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Seleção sem alma
O fiasco brasileiro na Copa também é resultado de uma crise de liderança
A Seleção Brasileira não tem alma. Perdeu-a na Copa de 2014, disputada em casa, na fatídica derrota por 7 a 1 para a Alemanha. Uma seleção sem alma não tem ânimo, ímpeto, empenho, entrega, ousadia, brio nem determinação. A bronca não é porque o Brasil não vence um Mundial desde 2002. É natural que outras seleções conquistem o título, sobretudo em uma era de futebol globalizado. O problema está na forma como joga e reage – ou deixa de reagir – diante de uma situação adversa.
Compare-se o comportamento da Seleção Brasileira contra a Noruega com a atitude dos atletas de Cabo Verde diante da poderosa Argentina, campeã da última Copa. Ou com a dos argentinos na emocionante virada sobre o Egito. Os problemas do escrete canarinho são muitos, dentro e fora de campo. Vamos nos ater, porém, à conduta da equipe. Uma partida de futebol é definida por variáveis que se alteram conforme as circunstâncias. As principais são a estratégia de jogo, a qualidade dos jogadores e as intervenções do acaso, da deusa Fortuna. Entre elas, a determinação da vontade, embora subjetiva, está sempre presente e pode ser decisiva.
A vontade de lutar e de vencer é decisiva em todas as disputas, inclusive nas guerras. É o fermento da criatividade, da arte, da magia e da ousadia. A estratégia é definida pelo general-treinador, mas não se resume ao conhecimento técnico. Depende dos meios de que a seleção dispõe, mas também das qualidades morais de comando do treinador e do capitão. Em outras palavras, depende da liderança.
Tome-se o exemplo de Marcelo Bielsa. O técnico argentino, que comandou a seleção do Uruguai nesta Copa, é considerado um excelente formulador de planos táticos, mas um péssimo condutor de seu exército. Em 2002, Felipão foi um bom comandante da Seleção Brasileira. Em 2014, cometeu erros fatais. A estratégia só funciona quando acompanhada da determinação da vontade.
O capitão do time também é uma peça-chave, tanto para conduzir vitórias fáceis quanto para reagir nos momentos adversos. Ele precisa sintetizar a alma da equipe. Nesse aspecto, o Brasil vai mal, distante dos capitães que lideraram as conquistas e glórias do passado. Tite, Diniz, Dorival… Convenhamos: Ancelotti precisa mostrar a que veio.
De 2014 a 2022, tivemos Thiago Silva como capitão. Ele foi elogiado pela capacidade técnica, postura tática e dedicação. Tinha o respeito dos pares. São qualidades boas para liderar, mas insuficientes. É nos momentos de pressão que um líder se revela pela audácia, coragem e ousadia. A imagem universal de Thiago Silva vem de 2014: sentado sobre a bola, aos prantos. Demonstrou fragilidade psicológica no mata-mata.
Os bons líderes podem ter perfis diferentes. Alguns lideram pela energia do comando e pela autoridade que exercem sobre o grupo (virtù, virilidade). O capitão do Tri foi Carlos Alberto Torres, o eterno “Capita”, um dos maiores da história. Dunga também se enquadra nessa categoria. Na Copa de 1994, impôs-se pelo ânimo, pela força, pela rispidez e pelo espírito incansável de luta. Cafu, em 2002, foi um dos grandes líderes do futebol de seu tempo. Destacou-se pelo exemplo, pela resiliência, pela valorização dos companheiros e pelo que hoje se chama de motivação e gestão de pessoas.
Compare-os com Thiago Silva e Marquinhos, o atual capitão. A liderança de Marquinhos apoia-se no exemplo técnico e na organização tática, qualidades importantes, mas insuficientes para comandar uma seleção em uma Copa sob pressão. A harmonia do grupo não é condição necessária nem suficiente para a liderança. Mais importante é a unidade de propósito em torno do objetivo comum e o companheirismo na luta.
Outros capitães lideram pela ascendência moral sobre o grupo. É o caso de Messi. Sua conduta, dentro e fora de campo, o transformou nesse tipo de líder. A entrega, a perseverança, a abnegação e a disposição de se colocar à frente dos companheiros são marcas de sua liderança.
E os jogadores? Bem, os atletas da Seleção – e do futebol brasileiro em geral – parecem evangélicos do esporte. Não há no mundo jogadores que recorram tanto a Deus quanto os brasileiros. As vitórias acontecem “graças a Deus”. As derrotas trazem ensinamentos divinos. O futuro depende d’Ele. Se tudo está submetido a uma força sobrenatural, resta apenas a resignação, diferente da abnegação de quem luta até o fim.
Como muitos pastores, vários jogadores parecem confortáveis com a riqueza conquistada. Ela parece ser o objetivo maior. Por que Vini Jr., um ícone da luta antirracista, faz propaganda de bets, a desgraça da juventude? É nítida a fragilidade desses atletas. Basta compará-los com os campeões do Tri, do Tetra e do Penta. Perderam a ambição da vitória. Jogadores e torcida imaginam que as glórias do passado são garantia das glórias do presente e do futuro. O mundo não funciona assim. •
Publicado na edição n° 1421 de CartaCapital, em 15 de julho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Seleção sem alma’
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