Marcos Coimbra

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Sociólogo, é presidente do Instituto Vox Populi e também colunista do Correio Braziliense.

Opinião

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Sem direito de errar

As condições de governabilidade são mais adversas do que em 2003

Lula vai mesmo pendurar as chuteiras após quatro anos? - Imagem: Ricardo Stuckert
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Sempre que se refere à eleição de 2002, Lula se lembra de um sentimento que o tomou logo após conhecer a vitória. Estava obrigado a acertar. Não podia se dar ao luxo de tentar e, a depender das circunstâncias, errar. Sua responsabilidade era maior do que a de qualquer antecessor, oriundo do patriarcado rico e branco. Herdeiro de uma oligarquia nordestina, Fernando Collor fez o que fez e permaneceu vivo na política por 30 anos. Representante ilustre da intelectualidade paulista, nunca faltou a Fernando Henrique Cardoso a condescendência dos ricos e poderosos. Nunca lhe negaram apoio, pois o viam como igual.

Lula sabia que não seria tratado com a mesma tolerância, como ficou demonstrado desde quando mal havia começado a governar. Com pouco mais de um ano na Presidência, teve de enfrentar ataque duríssimo, antecipando outros com os quais ele e Dilma ­Rousseff seriam alvejados dali em diante, no ritmo de quase um por ano. Uma coalizão de políticos de direita, empresários, imprensa conservadora, militares golpistas, expoentes do Judiciário e outras aristocracias do serviço público, com o endosso a distância de Washington e da burguesia internacional, não deu trégua aos governos do PT.

Não era apenas para reduzir os ataques que poderia sofrer (e que sofreu de fato) que Lula não podia errar. Mais importante, para ele, era o dever de não decepcionar o povo pobre, que, em um gesto de coragem, se dispusera a votar em alguém com sua biografia e trajetória. Na cultura política brasileira, elitista e antidemocrática, sua vitória foi a prova de autoconfiança da maioria da população. Ao votar em seu nome, o povo mostrou que acreditava ser possível que um sujeito comum, semelhante a cada um, pudesse ser bom presidente da República, igual ou melhor que um doutor. Ignorava velhas (e ridículas) crenças incutidas em sua formação, como a de que era preciso saber falar inglês para governar o Brasil.


MARCOS COIMBRA. Sociólogo e diretor do Instituto Vox Populi.

Lula tomou posse e assumiu o governo em 2003 com o sentimento de que não podia falhar. E não falhou, aos olhos da maioria, que não apenas o aprovou com louvor, como também o reconduziu quando pôde (ou quis) se apresentar como candidato.

Fossem nossas elites menos assanhadas no golpismo, provavelmente Lula estaria agora a encerrar uma longa passagem pelo governo federal. Após Dilma concluir seu segundo mandato e ele o terceiro, a eleição de 2022 teria sido completamente diferente. O risco de retrocesso autoritário talvez inexistisse, talvez fosse irrelevante a parcela da sociedade perdida em irracionalidade e obscurantismo, talvez a estupidez fosse pequena. Talvez as Forças Armadas tivessem se tornado democratas e decentes. Talvez os bispos oportunistas não passassem de exceção.

Não foi o que aconteceu de 2015 em diante. Os ricos e poderosos perceberam que podiam explorar as dificuldades que a situação internacional criava para a economia brasileira, bem como os problemas que o governo Dilma enfrentava depois de uma reeleição difícil, com o lavajatismo dando verossimilhança ao denuncismo e “justificativa moral” à campanha para derrubá-la. A velha coalizão derrotada nas quatro eleições anteriores e a caminho de perder mais uma (a que Lula teria vencido em 2018, se não fosse alvo da sucessão de atos de força que o tiraram do páreo) retomou o poder.

Lula volta ao governo seis anos depois do golpe contra Dilma, cinco anos depois de ter sido preso, quatro anos depois que Michel Temer saiu do Planalto com seus larápios. Quando acaba o governo do personagem lastimável que se aproveitou do golpismo de nossa burguesia e de seu incessante esforço para desmoralizar as esquerdas e acabar com a figura de Lula. Bolsonaro é seu filhote e sempre esteve à disposição para atacar as instituições e conquistas da democracia. De vez em quando, rosnava e ameaçava morder a mão do dono. Lula volta para administrar um País em condições muitos piores do que recebeu em 2003. O capitão e sua gangue mantiveram um único compromisso desde 2019 e deixam o governo provavelmente satisfeitos com a desorganização, a bagunça e a sujeira que se tornaram regra na sociedade e no Estado. As centenas de milhares de mortes provocadas pela pandemia e a volta da fome são os monumentos à sua obra.

Há outra consequência da intervenção autoritária que derrubou Dilma, prendeu Lula e produziu Bolsonaro. É menos dramática que o caos social em que o povo pobre vive e menos festejada que a alegria dos ricos em seus condomínios na Flórida. Mas, por pior que seja o saldo dos últimos seis anos, consertar o setor público e restaurar as condições para que a economia brasileira volte a crescer é menos difícil do que recuperar a saúde moral e mental da sociedade.

LULA SABE: SUA RESPONSABILIDADE NO TERCEIRO MANDATO É MUITO MAIOR

Não foi o capitão quem produziu a mistura tóxica de egoísmo, indiferença, violência, preconceito e intolerância que hoje caracteriza o pensamento e o comportamento de uma parte grande da população. É fato que nem todos aqueles que votaram nele são assim, mas, a tomar pelo que continuamos a ver após a eleição, são bem mais do que uma minoria insignificante. Também é fato que Bolsonaro contribuiu para o aumento desse fenômeno, tanto numérico quanto de radicalidade. Seu exemplo contribuiu para que cada idiota, em cada aldeia, se sentisse empoderado para gritar mais, bater mais. Se alguém como ele pode chegar à Presidência, o céu é o limite para a idiotia.

Depois da vitória de Lula contra José Serra em 2002, não tivemos zumbis pelas ruas, não houve empresários flagrados a custear o golpismo, não apareceram cafajestes ameaçando magistrados, não se multiplicaram ataques de brutamontes contra artistas, funcionários públicos continuaram a cumprir com seus deveres. Nenhum candidato eleito pelos partidos derrotados se ofereceu como porta-voz de autoritários, nazistas e fascistas.

O contingente dessa turma cresceu nos últimos anos. Não sabemos quanto, mas ninguém duvida que a ponto de tornar problemática a hipótese de que um bom governo, como o que Lula certamente fará, bastará para nos levar a ser, outra vez, uma sociedade politicamente civilizada. Em 2022, a barbárie foi derrotada por pequena margem. O que nos reservará 2026?

Se Lula estava certo, em 2002, ao pensar que não podia errar, mais certo está quando pensa que, agora, sua responsabilidade é maior. Ainda bem que o Brasil o tem. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1240 DE CARTACAPITAL, EM 28 DE DEZEMBRO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Sem direito de errar”

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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