Paulo Artaxo

Cientistas e pesquisador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da USP.

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Safra em risco

Ainda negligenciadas pelo País, as mudanças climáticas comprometem a produtividade da agropecuária brasileira

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Os candidatos à Presidência deverão optar entre dois modelos agrícolas: o do agronegócio, exportador, ou o da agricultura familiar, voltado ao mercado interno
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O Brasil tem vulnerabilidades importantes diante das mudanças climáticas, que precisam ser enfrentadas com urgência. Uma das principais é o impacto sobre a agropecuária, setor que responde por parcela significativa do Produto Interno Bruto (PIB), das exportações e da geração de empregos. Apesar de sua relevância, a forte dependência da economia nacional da produção agropecuária torna o País especialmente sensível aos eventos climáticos extremos. É preciso repensar esse modelo de desenvolvimento, pois uma economia excessivamente dependente do campo pode enfrentar dificuldades crescentes nas próximas décadas.

Secas prolongadas, ondas de calor, chuvas intensas e enchentes tornaram-se mais frequentes, comprometendo as safras, reduzindo a produtividade e elevando os custos de produção. Esses fenômenos afetam diretamente culturas como soja, milho, arroz, feijão, café e cana-de-açúcar, bem como a pecuária. O problema não se restringe ao período do El Niño: as projeções indicam que o Centro-Oeste e o Nordeste tendem a se tornar mais quentes e secos, com redução das chuvas e maior irregularidade no regime de precipitação. Por outro lado, haverá mais chuvas no Sul do Brasil, com aumento de extremos climáticos.

A agricultura depende não apenas da quantidade de chuva, mas também de sua distribuição ao longo do ciclo produtivo. A escassez hídrica reduz a umidade­ do solo e limita a absorção de nutrientes, além de comprometer fases críticas do desenvolvimento das plantas, como germinação, florescimento e enchimento dos grãos. Já o excesso de chuvas provoca erosão, dificulta o plantio e a colheita, favorece a proliferação de pragas e doenças e reduz a fertilidade dos solos.

As ondas de calor agravam ainda mais esse cenário. Temperaturas acima do ideal aceleram a evaporação da água do solo, aumentam a transpiração das plantas e intensificam o estresse hídrico. No café, o calor durante a floração pode provocar abortamento das flores e reduzir a formação de frutos. Na soja e no milho, temperaturas elevadas na fase reprodutiva prejudicam a polinização e a formação dos grãos, reduzindo significativamente a produtividade. Os impactos também atingem a pecuária. O estresse térmico reduz o ganho de peso dos animais, diminui a produção de leite, compromete a reprodução e degrada as pastagens durante os períodos de seca, elevando os custos de produção.

Diante desse cenário, a adaptação tornou-se indispensável. A Embrapa, principal instituição de pesquisa agropecuária do país, desempenha um papel estratégico no desenvolvimento de cultivares mais resistentes ao calor e às secas, na ampliação de sistemas de irrigação eficientes, na recuperação de áreas degradadas e na integração lavoura-pecuária-floresta (­ILPF). Programas como a Agricultura de Baixo Carbono (ABC) contribuem para reduzir as emissões e aumentar a resiliência do setor. No entanto, a instituição enfrenta limitações decorrentes da redução dos investimentos públicos e privados.

Dentre as medidas de adaptação, há necessidade de políticas públicas que fomentem a transformação do modelo de produção, a conservação e a recuperação de solos, a agricultura regenerativa e a diversificação da produção – por meio, por exemplo, da expansão da prática de integração lavoura-pecuária-floresta. Esta mudança também pode aumentar o uso de bioinsumos e reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

A expansão da agricultura irrigada pode ser uma das estratégias de adaptação às mudanças climáticas. Com o aumento da frequência das secas e da irregularidade das chuvas, a irrigação deixa de ser apenas um instrumento para elevar a produtividade e passa a ser um mecanismo de redução de risco climático. No entanto, esse avanço precisa ocorrer de forma planejada, priorizando tecnologias de alta eficiência no uso da água, o monitoramento climático e a gestão integrada dos recursos hídricos, evitando conflitos com o abastecimento urbano e com a conservação dos ecossistemas.

As mudanças climáticas deixaram de ser um risco futuro para se tornarem um fator estruturante da economia brasileira. A capacidade de adaptação do setor agropecuário será decisiva para preservar a produtividade, garantir a segurança alimentar e manter a competitividade do Brasil no mercado internacional. Para isso, será indispensável ampliar os investimentos em pesquisa, inovação, infraestrutura, agricultura de precisão e políticas públicas voltadas à sustentabilidade. O futuro da agropecuária brasileira dependerá, em grande medida, da rapidez e da eficácia com que essas medidas forem implementadas. •

Publicado na edição n° 1423 de CartaCapital, em 29 de julho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Safra em risco’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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