Santo Rincão (um conto surrealista)

Era uma terra abençoada, onde se plantando tudo dá

Santo Rincão (um conto surrealista)

Opinião

Santo Rincão era uma terra abençoada, onde se plantando tudo dá.

A agricultura próspera fez a gastronomia e a nutrição ocuparem papel central naquela sociedade.

Os grandes banquetes se davam no Buffet Central, restaurante da cidade frequentado pela grã-finagem. A alta sociedade de Santo Rincão gravitava em torno de suas grandes atividades econômicas: a Fazenda e o Mercado.

A produção da Fazenda dava conta de abastecer não só Santo Rincão como outras cidades, inclusive metrópoles distantes.

A Fazenda era afortunada, tinha inclusive uma jazida de ferro. Há muitos anos abasteceu uma ferraria que existiu na cidade, mas que se mudou para outra cidade chamada Novo Oriente.

A natureza não foi tão generosa com Novo Oriente. Seus cidadãos tinham de se dedicar a atividades engenhosas para conseguirem seu sustento. Com o ferro que compravam da Fazenda produziam de tudo, produtos maravilhosos consumidos pelas pessoas de Santo Rincão.

O Mercado de Santo Rincão estava bem estabelecido há décadas. Administrado por cinco sócios, era um caso de sucesso no setor pela sua elevada lucratividade. Quatro em cada cinco santorinquenses eram seus clientes.

Aconselhado por um de seus cidadãos, que foi estudar nutrição na Capital, na Cidade Grande, o prefeito de Santo Rincão desenvolveu uma forma peculiar de assegurar o bem-estar da população.

O nutricionista aprendeu na Capital que a maior parte das pessoas padecem por doenças crônicas, como hipertensão e diabetes, passíveis de serem prevenidas pela alimentação frugal.  Visando preservar a saúde de seu povo, sugeriu ao prefeito baixar decreto para regrar a dieta da população.

A comida deveria ser preparada no Buffet Central, onde ocorriam os tradicionais banquetes na modalidade “sirva-se à vontade”, frequentados pelos donos e executivos do mercado e da fazenda.

Segundo o nutricionista, a mais moderna literatura recomenda uma dieta rica em calorias para o perfil socioeconômico dos frequentadores do banquete. Na condição de donos e executivos, estes indivíduos podem determinar o quanto trabalham e gastam de energia. O tamanho de suas refeições é uma decisão racional, baseada na expectativa futura de consumo enérgico autodeterminado.

Para o restante da população seriam distribuídas marmitas, preparadas com aquilo que não havia sido consumido (sobrado) no banquete. Assim, naturalmente, pela lei da oferta e procura, são reduzidos os ingredientes mais calóricos da dieta popular.

Como praticamente toda a população economicamente ativa de Santo Rincão era funcionária do Mercado ou da Fazenda, os próprios empresários se encarregavam de preparar e distribuir as marmitas, com  os alimentos que não haviam consumido.

Inicialmente o prefeito achou aquela ideia muito esquisita, mas o nutricionista assegurou ser uma estratégia utilizada desde os anos 1980 em grandes cidades, inclusive no estrangeiro. Era a dieta do gotejamento.

Outros nutricionistas levantaram objeções. Advogavam os benefícios de uma dieta mais rica em nutrientes e calorias para o povo, que é composto por trabalhadores e consumidores. Se todos estivessem mais dispostos e energizados, isso retornaria em crescimento para os próprios negócios e impostos. Em vão.

Sob os alarmes do articulista do jornal da cidade quanto aos riscos da obesidade, surtos de infartos, problemas circulatórios e despesas com insulina, o prefeito limitou a condução da cozinha do Buffet Central aos adeptos da dieta do gotejamento.

Um certo dia, a única rodovia que permitia acessar Santo Rincão ruiu, impossibilitando a chegada ou saída de pessoas e produtos da cidade. Por sorte, a cidade tinha a Fazenda e o Buffet Central, capazes de produzir todo o alimento necessário para sua população.

O prefeito, novamente apoiado na sabedoria do nutricionista, renovou a manutenção da dieta do gotejamento. Mais do que nunca era fundamental que todos permanecessem saudáveis.

Passam os dias e o combustível que abastecia os ônibus e automóveis da cidade se esgota. Os trabalhadores não têm como se locomoverem.

“Nada de ficar em casa”, disse o prefeito, “vamos enfrentar a adversidade de forma altiva! Caminharemos ou usaremos bicicletas!”.

As longas caminhadas elevaram o consumo energético das pessoas. Crescem relatados de desmaios por hipoglicemia e outros tantos problemas decorrentes da subnutrição. O povo passou a reivindicar mais comida nas marmitas.

Nutricionistas argumentaram que mesmo cidades adeptas ao gotejamento, em situações similares, passaram a fornecer alimento diretamente à população.

O colunista do jornal contra-ataca. Adota uma linha sensacionalista, com edições inteiras dedicas ao relato de casos fatais decorrentes de doenças relacionadas ao sobrepeso.

Outro grupo de nutricionistas, zelosos de sua reputação, propõem uma solução que não afronte a prefeitura, a imprensa e a gente do banquete. Basta ampliar a fartura no banquete, o quanto for necessário. Pelo conceito do gotejamento, seguramente mais alimento e calorias chegarão às marmitas.

A cozinha do Buffet Central passa a trabalhar como nunca. A comida antes produzida aos quilos passa às toneladas.

Seguem os casos de desmaio e subnutrição. Já não importavam mais as palavras do colunista ou do nutricionista que estudou na cidade grande. Não havia mais como esconder da população faminta as calças apertadas e as geladeiras abarrotadas da grã-finagem.

Quando a estrada foi reconstruída já não havia mais Mercado, Fazenda, Buffet Central ou prefeitura. Apenas o ser humano em seu estado de natureza.


*Este artigo de Gabriel Galípolo e Luiz Gonzaga Belluzzo foi escrito, na verdade, por Luiz Galípolo e Gabriel Belluzzo, em homenagem ao manifesto surrealista de André Bréton.

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Economista e professor, consultor editorial de CartaCapital.

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