Alberto Villas

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Jornalista e escritor, prepara o lançamento do “Almanaque Maurício Kubrusly”, pela Panda Books.

Opinião

Roupas no quarador

A roupa ia pro cesto de roupa suja, depois ia pro tanque, ficava de molho e depois eram esfregadas uma a uma com sabão português

Foto: iStock
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O mundo muda a cada hora, é impressionante. Quem poderia imaginar que para entrar na academia do meu prédio, em vez da boa e velha chave, agora é preciso digitar nove números mais um OK, para que ela faça crack e abra?

Quem poderia imaginar que teríamos, em dois mil e vinte dois, cinco tipos de Toddy para escolher, dezoito tipos de café e agora com a Fanta Maracujá seis sabores de Fanta e, nos Estados Unidos, vinte e sete. É só esperar que vem aí a Fanta Manga, Goiaba, Morango, Limão, Melão, Abacaxi e muitas outras frutas tropicais.

O nosso cotidiano também mudou. Ninguém mais compra cera Inglesa, espalha pelo taco e depois passar a enceradeira.

Ninguém mais tem ficha ou cartão telefônico na carteira, nem mesmo um bloquinho de zona azul para estacionar o carro.

Ninguém mais liga pra pizzaria e pede uma grande, metade portuguesa, metade quatro queijos.

Ninguém mais faz sinal pro táxi na rua ou anda com a carteira cheia de dinheiro, as notas alinhadas de maior valor para o menor.

Ninguém mais engraxa os sapatos na rua, nem compra um sorvex no carrinho amarelo da Kibon estacionado no calçadão de Ipanema.

E por aí vai…

Mas o que me chamou a atenção hoje cedo, deitado na rede lendo o livro de memórias do Drauzio Varella, foi ele falando da roupa quarando no quintal da casa dos seus pais no Brás.

Sim, a pessoa não pegava a roupa, colocava na máquina, enchia um compartimento de Omo e outro de Fofo, apertava aqueles botõezinhos e pronto.

A roupa ia pro cesto de roupa suja, depois ia pro tanque, ficava de molho e depois eram esfregadas uma a uma com sabão português, enxaguadas e iam pro quarador. O quarador era geralmente um espaço cimentado do quintal onde a roupa ficava ali horas, tomando sol.

Depois de praticamente secar no quarador, ela voltava pro tanque pro exangue final e depois, varal.

No início dos anos 70, Caetano buscou lá no folclore baiano e, com Dona Edith do Prato, cantou Sugar Cane Fields Forever, no polêmico Araçá Azul.

O guarda diz que não quer
Roupa no quarador
O guarda diz que não quer
Roupa no quarador
Ai meu Deus, onde eu vou quarar
Quarar minha roupa?

Por que será que as donas de casa (calma, isso não é machismo, não tinha homem naquela época que cuidava daquela montanha de roupa pra lavar) colocavam a roupa pra quarar horas debaixo de um sol a pino?

Eu não sei.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Alberto Villas

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