Quando um artista morre, uma luz no palco insiste em não se apagar

Uma perda pode se transformar em uma reivindicação e em ainda mais arte, que se mantém viva, para salvar o insalvável em nós

O humorista Paulo Gustavo no filme 'Minha mãe é uma peça 3' (Foto: Marco Antonio Teixeira / Divulgação)

O humorista Paulo Gustavo no filme 'Minha mãe é uma peça 3' (Foto: Marco Antonio Teixeira / Divulgação)

Opinião

Sentem-se na plateia. Por favor, um minuto de silêncio. 

Quando um artista morre, uma luz no palco insiste em não se apagar. Na espera da presença, um holofote continua a iluminar uma ausência – que  também tem algo a nos falar através do corpo que não mais chega para se apresentar.   

Assim, a partida de um artista, como Paulo Gustavo e seu “riso como resistência”, tem muito a nos dizer nesse momento literalmente “desgraçado”. Pois, não se trata apenas da perda de uma pessoa muito amada, mas da perda da esperança-da-graça que não será contada. E a graça é, às vezes, necessária para suportar tristezas que aparecem feito uma avalanche. Sim, perdemos uma grande chance.

Veja, quando um artista morre, seu nome ainda existe em seus personagens, no que criou com sua imagem, suas falas e mãos. Um artista é uma mensagem, é uma possibilidade de catarse. É a queda de uma barragem que permite a comunicação, a fluidez do respiro, da dor, da lágrima e da risada que foram antes reprimidos e censurados no espectador e que, através da arte, encontram vazão. O incômodo humano, vemos, encontra um lugar no humor. 

 

Rir é poder se sentir em casa independente de onde estivermos. No Brasil que mata a possibilidade de risada, não se está em casa. Os brasileiros estão, hoje, deslocados, párias e sem pátria ou mãe (que Paulo Gustavo também representava): quem está no Brasil de Bolsonaro está exilado ou, caso pertença ao grupo negacionista, está rindo de uma piada cara e sem graça, com a máscara nos olhos. Uma política que quer cegos nos fará tropeçar nos mesmos erros já tão velhos. E, a sentença, já conhecemos.

Não querer ver é interromper o viver com uma ilusão. É grave negar a necessidade de uma política que priorize o respeito à diversidade, à vida, aos direitos básicos, à arte, ao tratamento e ao acesso à vacina em um contexto tão sério de pandemia. Muitos brasileiros já poderiam estar vacinados ou sendo melhor cuidados. Entretanto, devido a tantos afirmarem a negação, perdemos uma chance e com ela pessoas que nos representavam. Muita gente poderia estar na plateia ou no palco. Muita gente perdeu Paulo Gustavo e alguém amado. 

Escutem o que ficou nesse buraco no tablado: a falta fala. Ela está mais próxima da palavra do que de um mudo nada, visto que não se  sente simplesmente falta, sente-se falta de algo ou de alguém ou de “eu-não-sei-do-quê”  – a falta demanda a palavra que vem a ela entrelaçada. Por isso, um luto não pode ser simplesmente escondido, deve ser vivenciado para não nos perdemos junto com o que é enterrado, e para encontrarmos novos laços. É preciso elaborarmos nossos sofrimentos e enterros, simbólicos e de corpos, que são tantos nessa tão mortífera vida pandêmica. Para um dia, quem sabe, despercebidamente, darmos risada, em casa.

Levará um inestimável tempo, mas o Brasil precisará encarar essa legítima tristeza e raiva pela negligência que gerou a perda do que era evitável: o desastre estava politicamente premeditado, o que não torna, de alguma maneira, o fato mais suportável.  Precisamos de cuidado e entendimento sobre a gravidade e as consequências do que estamos vivendo para podermos reivindicar o que virá, já que seguiremos, como pudermos, nossas existências, mesmo cortados.  

Uma perda pode se transformar em uma reivindicação e em ainda mais arte, que se mantém viva, para salvar o insalvável em nós. Nós que estamos entrelaçados. Já ouviram a história de que quando se mata uma abelha, várias aparecem em colmeia? A passagem de Paulo Gustavo representará a resistência da graça de alguma maneira, embora agora prevaleça a tristeza.

Reivindicamos um país e um palco ocupado por gente viva e a política por pessoas responsáveis e críticas. Embora tentem nos fazer crer o contrário, a arte não morrerá. Ela é contra corrente: mesmo na tristeza, ela iluminará o que fica e o que já não mais está. Neste tablado há luto, mas haverá luta. Deixem a arte respirar. O Brasil resistirá, pois resistem os seus artistas. Não nos esconderemos, sabendo sobre a falta, daremos o  nosso “ar da graça”, que não pode faltar. 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Médica, escritora e mestranda em psicanálise na Sorbonne em Paris

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