Quase todos os nomes de Caetano

'Ele é um dos compositores que mais citou pessoas em suas canções, com nome e muitas vezes, sobrenome', escreve Alberto Villas

O cantor Caetano Veloso. Foto: Reprodução/Redes Sociais

O cantor Caetano Veloso. Foto: Reprodução/Redes Sociais

Opinião

Quem era a Carolina de Chico Buarque de Hollanda, aquela com seus olhos fundos e que guardava tanta dor? Quem era a Preta Pretinha de Moraes Moreira, que ele ia lhe chamar enquanto corria a barca? Quem era a Dora, de Dorival Caymmi, a rainha do frevo e do maracatu? Quem era Rosinha, aquela que Luiz Gonzaga andava 17 léguas e meia só pra ver se ela estava lá?

A garota de Ipanema, aquela coisa mais linda mais cheia de graça, que passava tirando o sossego da gente, todos sabem que é: Helô Pinheiro. Todos sabem também que a Magrelinha de Luiz Melodia, é atriz Zezé Mota, a Xica da Silva. E que Jorge Bem tinha sim uma nega chamada Teresa, isso tinha. E que Drão era a Sandra, mulher de Gil, que a Vera Gata era a Vera Zimmermann, que o surfista carioca Petit era o Menino do Rio e Branquinha era a Paulinha do Caetano.

Mas o compositor baiano Caetano Emanuel Viana Telles Veloso, nem sempre escreveu nas entrelinhas, como chamar a Vera Zimmermann de Vera Gata, Petit de Menino do Rio e Paulinha de Branquinha. Ele é um dos compositores que mais citou pessoas em suas canções, com nome e muitas vezes, sobrenome.

Políticos, jogadores de futebol, cantores, poetas, amigos, pintores, lutadores, artistas de cinema, carnavalescos, arquitetos, Caetano abre o leque na hora de homenagear brasileiros, brasileiras e estrangeiros.

Quem teria inspiração para incluir em uma canção o nome do pintor parisiense, Georges Seraut?

Pense Seraut/Pense impressionista! E o gênio da pintura, Paul Gauguin, aquele que um dia foi-se embora pro Taiti em busca de cores e nomes? O pintor Paul Gauguin amou a luz da Baia de Guanabara, cantou Caetano em Estrangeiro. Na mesma canção estava também o antropólogo Claude Lévi-Strauss, aquele que ao visitar os tristes trópicos detestou a Baia de Guanabara, pareceu-lhe uma boca banguela. E outros músicos aparecem ainda na canção, todos estrangeiros: Cole Porter, que amou as luzes da Baia de Guanabara, além dos cegos Ray Charles e Stevie Wonder.

Tudo começou em meados dos anos 1960, quando Alegria Alegria foi para a parada de sucessos. A canção já falava em Claudia Cardinale – em Cardinales bonitas – falava em dentes, pernas, bandeiras, bomba e Brigite Bardot. No mesmo disco tropicalista, Caetano citava o personagem sovina de Walt Disney, lamentando: a moeda número 1 do Tio Patinhas não é minha! No disco seguinte, lançado logo após ele e Gil pegarem um avião com destino ao exílio em Londres, Caetano enxertou dois Beatles – Ringo Star e John Lennon – que não estavam na letra original do tango Cambalache, de 1934, sucesso na voz de Carlos Gardel: mesclao com Toscanini, Ringo Star e Napoleon, Don Bosco e La Mignon, John Lennon e San Martin. Detalhe: o compositor baiano trocou Stravinsky por Toscanini.

No inicio dos anos 1970, com Dedé grávida, Caetano compôs uma canção para o filho ou filha (não havia ultrassom para decifrar o sexo do bebê) que estava por vir: Uma talvez Julia/Um quiçá Moreno. Nasceu Moreno, mas a Júlia, que nunca veio ao mundo, entrou para a história da música.

Caetano passeou por uma Sampa que ainda não havia Rita Lee e onde os Novos Baianos passeavam numa boa. Em Reconvexo, citou o carnavalesco Joãozinho Trinta (que não seguiu o mendigo Joãozinho Beija-Flor), o cantor francês Henri Salvador (que não sentiu o suingue de Henri Salvador) , Andy Wahrol (e que não riu com a risada de Andy Wahrol) e rimou a novena de sua mãe, dona Canô, com Bobô (quem não amou a elegância sutil de Bobô), campeão brasileiro em 2005.

Três políticos aparecem em Ele me deu um beijo na boca: Delfim (Netto), Margaret Tatcher, Menahe Begin, política é o fim. Três escritores apareceram em Língua: Fernando Pessoa (Gosto do Pessoa na pessoa), Luís de Camões (gosto de sentir a minha língua roçar a língua de luís de Camões) e Guimarães Rosa (da rosa no Rosa).

Na mesma língua declarou que gosta de nomes de nomes, nomes como Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Mattoso, Arrigo Barnabé e Maria da Fé. Sem contar Carmem Miranda e Chico Buarque de Holanda.

Dois homens de luta também apareceram numa canção de Caetano, Um índio: o impávido Mohammed Ali, além do tranquilo e infalível Bruce Lee.

Caetano não deixou de fora os velhos baianos, companheiros de estrada: Gil (Gil engendra em Gil Rouxinol) Bethânia (Maria Bethânia, please send me a letter) e Gal Costa (Gal cantando Balancê).

Em Gente, ele promoveu um desfile de gente identificável e gente não identificável:

Marina (seria Marina Lima?)
Bethânia (Maria, claro)
Dolores (seria Dolores Duran?)
Renata (quem será)
Suzana (quem será?)
Leilinha (seria Leila Diniz?)
Dedé (sua primeira mulher, mãe de Moreno)
Agrippino (José Agripino de Paula)
Maurício, Lucila, Gildásio e Ivonete (quem serão?)
Agripino (José Agripino de Paula, autor de Pan América), a mesma panamérica utópica de Sampa.
Gracinha (Gal Costa)
Zezé (quem será?)
Rodrigo (Rodrigo Antônio Viana Telles Veloso, seu irmão)
Roberto (o rei)
Caetano (o próprio)
Moreno (o filho)
Francisco (Chico Buarque)
Gilberto (Gilberto Gil)
João (João Gilberto)

Em Vaca Profana, Caetano viajou homenageando um gigante do jazz (Meu mundo Thelonius Monk`s blues), um arquiteto genial (Sou tímido e espalhafatoso/Torre traçada por Gaudi) e um gênio da pintura (Picassos movem-se por Londres). Em Haiti foi a vez de um compositor pop americano (Não importa nada/Nem o traço do sobrado/Nem a lente do Fantástico/Nem o disco de Paul Simon)

Os nomes citados nas musicas de Caetano daria um livro, um dicionário de A a Z, o Pequeno Dicionário Brasileiro de nomes citados por Caetano em suas letras. O compositor baiano foi capaz, inclusive de elaborar trocadilhos perfeitos com Hermeto Pascoal (hermetismos pascoais) e Milton Nascimento (mil tons geniais). Talvez esta seja a Caetanear, do compositor alagoano Djavan, lembrado em eclipse oculto: Nosso amor não deu certo/Gargalhadas e lágrimas/De perto fomos quase nada/Tipo de amor que não deu certo/Na luz da manhã/E desperdiçamos os blues de Djavan.

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Jornalista e escritor, prepara o lançamento do “Almanaque Maurício Kubrusly”, pela Panda Books.

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