Luana Tolentino

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Mestra em Educação pela UFOP. Atuou como professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana. É autora dos livros 'Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula' (Mazza Edições) e 'Sobrevivendo ao racismo: memórias, cartas e o cotidiano da discriminação no Brasil' (Papirus 7 Mares).

Opinião

Setembro é mês de celebrar Dona Dalva, a rainha do samba de roda

Destacar o protagonismo e o legado de Dalva Damiana de Freitas é reivindicar a reescrita da história do Brasil

(Foto: Divulgação/Prefeitura de Cachoeira)
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Sempre que o assunto é samba, pensa-se logo nos clubes, nos pagodes, nas agremiações, nos músicos do Rio de Janeiro que eternizaram o ritmo mais popular do Brasil. Mas é preciso lembrar que esse gênero nasceu na Bahia e tem como um dos nomes mais importantes Dalva Damiana de Freitas, mais conhecida como Dona Dalva do Samba. 

Nascida em 27 de setembro de 1927, em Cachoeira, Bahia, Dona Dalva, filha de uma operária e de um sapateiro, foi criada pela avó. Mãe de cinco filhos, ao longo de décadas, trabalhou como charuteira, profissão que aprendeu aos 14 anos de idade. E foi justamente em uma fábrica de charutos que, em 1958, Dona Dalva se juntou a colegas para formar um grupo de samba de roda que se apresentava nos festejos da cidade do Recôncavo Baiano.

Três anos depois, surgia o Grupo de Samba de Roda Suerdieck, cujo nome faz alusão à fábrica de charutos fundada por descendentes de alemães, para a qual Dona Dalva prestava serviços. Considerado um marco da cultura baiana, o grupo tem sido objeto de interesse de diversos pesquisadores, como também foi tombado em 2004 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), por ser considerado patrimônio oral e imaterial da humanidade.

Candomblecista, a matriarca é integrante da Irmandade da Boa Morte, símbolo da resistência negra que, fundindo signos do catolicismo e da religião de matriz africana, há mais de dois séculos reúne mulheres pretas que todos os anos, no mês de agosto, se juntam para reverenciar Nossa Senhora da Boa Morte. Com surgimento no período escravocrata, a associação se configura como uma “instituição social, religiosa e política poderosa, capaz de sobreviver ao sistema colonial escravista e seu período subsequente. Além de lutar contra a escravidão, comprar alforrias e possibilitar um novo horizonte para cativos, não podemos esquecer um ponto crucial da irmandade: ela era e ainda é constituída por mulheres negras”, escreveu a pesquisadora Maria Fernanda Rodrigues Barreto Regis. 

Em entrevista recente, Martinho da Vila lembrou que é “muito raro receber homenagens em vida”. Em função da relevância de sua existência, como também do valor de sua obra para a cultura nacional, Dona Dalva subverteu a máxima do sambista carioca. Em 2012, ela recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Em 2022, também foi uma das homenageadas da III Mostra de Cinema Negro de São Félix, cidade que também fica nessa mesma região baiana.

Em um país que tem por tradição apagar a memória e as contribuições das mulheres negras, para silenciá-las, destacar o protagonismo e o legado de Dalva Damiana de Freitas é reivindicar a reescrita da história do Brasil, de modo que as afro-brasileiras tenham o devido reconhecimento.

Nesse processo de reparação histórica, setembro é mês de celebrar os 95 anos de Dona Dalva, a rainha do samba de roda. 

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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