Orlando Silva

É deputado federal (PCdoB-SP)

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Reeleger Lula e construir uma nova maioria política

Apenas as ‘entregas’ do governo não bastam para formar uma maioria sólida na população

Reeleger Lula e construir uma nova maioria política
Reeleger Lula e construir uma nova maioria política
Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado
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Eleições 2026

O Brasil irá às urnas em outubro diante de um cenário cristalizado de divisão radicalizada da sociedade entre as forças democráticas e a extrema-direita. Esse quadro político, aparentemente, não é um fenômeno tão passageiro quanto se pensava e talvez se possa dizer que é o “novo normal” na América Latina, como têm demonstrado as recentes eleições no Equador, Chile, Colômbia e Peru.

O processo eleitoral brasileiro ocorrerá em meio a uma mudança de paradigma na política externa dos EUA, que volta a priorizar o cone sul e a se utilizar de todas as formas de pressão – diplomáticas, econômicas e bélicas – para garantir sua influência na região e impor seus desígnios aos países do continente.

A reação de Donald Trump ao acelerado avanço global da China tem levado a medidas de desorganização das regras de comércio internacional, fomento a conflitos regionais com impactos econômicos e geopolíticos, como na guerra contra o Irã, e intervenções em nações soberanas, seja diretamente, como na Venezuela; por meio do estrangulamento, como em Cuba; ou pela imposição de tarifas como retaliação política, caso do Brasil.

Nesse contexto desafiador, o povo brasileiro novamente se depara com um dilema existencial: cerrar fileiras na defesa de valores civilizatórios e humanistas, resguardar a soberania nacional como bem irrenunciável e inegociável ou sucumbir à barbárie e renunciar à independência, relegando o País à condição de títere do imperialismo norte-americano.

Em 2022, a eleição de Lula presidente foi o fator fundamental para garantir a democracia, a retomada da estabilidade institucional, ainda que turbulenta e com governabilidade precária, e as bases materiais para a reconstrução do País, dilapidado pelo desgoverno de Jair Bolsonaro.

Não foram poucas as vitórias e as entregas do governo. O Brasil saiu novamente do Mapa da Fome, cresceu acima da média mundial, voltou a atrair investimentos, estabilizou as contas públicas, reduziu a inflação, gerou milhões de empregos e ampliou a renda do trabalho, diminuindo, ainda que timidamente, as desigualdades sociais.

Retomou políticas públicas fundamentais para que a maioria do povo tenha acesso a direitos e serviços básicos. O Bolsa Família foi ampliado, o Minha Casa, Minha Vida voltou a construir habitações populares País afora, o Farmácia Popular foi reabilitado, a Educação, a Saúde e a Ciência voltaram para a agenda do governo, e o salário-mínimo novamente teve política de reajuste permanente.

Há ainda de se falar em iniciativas de suma importância aprovadas junto ao Congresso Nacional, embora o governo não tenha maioria parlamentar, como a reforma tributária e a isenção de Imposto de Renda até 5 mil reais, promessa de campanha e medida efetiva de justiça tributária. Ainda há a MP do Desenrola 2 e o histórico fim da escala 6X1, principal política trabalhista do País desde a Constituição de 1988, que tramitam no Legislativo.

Rememorando períodos anteriores, qualquer analista diria que a campanha à reeleição estaria pavimentada. Ocorre que a política não é mais o que era nos tempos de Lula 1, Lula 2 e Dilma, quando as políticas que mudaram a vida dos brasileiros foram instituídas e as forças progressistas acumularam grande capital político e eleitoral.

No presente, apenas as “entregas” não bastam para formar uma maioria sólida na população. As pesquisas retratam — e uso “retratam” porque são a fotografia do momento — que temos ligeira vantagem sobre Flávio Bolsonaro, que está enredado até o pescoço no escândalo do Banco Master e no tarifaço de Trump contra o Brasil a seu pedido.

Vejam: mesmo flagrado recebendo milhões de corrupção e sabotando o próprio País, o vendilhão mantém grande eleitorado cativo, sinalizando a resiliência desse campo e a persistência de um sentimento contra a esquerda em larga parcela da população. Por isso, nada de salto alto, pois teremos uma eleição duríssima pela frente. Mas é fato que entramos na batalha tendo o que mostrar e em condições de conquistar essa vitória.

Mas além de vencer, temos o desafio de construir uma nova maioria política no País, capaz de alterar a correlação de forças na sociedade e no Congresso Nacional, para dar sustentação popular e legislativa a um projeto de desenvolvimento liderado por Lula. Esse projeto precisa falar do Brasil, dialogar com os anseios da maioria do povo trabalhador, animar as esperanças da população no presente e dar perspectivas de futuro para a juventude. Ao mesmo tempo, deve travar a disputa política de peito aberto, desmascarando o bolsonarismo corrupto e entreguista.

Ao fazê-lo, precisa evidenciar para o eleitorado que só será possível transformar o País reelegendo Lula e parlamentares que defendam esse projeto político. Devemos mostrar que é impossível governar um país com as contradições do Brasil com metade do orçamento público comprometido com juros da dívida e sendo chantageado politicamente a cada votação. Sem um Congresso mais comprometido e qualificado, governar torna-se uma permanente redução de danos.

Essa nova maioria precisa contar com povo nas ruas e nas redes, organizado, com capacidade de mobilização para mudar essa política econômica perversa, dogma neoliberal, que emperra o crescimento econômico e drena 1 trilhão de reais por ano para premiar o insaciável apetite dos especuladores financeiros, a partir dos juros extorsivos praticados pelo Banco Central.

O desafio é mobilizar a energia dos movimentos sociais, de cada liderança sindical, estudantil, popular, a intelectualidade, artistas, influenciadores digitais, a sociedade em geral, para formar uma grande corrente em defesa de um Brasil soberano, desenvolvido, democrático e justo com seu povo. Estamos todos convocados a fazer o nosso melhor.

***

Entre 30 de junho e 1º de novembro, colunistas de CartaCapital que disputarão as eleições deixam de contribuir com artigos.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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