

Colunas
Quem você está lendo? A pergunta que mudou o rumo da minha vida literária
Eu era míope, nossa, eu era cego e burro. Inteligência ainda me falta, um bocado, mas tento aprender um pouquinho por dia
O Alexandre Staut, escritor e editor dos bons, um batalhador à frente da Folhas de Relva, não sabe, mas uma frase dele mudou minha rotina literária. Aconteceu faz uns cinco anos. Eu estava escrevendo Os Pêndulos e o Alexandre foi em casa para um papo e um café. Quem você está lendo, ele me questionou, e achei a frase incômoda, sequer entendi naquele momento, porque sempre me fixei mais ao objeto, livro, que à pessoa, autora. Esperava: o que você está lendo?
Desfilei alguns nomes que habitavam minha cabeceira naquele momento, figurões internacionais, premiados, vendedores de milhões. Eu, ali, um homem orgulhoso de minhas conquistas, protoescritor marrento.
Veio uma segunda pergunta, destruidora. Mas quem de nós você está lendo? Nós?, retruquei, embaraçado. O Alexandre não abriu mais a boca, curvou levemente as sobrancelhas, entendi tudo. Ele dizia sim, nós, escritores contemporâneos brasileiros, a geração da qual você quer fazer parte. Depois fechou os olhos e continuou falando para dentro: nós e especialmente as mulheres, sua lista só tem homens, não percebe? Aliás, você lê mulheres, protoescritor marrento?
Terminamos o café de forma civilizada, ainda servi um bolo de milho, molhadinho, um gosto amargo, o resto da sala em um deserto. Pensei em citar a criatividade de uma passagem do livro mais recente do Murakami para quebrar o gelo, preferi me calar, constrangido. Ficamos os dois segurando as xícaras e olhando o chão.
Foi assim, com a pergunta mais trivial e uma segunda pergunta afiada, que mudei completamente o rumo da minha vida literária. Ainda leio os homens internacionais e seus livros maravilhosos, acho mesmo que o Valter Hugo Mãe e o Jon Fosse deveriam ter estátuas em seus países. Mas mergulhei fundo e de cabeça no nós, especialmente as mulheres. Conheci muitas delas por suas páginas, me tornei amigo mesmo que nenhuma tenha me visto, conto meus segredos mais íntimos, mesmo os inventados, divido as dores.
São minhas amigas Maria Fernanda Maglio, Mariana Salomão Carrara, Bethânia Pires Amaro, Aline Bei, Giovana Madalosso, Carla Madeira, Marta Barbosa, Djamila Ribeiro, Marcela Dantés, Paulliny Tort, Natália Timerman, Liana Ferraz, Micheliny Verunschk. Tantas outras, tantas, perdões pelas ausências na lista, amigas.
Eu era míope, nossa, era cego e burro. Inteligência ainda me falta, um bocado, mas tento aprender um pouquinho por dia com todas elas. Alexandre Staut, prometo em breve um novo café, desta vez com um bolo docinho, palavras que escapem à boca com sorrisos e olhos que já não mirem o chão.
A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.
O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.
Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.
Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.



