Representatividade, solidariedade com os nossos e muito mais

A identidade que carregamos em nossos corpos deve se combinar com ideias que contribuam para o fim da exploração e opressão.

Foto: Fernando Frazão

Foto: Fernando Frazão

3ª Turma,Opinião,Sociedade

O tema escolhido para o texto de estreia desta coluna diz respeito a questões que carrego não só no meu corpo como também nas minhas convicções políticas. Apesar de trazer em meu corpo e mente as marcas do racismo, do machismo e da LGBTfobia, não me defino somente a partir dessa trajetória. Sou negra, mulher trans e ecossocialista. Quero uma mudança radical na sociedade brasileira e no mundo, por fim a toda forma de desigualdade construída pela exploração e opressão. 

Assistimos nos últimos anos uma grande ascensão das lutas da população que sofre com as opressões, que se combina com uma afirmação da identidade dessas pessoas. Negros e negras que com seus cabelos black power, mulheres nas ruas com a primavera feminista, LGBTs sem medo de enfrentar o ódio. Como resultado desse processo, as eleições de 2016 e 2018 apresentaram um crescimento no número de parlamentares vindos dos setores historicamente excluídos dos espaços de poder. Além disso, um boom nos debates que envolvem a questão racial, feminismo e combate ao machismo, assim como sobre a população LGBT. Ou seja, uma vitória contra a estrutura racista da sociedade brasileira, contra o patriarcado e toda heteronormatividade. Faço coro com aqueles e aquelas que comemoram essa maior representatividade nas casas legislativas do Brasil e também nos telejornais, novelas etc. Isso é fundamental para mostrar a diversidade do nosso país, a história dessa nação e mostrar as nossas crianças que é possível buscar um outro lugar, diferente daqueles que querem nos impor. 

Esse mês o IBGE mostrou que a população negra se tornou maioria entre os estudantes do ensino superior público, algo que deveria ser natural. Visto que também somos a maior parte da população.

Uma grande demonstração da eficácia de políticas afirmativas como as cotas raciais, razão pela qual milhares de jovens negros se tornaram os primeiros de suas famílias a entrarem em uma universidade para estudar. Entretanto, ainda temos um longo percurso: cursos mais valorizados como engenharias e medicina ainda possuem minoria de negros, as famílias negras são as que vivem com renda inferior (ainda é de duas vezes menor que a dos brancos, segundo o IPEA), os jovens negros são as principais vítimas de homicídios (75% das vítimas são negros, segundo o Mapa da Violência) e nosso povo ainda é o que possui as piores condições de vida. 

Uso esse exemplo do cotidiano da população negra no Brasil para afirmar que a representatividade é um elemento chave para os negros. Mas também para as pessoa trans e travestis, pois nosso país é o líder de assassinatos dessa população (168 pessoas trans foram mortas em 2018, a maioria por disparos de arma de fogo, segundo dados da ANTRA – Associação Nacional de Travestis e Transexuais). E ver mulheres ou homens trans em posições de destaque na sociedade e tendo sua dignidade humana respeitada deve ser motivo de felicidade para todos. Da mesma forma quando falamos de mulheres em um país que registra um caso de agressão a cada quatro minutos. Portanto, exaltar pessoas que conseguem superar essa estrutura de ódio é necessário. Mas devemos (e podemos!) exigir mais do que isso. 

Foto: Marcello Casal Jr

A identidade que carregamos em nossos corpos deve se combinar com ideias que contribuam para o fim da exploração e opressão. O poder das nossas vozes deve ecoar em direção a construção de uma nova sociedade. Ainda que sejamos indivíduos com a trajetória atravessada pela dor e sofrimento da violência, não são todos que caminham em uma direção contrária ao sistema que nos ataca. Não faltam exemplos de figuras que mesmo sendo negros, mulheres ou LGBTs, usam do espaço no parlamento e na mídia para propagandear ideias que em última instância ajudam a piorar nossas vidas.

Quantas não foram as mulheres que foram a favor da reforma da previdência? Quantos gays não usam sua audiência nas redes sociais para apoiar um presidente que repetidamente desfere ataques a população LGBT? Não falo aqui diretamente dos cidadãos que abatidos pela alienação e decepcionados com os rumos do país apostaram seu voto em sujeitos que representam o obscurantismo. Falo de pessoas com interesses escusos e que usam sua identidade para um projeto pessoal, ignorando os males que isso provoca no conjunto da população. 

Dessa forma, é preciso apoiar e cercar de afeto aqueles e aquelas que dedicam esforços para empolgar lutas em favor das mulheres, negros, transsexuais, travestis, gays e lésbicas. Youtubers, escritoras, parlamentares, militantes e um imenso número de pessoas que caminham na direção da superação desse mundo injusto e tão desigual.

Afirmar o que somos e encher de solidariedade nossos semelhantes é tarefa extremamente necessária, principalmente em tempos de avanço da extrema-direita. Mas não devemos confundir isso com apoiar cegamente todos e todas que sofrem com a opressão. O gênero e raça nos iguala e por isso devemos estar caminhando ao lado daqueles que colocam seus discursos e práticas a favor de transformações radicais, que visam superar não só a exploração como também a opressão produzida por essa essa sociedade. 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Mulher trans, negra e ecossocialista. Tem 28 anos, estuda jornalismo e é militante do movimento trans e de favelas do Rio de Janeiro. Foi a primeira assessora trans da Câmara Municipal de Niterói e atualmente é assessora parlamentar da deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ).

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