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Rompamos os invólucros que nos separam. Só temos a ganhar

Temos cada vez mais dificuldade em lidar com a solitude, confundindo-a com a solidão

Rompamos os invólucros que nos separam. Só temos a ganhar
Rompamos os invólucros que nos separam. Só temos a ganhar
Foto: Martin Lelievre/AFP
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“O que nos aflige, atormenta e maltrata nos tempos modernos não é a solidão, mas a perda da capacidade de ficarmos sozinhos: o enfraquecimento da força de ficar sozinho, de suportar o isolamento, o definhamento da arte de viver, de experimentar a solidão de forma positiva” – Odo Marquard

Tudo na vida é equilíbrio. Inclusive entre socializar e ficar só.

Um dado interessante sobre nossa brasilidade é o caráter comunitário das religiões de matriz africana.

O apoio que os escravizados se prestavam mutuamente ia da garantia do direito à alimentação até a facilitação de rotas de fuga para quilombos onde pudessem viver livremente.

Os neopentecostais parecem ter entendido esse substrato — e o atualizaram: proveem cestas básicas (para os que necessitam) e apoio social, por meio de encontros semanais, encontrando-se mais de uma vez por semana.

Francisco e Leão XIV também resolveram atualizar o catolicismo, provendo a Igreja Católica de um substrato ético que tem incomodado os poderosos belicistas, como Donald Trump e seu chanceler, aprendiz de mago, um certo Marco Rubio.

Não apenas essa dupla do terror foi objeto das considerações morais do Papa, mas também os aliados europeus deles. Leão qualificou o rearmanento europeu como “traição” da diplomacia.

Com efeito, a nebulosa Organização do Tratado do Atlântico Norte passou a defender que os países integrantes aloquem 5% de seu PIB para o rearmanento. Como isso terminará, não é difícil adivinhar, pois, quando os paióis estiverem cheios, haverá de esvaziá-los…

Dito isso, temos cada vez mais dificuldade em lidar com a solitude, confundindo-a com a solidão.

Em A arte de estar só (editora Vozes), Anselm Grün precisa:

“Muitas vezes usamos as palavras ‘solitude’ e ‘solidão’ como sinônimos. Mas solitude tem mais a ver com a situação externa de estar sozinho. A solidão, por outro lado, expressa mais um estado de espírito…Portanto, pode-se dizer que a solitude é um estado, e a solidão, um sentimento”.

Com o advento dos smartphones, a solitude praticamente desapareceu. Estamos conectados todo o tempo, mas que tempo reservamos para refletir sobre nós mesmos e os rumos de nossas vidas?

O virtual pode substituir o presencial? Aparentemente, não.

Na mesma obra, Grün informa: “De acordo com o futurologista Horst W. Opaschowski, atualmente 84% dos idosos têm um medo maior de sofrer com a falta de contato do que com a falta de dinheiro”.

Entretanto, sofremos de uma timidez quase mórbida. Temos enorme dificuldade em romper as barreiras que nos separam uns dos outros. Convenções sociais, ego e temor de rejeição formam um coquetel que, muitas vezes, requerem a solução fácil e perigosa das drogas. Pela ingestão delas, o alter-ego silencia e se busca mais facilmente o outro. Porém, trata-se de saída enganosa, superficial e episódica, pois o rebote leva a fechamento ainda maior.

Infelizmente, somos tão pouco treinados para buscar o outro, principalmente em uma sociedade dividida em castas, como a brasileira, campeã mundial de desigualdade socioeconômica.

Pior, com a escala 6×1, que tempo sobra para socializar? Quase nenhum.

Ao lado disso, vivemos uma dicotomia dentro de nós mesmos. Ao citar Erhart Kästner, Anselm Grün recorda as sábias palavras dele: “A cabeça sempre quer o novo, o coração sempre quer o mesmo”.

Nisso, claramente, está baseada a propaganda da extrema-direita: mensagens fáceis, que demonizam o outro, a abertura do nosso mundinho, a liberdade, em última instância, que, paradoxalmente, tanto apregoam.

Não se trata de razão, mas de emoção. Daí a dificuldade em debater com quem foi impregnado por essa ideologia de cunho extremista.

O antídoto? Emoção e razão, juntas.

O ir até o outro, a outra, sem medo, com coragem, coração e mente.

Com leveza, sem perder a ternura, jamais, como já dissera o Che Guevara.

Em A mística do instante (editora Paulinas), o cardeal José Tolentino Mendonça faz a seguinte citação de Chesterton: “…a gravidade flui dos homens naturalmente, enquanto o riso é um salto. É fácil ser pesado, é difícil ser leve”.

Dito isso, impõe-se a justiça, principalmente para aqueles com ligações com o crime organizado, como é o caso de Flávio Bolsonaro, do pai dele, Jair, e do irmão, Eduardo, além do outro irmão mais jovem, mas multiplamente processado, Jair Renan (para Balneário Camboriú, que o elegeu vereador, um cidadão de bem…)

A propósito, em Meditações de um cristão sobre a paz e a não violência (editora EDUCS), Dom Irineu Rezende Guimarães recorda as sábias palavras do profeta Isaías: “O fruto da justiça será a paz e o efeito da justiça será sossego e segurança para sempre”.

Temos de falar com todos, todas e todes sobre isso, para que o Brasil não seja mais uma vez desgovernado por uma família que só pensa em enriquecer, roubando o País, seu povo e suas riquezas, pois quando criminosos não são julgados podem-se tornar presidentes dos Estados Unidos da América ou governadores de Minas Gerais, Goiás, São Paulo, Santa Catarina ou Paraná…

Rompamos os invólucros que nos separam. Só temos a ganhar — a liberdade!

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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