretudo quando uma parte da interlocução se utiliza do que o psiquiatra Robert Jay Lifton chama de “clichê que encerra pensamento” (thought-terminating cliché, no original).

Este refere-se a platitudes que justificam lógicas falaciosas, empregadas em conversas com o fim de encerrá-las, cancelando assim as reflexões difíceis que a angústia da dissonância cognitiva inevitavelmente engendra. Equilibrar pensamentos e sentimentos contraditórios, afinal, exige centramento, e como discutir com alguém que, não conseguindo fazer isso, nos encerra em coisas como uma cor?

A retórica simplória do candidato do PSL e, mais importantemente para este argumento, o emprego de redes sociais para sua distribuição (predominantemente o WhatsApp) são características de sua campanha. E aqui invoco a ideia de que o meio é a mensagem, levantada neste contexto pelo mestre em mídia e governança de comunicação Leandro Beguoci em seu perfil de Facebook.

Um canal de mídia não é apenas um veículo de transmissão, e sim um meio que influencia a forma da mensagem que compõe um conteúdo. Para Beguoci, e concordo, essa é a razão pela qual a campanha de Bolsonaro – especialmente nesta rede social de difícil rastreabilidade, e que dá a sensação de promover encontros virtuais íntimos – precisa parecer ter ocorrido voluntariamente para atestar verossimilhança. O meio WhatsApp, nesta campanha, é a própria mensagem da campanha, aparentando ser feita voluntariamente, pelo povo, elemento central que sustenta a ilusão de que Bolsonaro representa a luta anti-establishment.

Uma reportagem da Folha de S.Paulo publicada na semana passada revelou a compra de pacotes, custando até 12 milhões de reais, de disparos em massa de mensagens que beneficiam a candidatura de Bolsonaro. Desde que denunciou o esquema – mantido por meio de um Caixa 2 e minimizado pelo TSE – a jornalista Patricia Campos Mello passou a ser alvo de ataques de apoiadores do candidato.

Seria cômico se não fosse trágico que seja precisamente a chapa que tem a aniquilação como modo de fazer política quem acusa seus oponentes de “vermelhos”. Devem estar olhando melhor para o já não tão metafórico sangue que têm nas próprias mãos.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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É fundadora da Casa da Mãe Joanna e mestre em Gênero, Mídia e Cultura.

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