Opinião

Quem defende abertura do comércio deveria fazer passeata, não carreata

O universo bolsonarista dá mais uma contribuição ao bestialógico nacional

Foto: AFP
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Fossem Bolsonaro, seus filhos e os ministros ditos ideológicos os únicos casos patológicos no Brasil, até que a situação não estaria tão ruim. Neste momento, embora capaz de causar grandes estragos e colocar em risco a saúde dos brasileiros, o ex-capitão está mais isolado do que vírus em laboratório. Sob a liderança do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, o Congresso, a oposição e os governadores tocam um governo paralelo.

Na noite da quinta-feira 26, os parlamentares fizeram o que o ministro da Economia, Paulo Guedes, por ideologia e despreparo, se recusava a fazer: aprovaram uma renda mínima emergencial para os trabalhadores enquanto durar a pandemia. Serão 600 reais básicos, 1,2 mil para mulheres responsáveis pelo sustento da c asa. Em outra vertente, o Supremo Tribunal Federal tem derrubado decisões vingativas e autoritárias do Palácio do Planalto – o que transforma os decretos e as medida provisórias erráticas do Executivo em meras peças decorativas. O problema é que a mentalidade bolsonarista contaminou muita gente.

E essa fração infectada tornou-se, ao lado do ex-capitão, uma fonte de ideias que expõem o Brasil ao vexame internacional. Enquanto o Congresso procurava maneiras de atenuar os efeitos sociais e econômicos da pandemia, em linha com o resto do planeta, começou a circular nas redes sociais, na velocidade da propagação do coronavírus, uma proposta sui generis de protesto.

Comerciantes que se declaram preocupados com a paralisia da economia se organizam para sair em carreata pelas cidades. Uma está marcada para Colatina, Espírito Santo, uma aldeota castigada pelo calor às margens do poluído Rio Doce. Negociantes de vários municípios na “República de Curitiba” também tirar&ati lde;o suas SUVs da garagem em nome da salvação do PIB. Quanta coragem.

Se os organizadores das manifestações 4×4 duvidam da ciência e da medicina e concordam com a tese de Bolsonaro de que o coronavírus não passa de uma gripezinha, que o “remédio não pode ser mais forte que a doença”, que os brasileiros não são como os outros mortais, mas um fenômeno da natureza, até tomam banho de esgoto e saem ilesos, deveriam promover não carreatas, mas passeatas. Sair às ruas de cara limpa, sem máscaras, de braços dados, “agarradim”, se os protestos forem em Minas Gerais.

Mas convicção é outra, diria Deltan Dallagnol. Para os comerciantes, o isolamento social é também uma questão de classe, direito reservado a quem tem condições financeiras. Em outras palavras, a eles e aos seus. Os funcionários, empregados domésticos e “colaboradores” não podem se dar a esse luxo. É até cansativo explicar: quanto maior o risco de contágio, quanto mais rapidamente os brasileiros forem contaminados, pior serão os estragos na economia, mais lenta e dolorosa será a recuperação. Mas os empresários nativos são eles também únicos.

Não há registros em nenhum outro país de reclamações desse gênero promovida pelo setor privado ou da insistência em um falso dilema: a economia ou a vida. Neste pedaço abandonado pela razão abaixo da Linha do Equador, não é, porém, pequena a aderência ao pensamento do fritador de hambúrgueres do Madero. O que são 5 mil, 7 mil mortos? O importante é defender o PIB. E se forem 30 mil mortos, 100 mil, 1 milhão. Faria diferença?

Sergio Lirio

Sergio Lirio Redator-chefe da revista CartaCapital

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