O 7 de Setembro mostrou que o ‘tudo ou nada’ é o lema de Bolsonaro

Trata-se apenas uma segunda demão de tinta numa linha que já dividia, desde 2018, o asfalto esburacado da política brasileira

O PRESIDENTE JAIR BOLSONARO, EM SÃO PAULO, NO 7 DE SETEMBRO. FOTO: MIGUEL SCHINCARIOL/AFP

O PRESIDENTE JAIR BOLSONARO, EM SÃO PAULO, NO 7 DE SETEMBRO. FOTO: MIGUEL SCHINCARIOL/AFP

Opinião,Política

Três anos depois, Jair Bolsonaro volta à Avenida Paulista. Já havia estado por lá, ainda que remotamente, bem antes da pandemia. Em uma transmissão com origem na sua refinada residência na Barra da Tijuca, o então candidato  fez um discurso que faz do que se viu neste 7 de Setembro algo para lá de moderado. Para quem acha que estamos encarando novidades, as coisas novas não são boas e as boas não são nada novas, como reproduz toda santa sexta-feira, feito um mantra, Fernando de Barros e Silva em seu Foro de Teresina

 Bolsonaro levou uma facada em Juiz de Fora em plena disputa eleitoral. Dali em diante, aproveitou todas as prerrogativas possíveis para fazer campanha longe dos desafios e constrangimentos que qualquer postulante deve enfrentar numa disputa eleitoral livre, justa e periódica – ou seja, democrática. Sete dias antes do segundo turno, o Messias de nossa extrema-direita enfileirou uma infinidade de absurdos que o tornaria, em qualquer país minimamente decente, uma não-opção. Aquele momento, entretanto, foi fabricado como algo aceitável por meio de falsas e desonestas equivalências do tipo “uma escolha difícil….”.

Ao contrário do que sempre disse, Bolsonaro é um sujeito com apetite desenfreado pelo poder

“Nós somos a maioria. Nós somos o Brasil de verdade”, começou, naquele discurso de 2018, este que nos governa em direção ao caos. Jogava, na vala profunda do estrume antiético, o princípio democrático e federalista da garantia de direitos universais, das liberdades individuais e resgatava da lama a pretensão do exercício tirânico de poder de uma maioria sobre uma minoria constituída e legítima.  Na mesma oportunidade, afirmou que “esses marginais vermelhos”, vejam, seriam “banidos de nossa pátria”- leia-se, não apenas os petistas, mas um abrigo retórico de vertente cromática que coloca, sob um guarda-chuva, tudo o que se pareça com uma ideia de esquerda que, ao fim e ao cabo, alude a uma fantasmagoria de comunismo. E concluiu. “Ou vão pra fora, ou vão para a cadeia.”

E como a relação de Jair Bolsonaro com a ética, a decência e a democracia costuma se estabelecer abaixo do rodapé do inferno, emendou: “Petralhada, vai tudo vocês (sic!) pra Ponta da Praia”. 

A Ponta da Praia era um local usado pelo regime militar como ponto de desova dos corpos de gente perseguida, torturada e assassinada. Sim. Esse cidadão fez esse discurso para a mesma Avenida Paulista de hoje e foi, digamos, absolvido por parte expressiva das elites que constituem nossa opinião pública. Os eufemismos elaborados na grande imprensa para justificar o injustificável não foram poucos: aquele discurso seria moderado uma vez que essa figura se tornasse presidente; tratava-se apenas de um personagem eleitoral que encenava atos e falas sem a menor convicção; as instituições o conteriam; a força das responsabilidades do cargo o tornariam um grande chefe de Estado; ele ficaria brincando de guerra cultural enquanto seus “superministros” governariam. 

A meta de Bolsonaro é chegar a 2022 no cargo, e não ganhar a eleição. E se ele chegar lá como presidente, podem ter certeza: a vantagem é dele. Uma larga vantagem

Não chegamos até este 7 de Setembro à toa. Jair Bolsonaro nunca foi outra coisa e nunca esboçou qualquer indício de que poderia se tornar algo diferente. De falta de transparência a gente nunca, jamais, poderá lhe acusar. Nesse aspecto, defenderei Jair Bolsonaro até o túmulo. Nunca pretendeu e nunca enganou ninguém! Jogou limpo e trajado com toda a imundice que lhe constitui como sujeito. 

Mas, para quem acompanhou a cobertura dos atos golpistas desta terça-feira e se recorda um pouco daquela Avenida Paulista de 2018, a mudança é evidente. O problema é que, a meu ver, esse barco já partiu. O velho José Saramago dizia: “Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo”. Perdemos tempo e agora a pressa, a última coisa que nos resta, pode favorecer Jair Bolsonaro. 

Esse 7 de Setembro não tem segredo, não é início nem fim de coisa nenhuma. É apenas uma segunda demão de tinta numa linha que já dividia, ao menos desde 2018, o asfalto esburacado da política brasileira entre democracia e o fascismo da extrema-direita bolsonarista. Jair Bolsonaro já havia decidido que essa data seria uma espécie de divisor de águas para seu plano de customização miliciana da democracia brasileira. A longa campanha e eficiência do recrutamento de muitos setores da sociedade brasileira são denotativos disso.

E isso não tem absolutamente nada a ver com medo de ser preso ou de ver atrás das grades seus filhos. Desde o dia um de seu mandato, Jair Bolsonaro atenta contra a democracia em frentes que vão do aparelhamento político e sucateamento de órgãos estatais ao enfrentamento da lei, da ordem e da Constituição. Se alguém ainda acha que encarar um processo de impeachment, neste momento, é um temor descartado, não sacou nada. A meta de Bolsonaro é chegar a 2022 no cargo, e não ganhar a eleição. E se ele chegar lá como presidente, podem ter certeza: a vantagem é dele. Uma larga vantagem. 

Ao contrário do que sempre disse, Bolsonaro é um sujeito com apetite desenfreado pelo poder. Um ressentido que só vê na tirania absoluta a possiblidade de se vingar desse mundo que, a seu ver, lhe foi tão injusto. Trata-se de um perfil cruel e perverso, igualmente ambicioso. 

Para quem ainda precisava de mais alguma indicação, eis este 7 de Setembro mostrando que o “tudo ou nada” é seu lema. Não tem STF no horizonte, não há lei a ser respeitada e a liberdade individual é a liberdade de fazer tudo que se quer, como se quer, quando quiser, contra quem quiser. Trata-se da guerra de todos contra todos de Thomas Hobbes. A meta nunca foi outra. É o caos como método, como sempre defendeu, acertadamente, Marcos Nobre. 

Esse 7 de Setembro é mais uma investida, de teor estratégico claramente fascista, para criar uma condição social mínima de virada de regime. Bolsonaro conseguiu fazer com que o prédio do Superior Tribunal Federal fosse fechado na segunda-feira por receio de atos de vandalismo. Ou seja, ele conseguiu, ao menos por um dia, fechar o que ele deseja fechar permanentemente. Isso lhes diz alguma coisa?

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

Responda nossa pesquisa e nos ajude a entender o que nossos leitores esperam de CartaCapital

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

PhD em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, membro do Grupos de Pesquisa em Democracia e Justiça (Margem) e pesquisador associado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD).

Compartilhar postagem