

Colunas
Rio, laboratório do colapso
A crise institucional fluminense expõe os métodos de poder do bolsonarismo e antecipa riscos de um novo ciclo nacional
A instabilidade política observada no Rio de Janeiro no último mês — que inclui a renúncia e posterior condenação de Cláudio Castro, o cancelamento judicial da ascensão de Douglas Ruas à presidencia da Alerj e a nova prisão de Rodrigo Bacellar — ajuda a explicar a erosão institucional promovida pelo bolsonarismo a longo prazo. O caso fluminense funciona como um prenúncio: sob uma possível gestão de Flávio Bolsonaro, o atual colapso do estado certamente irá se estender a todo o País.
É fato que projetos autoritários de extrema-direita avançam na destruição das instituições a partir de um segundo mandato. Exemplos internacionais como Viktor Orbán, na Hungria, e Donald Trump, nos EUA, ilustram o perigo que um eventual novo governo Bolsonaro (agora comandado pelo filho do ex-presidente) representaria para a democracia no Brasil. Um olhar atento para a política do Rio de Janeiro também permite compreender o nível de ameaça que Flávio Bolsonaro traz à sociedade brasileira.
Primeiro, o histórico recente da política fluminense: para além do plano nacional, com a injusta e ilegal condenação e prisão do presidente Lula por Sérgio Moro, foi no Rio de Janeiro que a criminalização da política pela Lava Jato atingiu seu ápice. Sob o comando do juiz Marcelo Bretas, hoje aposentado compulsoriamente pelos crimes que cometeu enquanto conduzia as investigações, a classe política fluminense foi devassada por uma avalanche de prisões. Com exceção de Benedita da Silva (PT) e Nilo Batista (PDT), todos os ex-governadores vivos do Rio foram presos e/ou apeados do poder. O mesmo se deu com a maioria dos presidentes da Alerj, exceto André Ceciliano (PT) e Wagner Montes (então no PRB), que ocupou o cargo por apenas 14 dias em 2017.
Apesar da voracidade contra os políticos, a devassa da política fluminense promovida por Bretas e pela Lava Jato poupou a família Bolsonaro, ignorando os muitos indícios de envolvimento do clã com figuras ligadas às milícias. Como é sabido, Flávio empregou em seu gabinete a esposa e a mãe de Adriano da Nóbrega, ex-policial do Bope e apontado como um dos principais milicianos do Rio. Além do vínculo empregatício, Flávio condecorou Nóbrega com a Medalha Tiradentes em 2005, quando este ainda estava preso. Em 2014, o ex-policial foi expulso da corporação e, em 2020, foi morto na Bahia em circunstâncias até hoje pouco esclarecidas. Esse processo de criminalização seletiva abriu caminho para que o bolsonarismo tomasse o poder no Estado, primeiro com Wilson Witzel em 2018 e, após seu impeachment, com Cláudio Castro.
A simbiose entre o crime organizado e as instituições fluminenses só fez aumentar com o bolsonarismo no governo estadual, mantendo e ampliando o padrão que Flávio Bolsonaro operou enquanto era deputado estadual. Witzel foi eleito em 2018 na esteira da onda bolsonarista, contando com a máquina de desinformação típica da extrema-direita, que foi a grande inovação daquele pleito.
Já Cláudio Castro organizou sua reeleição com um enorme esquema de compra de votos, envolvendo milhões de reais em dinheiro vivo que eram sacados diretamente na boca do caixa. Esses valores eram entregues a milhares de cabos eleitorais que ocupavam cargos na estrutura do Estado, especificamente no CEPERJ. Por essa prática, Castro foi condenado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e está inelegível até 2034.
Já no governo, Castro viu quatro de seus secretários serem presos por relações com o tráfico de drogas e com o jogo do bicho. Sua governabilidade junto ao parlamento estadual foi montada sob a liderança de Rodrigo Bacellar, deputado que ascendeu rapidamente ao núcleo do poder fluminense após sua eleição em 2018. No pleito de 2022, Bacellar não só foi reeleito, como atuou como o principal operador do esquema no CEPERJ. Assim como Castro, ele foi cassado pelo TSE e tornou-se inelegível.
O papel de Bacellar, contudo, foi além da compra de votos. Após sua reeleição, tornou-se presidente da ALERJ para os biênios de 2023/2025 e 2025/2027. Em sua segunda gestão, consolidou-se como o principal candidato à sucessão de Castro, até o rompimento entre ambos. Barcellar e Castro passaram a disputar a liderança do bolsonarismo no estado. Bacellar construía sua candidatura ao governo estadual com o apoio de Flávio Bolsonaro quando foi alvo de investigações da Polícia Federal sobre as relações do crime organizado com o poder público no Rio de Janeiro. Ele foi acusado de colaborar com o tráfico de drogas e de prejudicar as investigações contra o deputado estadual TH Joias (PL) — outro correligionário de Castro e Flávio Bolsonaro – preso sob a acusação de ser o principal operador do Comando Vermelho no parlamento.
O próximo capítulo da tragédia política carioca pode ser a eleição direta suplementar para governador em junho. Se confirmada, irá, na prática, antecipar a disputa sucessória para o governo que ocorrerá em outubro, junto com as eleições gerais. Quem vencer vai controlar a máquina pública e será muito favorito a ser reeleito na eleição regular.
Seja em uma possível eleição suplementar, seja nas eleições regulares previstas para outubro, é imperativo que as forças democráticas se unam no 2º turno contra Douglas Ruas e Cláudio Castro. Impedir que o bolsonarismo tenha um terceiro mandato no Rio é condição necessária para iniciar um processo de reconstrução das instituições fluminenses e para impedir que Flávio Bolsonaro transforme o Brasil em um grande Rio de Janeiro.
A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
2026 já começou
Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.
A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.
Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.
Assine ou contribua com o quanto puder.




