Quase 500 mil mortos pela Covid. O que pode ser dito à beira do abismo?

Não há linguagem, não há palavra que dê conta do horror. Bom, há uma palavra, sim, uma: assassino.

Foto: Manifestação em Copacabana em memória brasileiros mortos pela Covid-19 no Brasil. Foto: ONG Rio de Paz

Foto: Manifestação em Copacabana em memória brasileiros mortos pela Covid-19 no Brasil. Foto: ONG Rio de Paz

Opinião

A cada 15 dias sento-me na frente do computador e tento escrever uma coluna minimamente inteligente, digna da leitura de vocês, ou ao menos que dialogue com alguém que está do outro lado destas linhas. Desde que os mortos da pandemia começaram, no entanto, a se acumular, a se aglomerar, pois os cadáveres, estes sim, se aglomeram nos cemitérios, os doentes, estes sim, se aglomeram nas UTIs, acabo sempre sentada por uns minutos na frente da página em branco a pensar que nada digno, relevante ou adequado pode ser escrito, pois… São 500 mil mortos.

O que pode ser dito à beira do abismo? O que pode ser dito diante desse número que simboliza uma descida sem volta aos infernos? Não há linguagem, não há palavra que dê conta do horror. A lágrima é a única linguagem possível. O grito é a única linguagem possível. Bom, há uma palavra, sim, uma: assassino. No extenso mundo dos adjetivos, dos pronomes, dos substantivos, dos verbos, das conjugações, eu fico com assassino, o único termo que materializa o que realmente está a ocorrer no Brasil.

Aglomerar com a intenção de negar a doença, de assassinar, de debochar dos mortos, é uma coisa, se juntar nas ruas, protegido, para lutar contra o vírus e o fascismo é outra bem diferente

Há outra forma de linguagem também possível, a luta. Nesta coluna, quero agradecer, com o coração na mão, com a alma na mão, com as entranhas, quem foi às manifestações no sábado 29 de maio e lutou por todos nós. Quem foi e representou aqueles que não puderam estar lá, porque a pandemia nos envolve com muros invisíveis. Obrigada, obrigada, obrigada pelo sacrifício, obrigada porque hoje todos podemos ter um pouco mais de fé, graças a vocês.
Cada indivíduo luta como pode e como sabe. Não gosto da superioridade moral de quem se proclama de esquerda, decidiu não ir às manifestações e aponta o dedo no nariz de quem foi porque, “se vocês criticam Bolsonaro, aglomerar é incoerente”.

Meu amigo, aglomerar com a intenção de negar a doença, de assassinar, de debochar dos mortos, é uma coisa, se juntar nas ruas, protegido, para lutar contra o vírus e o fascismo é outra bem diferente. É, aliás, o oposto, pois o vírus mata, mas o monstro também. Não enxergo incoerência, enxergo atitude nobre e generosa. Tampouco gosto da superioridade moral de quem foi às manifestações e aponta o dedo no nariz de quem não foi sem respeitar os medos, as doenças ou as angústias que não permitem estar nas ruas neste momento. Meu outro amigo, nossa luta também passa pela empatia, pela sensibilidade, pela compressão da dor e das limitações alheias. Devemos ter o cuidado de entender que esta situação tatua sequelas terríveis na pele e na psique de muitos de nós. O inimigo é outro. O assassino é outro.

Quando Átila Iamarino falou em 1 milhão de mortos no Brasil, eu confesso, quis negar, achei exagerado. Minha incapacidade psíquica e emocional de enxergar o tamanho desse horror me bloqueou, para aceitar que isso seria remotamente possível. Eu rejeitei, indeferi, deneguei, não podia ser verdade. Como eu, acho que muitos de vocês não podiam dar conta da realidade que estava se apresentando diante de nós. Não podia ser verdade um volume tão brutal de padecimento. Mas estamos em quase 500 mil mortos e não posso negar a brutalidade que define os nossos dias.

Na CPI da Covid-19, o diretor do Butantan, Dimas Covas, declarou que o País poderia ter tido 60 milhões de doses até dezembro de 2020, que “o Brasil poderia ter sido o primeiro do mundo a iniciar a vacinação se não fossem esses percalços, tanto contratuais quanto de regulamentação”. Igualmente devido à ausência de negociações sérias com a China, o Butantan deixou de entregar, em maio, 7 milhões de vacinas a mais. Milhões, milhões de vacinas negadas, vacinas impossíveis, não produzidas, não entregues. Quantas vidas assassinadas entre esses milhões de vacinas negadas? Mas, é isso, a gente vive num país que considera justo o ­impeachment de uma presidenta por umas exóticas pedaladas fiscais, mas milhões de vacinas negadas não parecem ser justificativa suficiente.

Obrigada a quem foi às ruas. Obrigada a quem não foi porque cuidou da sua dor e de seus limites. Um abraço apertado, desde aqui, longe mais próximo, a quem sofreu a dor insuportável da perda.

Precisamos de todos vocês, devemos ficar juntos. Agora é o momento daquele “ninguém solta a mão de ninguém”, nas ruas, no confinamento, na sala do hospital, onde for.

Assassino, assassino, assassino. A única palavra possível.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº1161 DE CARTACAPITAL, EM 13 DE JUNHO DE 2021.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

Junte-se ao grupo de CartaCapital no Telegram

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Complutense de Madri e professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Compartilhar postagem