Opinião

Quem vai ficar com Moro?

As apostas que o vendem como um candidato competitivo não correspondem aos fatos e aos dados disponíveis

Sérgio Moro, ex-ministro da Justiça e ex-juiz da Lava Jato. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil
Sérgio Moro, ex-ministro da Justiça e ex-juiz da Lava Jato. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

O título é uma referência a uma tradução ruim dada para o filme dos irmãos Farrelly lançado em 1998: There’s something about Mary. Transpondo o mote desse roteiro para a política brasileira pré-2022, podemos dizer que “há algo sobre Moro”.

Estamos diante de uma flagrante desproporcionalidade na atenção dada à virtual candidatura do ex-ministro da Justiça de Jair Bolsonaro à Presidência da República. A animação parece dar conta de que amplos setores da imprensa, empresários e alguns militares e articulistas encontraram, enfim, a suposta e tão sonhada terceira via.

A GloboNews chegou a cobrir, ao vivo, interrompendo o roteiro de um programa, uma visita de Sergio Moro ao Congresso Nacional. O site O Antagonista, comandado por ex-figurões da revista Veja, cravou que Sergio Moro estará eleito se os dois primeiros colocados na corrida presidencial forem desconsiderados da disputa. Os exemplos ocupariam os limites dessa coluna e além.

Mas  toda essa cobertura corresponde aos fatos?

Tudo que se pode dizer sobre Sergio Moro como candidato é que ele não passa de uma representação concreta e material da falácia da terceira via. Há duas apostas que o vendem como um candidato competitivo, mas não correspondem aos fatos e aos dados disponíveis.

A primeira é a de que Moro poderia crescer subtraindo votos de Ciro Gomes. Não duvido que o cirismo, que existe como mentalidade e micro-movimento político ao menos desde 2018, migre para a ala morista na disputa presidencial. Afinal, Ciro vem se esforçando exemplarmente em criar uma espécie de antipetismo e antilulismo de esquerda.  Mas isso levaria Moro para onde exatamente? Se roubasse todos os votos de Ciro Gomes, segundo a última sondagem do PoderData, Moro chegaria a 15%. Se roubasse todos os votos de Ciro e de todos os outros abaixo dele, chegaria a 27%. Vejam que mesmo num cenário ilusório — afinal, Moro nunca herdará todos esses votos — o ex-ministro de Jair Bolsonaro nem chegaria a se igualar a seu ex-chefe, com 29%, e passa longe de Lula, com 34% numa disputa em primeiro turno.

Outros apostam que Sergio Moro conseguirá subtrair votos suficientes do atual presidente da República para se catapultar a um segundo turno contra Lula. Outro devaneio. Você não rouba votos de Jair Bolsonaro sendo meio fascista ou um fascista discreto. Há que ser não apenas um fascista inteiro, completo, mas explícito.

O ex-presidente Lula e o ex-juiz Sergio Moro. Fotos: Ricardo Stuckert e Nelson Almeida/AFP

Não que Moro não tenha as credenciais para tanto. Os serviços que já prestou à democracia brasileira, seja no Judiciário, seja no governo Bolsonaro, incluem a incorporação do excludente de ilicitude em seu pacote anticrime, a defesa do plea bargain na Justiça brasileira, o uso da Polícia Federal para constranger o porteiro de um condomínio que levantava suspeitas do envolvimento de seu ex-chefe, Jair Bolsonaro, no assassinato de uma vereadora carioca ou a abertura de um processo, com base na LSN, contra um festival de rock em Belém do Pará  por fazer críticas ao presidente no cartaz do evento. Sem mencionar, obviamente, o encarceramento do líder da corrida presidencial em 2018 num processo, no mínimo, viciado e anulado pela alta corte do País.

Toda essa ficha, porém não basta para conquistar a base de Jair Bolsonaro, que hoje oscila na casa dos 20% dos votos. Para amelhar parte graúda desses votos, Sergio Moro teria que se esforçar no combate à ciência e encampar, sem meias palavras, a luta contra mulheres, negros, indígenas, pessoas LGBT+ e outras minorias. Ainda que eu concorde com Rosângela Moro de que seu “conje” e Bolsonaro são uma coisa só, em política de imagem a substância pouco importa. É preciso parecer antes de ser.

Somem tudo isso ao alto nível de rejeição de que goza Sergio Moro. Segundo o mesmo PoderData, nada menos que 56% não votariam em Sergio Moro de jeito nenhum. O menos rejeitado, com 42% é obviamente, Lula. Eis, enfim, o nosso ponto central.

Há algo sobre Moro. E não é uma corrida desenfreada e desmiolada com o intuito de frear a calamidade que Jair Bolsonaro já representa. O problema é a possibilidade de Lula se tornar presidente. Essa empreitada midiática não serve para inviabilizar Jair Bolsonaro, e sim Lula. Resta aos ainda democratas deste país perguntar qual será a reação desses setores agora moristas quando Lula disputar o segundo turno com Jair Bolsonaro e, provavelmente, se eleger.

Camilo Aggio

Camilo Aggio
PhD em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, membro do Grupos de Pesquisa em Democracia e Justiça (Margem) e pesquisador associado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD).

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