Opinião

Que maravilha o exército brasileiro!

Mão amiga e braço forte, para os amigos… Para o contribuinte, insegurança e dinheiro público gastos em proveito próprio

Que maravilha o exército brasileiro!
Que maravilha o exército brasileiro!
Ex-presidente da República, Jair Bolsonaro, participa da cerimônia de cumprimento aos Oficiais Generais promovidos
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“O general Simão [nome fictício, assim como Moirão, que já utilizei nesta coluna], depois da vice-presidência, foi eleito senador pelo Rio Grande do Sul. Após ter entrado para a política, seu patrimônio triplicou, conforme levantamento de uma conceituada revista jornalística do país junto ao Tribunal Superior Eleitoral. Não sabemos se já constituiu uma boa conta no exterior, como dissera ao jornalista do El País que faria se fosse político. Ainda tinha oito anos no novo mandato pela frente quando finalizamos esta história.

Com a morte de Dodô, casou-se com sua amante Lucrécia. Todas as pessoas do círculo próximo de SS foram beneficiadas.”

Rubens Pierrotti Jr.

A citação é do livro Diários da Caserna – Dossiê Smart: a história que o Exército quer riscar (Editora Labrador), do coronel Rubens Pierrotti Júnior.

Nela, o militar reformado descreve com riqueza de detalhes um dos maiores escândalos de corrupção da arma terrestre, tendo o cuidado de trocar nomes, mas asseverando que 99% dos fatos delituosos, por ele descritos com riqueza de detalhes, foram reais.

O protagonista principal desse mar de lama verde-oliva seria o tal general Simão, nome fictício como dito acima, que também já chamei de Moirão nesta coluna, por ter o cérebro de um pau de cerca para fazer o bem, mas incomensurável para o mal.

No livro, o autor expõe não apenas os desmandos da arma especializada em golpes de Estado, mas também como ela consegue se sobrepor aos demais órgãos de Estado.

Por exemplo, cito a interação com o Tribunal de Contas da União (TCU), um leão quando se trata de punir aqueles servidores que se arriscam a fazer funcionar uma máquina emperrada e sujeita a tantas interpretações legais resultantes de uma legislação incompleta e, por vezes, contraditória, mas um verdadeiro gatinho mimoso quando se trata de enfrentar quem detém as armas, a saber:

“Sobre o projeto Smart […] e das conversas com importantes interlocutores, o TCU resolveu apenas expedir ‘recomendações’ ao Exército para futuras licitações internacionais e contratos. Polícia Federal, Ministério Público e TCU, ninguém observou nada de anormal, arquivando a denúncia do Dossiê Smart.”

Vale notar que o Exército conta com uma Comissão de Aquisições, Licitações Internacionais e Contratos do Exército (Calice).

Com sede em… Nova York. Rs.

Para quê?

Em seguida, ficamos sabendo:

“O coronel Tomás, assistente-secretário do general Simão no Comando do Exército do Sul, depois de ser transferido com ele para Brasília, foi nomeado chefe da Calice, em Nova York, nos Estados Unidos, por um período de dois anos, com a família. Tomás era especialista em treinamento físico militar e tinha comandado um batalhão de polícia do Exército. De licitações e contratos internacionais, não entendia nada.

Mas não era preciso saber muita coisa. Apenas que os ‘segredos’ do Smart deveriam ser bem guardados na Comissão. Cumpriu muito bem sua missão no exterior. Na volta ao Brasil, foi promovido a general.

Depois de Tomás, Simão, ainda como vice-presidente da República, indicou o coronel Paulo César para a chefia da Calice. PC foi o militar escolhido a dedo para substituir Battaglia no comando do Batalhão de Artilharia Aeroterrestre. As práticas de compliance que ele havia implementado na unidade foram desmontadas pelo sucessor. Os militares já não se orgulhavam de servir no quartel. Os que podiam pediram transferência.

PC não era um completo ignorante como Tomás para assumir a função na Calice. Sua formação extra em Direito lhe dava uma sagacidade maior (para o bem e, principalmente, para o mal). Dizem que, depois de PC, não sobrou mais prova nenhuma do que acontecera na licitação do Smart em 2010. Está pavimentado seu caminho para o generalato.”

A reflexão óbvia é: para quê serve, de fato, essa Comissão?

Com as atuais tecnologias de comunicação imediata, qual a necessidade disso, além de premiar alguns amigos dos amigos?

Mas a boquinha não se limita ao Exército.

O Itamaraty mantém, também em Nova York (mais risos), um Escritório Financeiro, chefiado por embaixador, com todas as mordomias a que tem direito.

A indagação que não quer calar: o que faz um governo de centro a respeito? Até aqui, aparentemente, nada, pois os ministérios, como latifúndios, vêm de porteira fechada.

De fato, saímos das capitanias hereditárias, mas elas não saíram de nós…

Pierrotti demonstra cabalmente o poder da caserna sobre a vida política nacional ao recordar a pressão exercida pelo então comandante do Exército, no governo golpista e ilegítimo, sobre o Supremo Tribunal Federal (STF), em abril de 2018, às vésperas do julgamento do habeas corpus impetrado pelo então ex-presidente Lula. Mediante a publicação da seguinte mensagem o golpe que elegeu o genocida se consolidou:

“Nessa situação que vive o Brasil, resta perguntar às instituições e ao povo quem realmente está pensando no bem do país e das gerações futuras e quem está preocupado apenas com interesses pessoais? Asseguro à nação que o exército brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais”.

O autor corretamente observa:

“Estranho o Comandante do Exército falar de democracia, ameaçando as instituições, em especial, o Supremo Tribunal Federal. Estranho negacionistas da Ditadura Militar falarem em Democracia. Estranho defensores e idólatras de torturadores falarem de respeito à Constituição.”

Como estamos falando de fisiologia e vantagens pessoais, notemos que aquele que as apontava, na verdade (em uma típica projeção junguiana) nada mais buscava do que manter vantagens pessoais para si e os seus, como Pierrotti indica:

“A valiosa ajuda não foi esquecida. O ex-militar, eleito presidente, agradeceria publicamente ao general…: ‘O que conversamos morrerá entre nós. O senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui.’ Mesmo sofrendo de uma doença degenerativa e extremamente incapacitante, o general…ganhou um cargo no governo, como assessor do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, o GSI, com acúmulo de salários.”

Convém lembrar que o então chefe do GSI era aquele general golpista que, covarde como o chefe terrorista, para se livrar da pena pelo crime de planejamento de golpe de estado, alegou ser inimputável, por ter assumido a função já acometido de Alzheimer… Que maravilha o exército brasileiro! Mão amiga e braço forte, para os amigos… Para o contribuinte, insegurança e dinheiro público gastos em proveito próprio.

Para combater esses desmandos: formação, conscientização e participação da cidadania.

Seria uma coincidência que Defesa e Itamaraty sejam os únicos ministérios que não contam com conselhos para a participação cidadã? Talvez, isso seja mais do que um mero acaso.

Não deixem de ler o livro: uma lição de coragem, cidadania e comprometimento.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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