

Opinião
Questão de soberania
Nenhuma potência estrangeira pode roubar o sol e o vento. A verdadeira segurança energética depende da substituição dos combustíveis fósseis por fontes renováveis
Vimos na Venezuela a enésima incursão militar motivada pela disputa por reservas de petróleo. Em quase todos os conflitos, a questão energética assume papel central. Na Guerra da Ucrânia, a central nuclear de Zaporíjia, a maior da Europa, esteve entre os primeiros alvos conquistados pelas tropas russas. Esses episódios apenas reforçam a urgência de uma rápida transição energética, voltada à geração solar e eólica descentralizada. Fontes renováveis, como o sol e o vento, não podem ser roubadas por potências estrangeiras. Outra vantagem estratégica é o baixo custo de geração e a rapidez na implantação de parques eólicos e fotovoltaicos – bem mais acessíveis que usinas nucleares, por exemplo.
A segurança energética é chave para a soberania nacional de qualquer país. O Brasil tem vantagens estratégicas que poucas nações possuem, pois conta com um dos maiores potenciais mundiais de geração solar e eólica a baixo custo. A intermitência dessas fontes, no nosso caso, pode ser atenuada por meio da geração hidrelétrica. Durante o dia, a eletricidade pode vir do sol e do vento; à noite, das hidrelétricas e de poucas térmicas. O País dispõe de uma rede de distribuição que abrange quase todo o território nacional. Podemos nos tornar uma potência mundial na geração de energia barata e sustentável. Evidentemente, para que isso se torne realidade, são necessários investimentos e a adoção de políticas públicas eficazes. A rede de distribuição brasileira precisa adaptar-se à variabilidade da geração solar e eólica, como já ocorre em muitos lugares na Europa.
Mais que isso, precisamos ter visão de futuro. Faz sentido, hoje, abrir novas áreas de exploração de petróleo na Margem Equatorial diante do agravamento das emergências climáticas? O Brasil é um dos países mais vulneráveis às mudanças do clima. A produtividade do agronegócio depende fortemente desse fator. Já se observam uma redução significativa das chuvas no Brasil Central e um aumento dos eventos climáticos extremos em todo o País.
Nossa segurança energética também está ameaçada, pois 60% da geração de eletricidade no Brasil depende da chuva. Somos um país tropical, onde grande parte da população vive em áreas com temperaturas muito altas. Os moradores de Teresina, Cuiabá, Belém, Palmas e de centenas de outras cidades brasileiras sabem bem do que estou falando. Além disso, temos mais de 8,5 mil quilômetros de áreas costeiras, sensíveis ao aumento do nível do mar. O Brasil tem muito a perder com o agravamento da emergência climática, que fatalmente ocorrerá se insistirmos na exploração e no consumo dos combustíveis fósseis.
Uma nova ordem mundial está sendo imposta a todas as nações. Trata-se da quebra da multilateralidade e da cooperação entre os países para a resolução de problemas comuns, como as mudanças climáticas. Observa-se que o uso da força militar vem substituindo as negociações multilaterais. O enfraquecimento das Nações Unidas pelas grandes potências prejudica sobretudo os mais fracos.
Parece que estamos retrocedendo à Idade Média, quando apenas a lei do mais forte e seus interesses predominavam. Isso ocorre em um momento crítico da humanidade, em que, para atingirmos os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e construirmos um meio ambiente equilibrado, essencial para a qualidade de vida de todos, a colaboração internacional é fundamental. Somos 8 bilhões de habitantes em nosso planeta, todos com direito a uma vida digna, mas a maioria ainda não tem acesso adequado a alimentação, água, moradia e energia.
São questões que precisamos considerar cuidadosamente, com planejamento de longo prazo, levando em conta as rápidas mudanças pelas quais nosso planeta está passando, tanto do ponto de vista geopolítico quanto do climático. Tempos difíceis exigem soluções complexas. Respeitar a soberania dos povos é a primeira ação necessária. O Brasil é um dos dez maiores players do planeta em economia, população, área, recursos naturais e vários outros aspectos.
Se não há dúvida de que soberania nacional e segurança energética caminham de mãos dadas, o Brasil precisa aproveitar suas vantagens estratégicas nesse terreno. Nosso futuro como nação soberana pode depender disso. •
Publicado na edição n° 1395 de CartaCapital, em 14 de janeiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Questão de soberania’
Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
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