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Seu cérebro é o novo petróleo
Enquanto você se compara com a vida editada de um influenciador, que faz milhões endividando outros milhões, o algoritmo monetiza a sua frustração, raiva e revolta
Há uma grande chance de você estar lendo esse texto em um celular, talvez com o pescoço torto igual um camarão e com uma leve deformação no dedo mindinho. Entre um vídeo de frutas falantes e outro de alguém espremendo cravos, você vai gentilmente cedendo para grandes corporações os seus ativos mais preciosos: o seu tempo e a sua atenção.
Na economia da atenção, a verdadeira extração de valor não acontece no fundo do mar nem nos barris de petróleo, mas nas profundezas da sua retina. O tempo não é só dinheiro: para as big techs, o seu tempo é o produto que elas embalam e vendem com um laço para anunciantes enquanto você tenta descobrir por que se sente tão cansado, mesmo tendo acabado de acordar de um sono de 8 horas.
Durante muito tempo, o que guiou a economia majoritariamente foi a escassez de recursos naturais. Hoje, esse eixo mudou. No capitalismo contemporâneo, a atenção das pessoas se tornou motivo de empresas digladiarem por ela e, por mais que muitas vezes xoxa, manca e capenga, virou commodity. Herbert Simon, economista e prêmio Nobel, percebeu isso décadas atrás, ao escrever: a riqueza de informação cria a pobreza de atenção. A frase envelheceu bem. Pena que nós não.
Na economia da atenção, as plataformas digitais disputam audiência, permanência e previsibilidade comportamental. Não basta que você entre, é preciso que você fique. E o estado ideal não é a inércia, é preciso que cada conteúdo te gere sentimentos: você pode sair um pouco mais irritado, emocionado, ansioso do que entrou.
O modelo de negócio é simples de entender: a empresa que tem algo a vender paga a rede social para anunciar. Quanto mais anúncios são mostrados, mais receita é gerada. Sendo assim, a plataforma precisa desenvolver formas cada vez mais elaboradas de manter nela o usuário. Aqui entram os algoritmos.
Estamos exaustos, mas não conseguimos desconectar, porque o ciclo de dopamina nas redes sociais é desenhado para ser viciante. É o que especialistas chamam de “design persuasivo”: interfaces criadas para explorar vulnerabilidades psicológicas. Já parou para se perguntar o motivo do botão de curtir ser exatamente do lado que você segura o celular? Ou do porquê seu feed começa a te mostrar diversos vídeos de mansões espetaculares após você ficar vidrado vendo um vídeo da corretora de luxo do TikTok até o final?
A própria Meta diz que avalia milhares de sinais para prever o que cada usuário tem maior probabilidade de achar interessante. Em sua explicação oficial, a empresa afirma que o sistema decide o que aparece com base em previsões sobre as nossas curtidas, comentários, compartilhamentos, tempo de consumo e outras formas de interação. Assim funciona também em outras redes como TikTok, X (antigo Twitter) e YouTube: te prendem no magnetismo da tela a fim de te entreter e mostrar o máximo de anúncios possível.
Um resultado desse tempo de tela excessivo é um aumento brutal na ansiedade e no sentimento de atraso. Enquanto você se compara com a vida editada de um influenciador, que faz milhões endividando outros milhões, o algoritmo monetiza a sua frustração, raiva e revolta. O feed parece gratuito porque a cobrança não vem em boleto mas quando você não paga por algo, o produto é você.
Consumimos mais conteúdos, entregamos mais dados e somos apresentados a mais formas de consumir tranqueiras que não precisamos. Acho que você pode imaginar o impacto disso na produtividade e o tanto de cartão estourado que essa brincadeira proporcionou. Estudos da pesquisadora Gloria Mark, da Universidade da Califórnia, indicam que o tempo médio que uma pessoa passa focada em uma única tarefa antes de ser interrompida ou se interromper sozinha para olhar o celular é de apenas 3 minutos e 5 segundos.
Para um profissional que ganha dois salários mínimos no Brasil, esse comportamento pode representar uma perda de produtividade equivalente a 880 reais mensais, mais de 30% do seu rendimento. A capacidade de realizar raciocínios complexos que exige atenção sustentada vai se perdendo com vídeos de gatinhos ou de gente limpando tapetes. Estamos treinando nossos cérebros para serem máquinas de respostas rápidas e superficiais, sacrificando o pensamento crítico.
Projeções da eMarketer para 2026 indicam que a Meta deve ultrapassar o Google em receita publicitária global pela primeira vez, atingindo 243,5 bilhões de dólares. E o que explica essa virada? IA aplicada à recomendação de conteúdo e o reels, que já supera os 50 bilhões de dólares em receita anual. Eles não querem necessariamente que você compre o produto, mas querem garantir que você fique para assistir ao anúncio.
Segundo o Relatório de Visão Geral Global do Digital 2026, o Brasil tem 185 milhões de usuários de internet e 150 milhões de identidades de usuários em redes sociais, o equivalente a 70,4% da população, sendo um dos países com maior tempo diário de conexão: cerca de 9 horas e 13 minutos por dia, das quais 3 horas e 37 minutos em redes sociais. Em português claro: há uma jornada paralela de trabalho acontecendo todos os dias, só que sem salário, sem sindicato e com lucro indo para o Vale do Silício.
A solução não é um “detox” ou apagar as redes sociais, mas a consciência de que nossa atenção é um ativo político e financeiro. Entender o funcionamento das plataformas te dá a chance de contornar o mecanismo pelo qual o capitalismo se retroalimenta. O preço que pagamos com saúde mental e foco está ficando caro demais para qualquer orçamento. Milhões de pessoas estão sobrevivendo presas frente a uma tela, se tornando apenas mais um dado estatístico no relatório trimestral de lucros do multibilionário Mark Zuckerberg que, não ironicamente, limita rigorosamente o uso de telas para as próprias filhas.
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