Quando as máquinas vigiam os trabalhadores

Na disputa de quem entrega um produto mais rápido e a um custo mais baixo, o perdedor não pode ser o trabalhador

(Foto: iStock)

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Economia,Opinião

As novas tecnologias do mundo do trabalho não buscam apenas aprimorar o processo produtivo . Diversas inovações são introduzidas também para ampliar o controle sobre os trabalhadores. Algoritmos, inteligência artificial e automação são usados não apenas para oferecer melhores produtos e serviços, mas também para monitorar mais intensamente as atividades realizadas pelos empregados, remotamente ou nos locais de trabalho, em diversos setores da economia.

Há empresas que oferecem softwares para empregadores que desejam monitorar os seus trabalhadores em home office. Esses produtos são vendidos formalmente para “monitoramento automático de tempo”, “análise de trabalho”, ou para a prevenção de roubo de dados ou de propriedade intelectual. O que realmente fazem, contudo, é registrar cada clique e ato de digitação, colocando em risco a privacidade e a segurança dos trabalhadores. Esse tipo de monitoramento também pode ocorrer durante jornadas cumpridas dentro da empresa.

Há também empresas que utilizam software de reconhecimento de imagens e inteligência artificial para vigiar em tempo real os trabalhadores, monitorando movimentos e expressões faciais. Outras utilizam tecnologias de reconhecimento emocional, que avalia os trabalhadores conforme padrões discursivos, expressões faciais ou tons de voz.

O caso da Amazon nos EUA ilustra bem como acontece a vigilância ostensiva dos trabalhadores.

A empresa utiliza o gerenciamento automatizado para administrar o trabalho de seus empregados em seus centros de distribuição. Um dos seus principais elementos é o sistema que monitora as metas dos trabalhadores, examinando o desempenho (por exemplo, as caixas e pacotes embalados por hora) e o tempo de não-trabalho, como as idas ao banheiro.

O descumprimento dos parâmetros estabelecidos pela empresa faz com que os trabalhadores recebam advertências, dependendo do caso, avisos de sua dispensa. Tudo ocorre por meio de mensagens automatizadas, em que não há qualquer contato com um ser humano. Ou seja, as máquinas são as supervisoras.

O monitoramento das atividades também abrange trabalhadores que atuam fora dos centros de distribuição, como os entregadores. No início de 2021, a Amazon instalou câmeras de vídeo com inteligência artificial nos veículos que realizam entregas. Quando a câmera detecta uma ação que considera equivocada, emite uma voz robótica para alertar o motorista.

O objetivo, disse a empresa, era promover a segurança dos trabalhadores. Os entregadores relatam. porém, que essas câmeras os penalizam por acontecimentos que estão além de seus poderes, como quando são cortados por um outro carro, ou por razões que não constituem violação às leis de trânsito, como mexer no rádio. Os trabalhadores recebem notas conforme o seu desempenho na direção do veículo, o que influi no pagamento de bônus e prêmios. Além disso, para a instalação dessas câmeras, os trabalhadores foram obrigados a assinar termos de consentimento para a empresa acessar suas informações biométricas, sob pena de perderem o emprego.

A intenso monitoramento automatizado da Amazon cobra um preço alto dos trabalhadores. Um estudo divulgado em maio de 2021 mostrou que os trabalhadores da Amazon sofrem acidentes mais graves e com maior frequência. Segundo esse relatório, o número de acidentes de trabalho na Amazon foi duas vezes maior que nas demais empresas do mesmo setor. E a taxa de lesões graves foi 80% mais alta.

No primeiro semestre deste ano, uma intensa mobilização de trabalhadores ocorreu no estado do Alabama, nos EUA. Foi realizada uma eleição entre os empregados da Amazon na cidade de Bessemer, para decidir se um sindicato os representaria. Uma das razões que motivou os trabalhadores a conseguirem que esse pleito ocorresse foi a insatisfação com o sistema de monitoramento automatizado.

 

Há estados norte-americanos debatendo o tema no âmbito legislativo. Neste mês de setembro, o governador da Califórnia sancionou uma lei aprovada pela Assembleia Estadual, prevendo que os empregadores não podem estabelecer metas para os seus trabalhadores em centros de distribuição, como os da Amazon, que inviabilize o intervalo para alimentação ou para descanso, o uso de banheiros – incluindo o deslocamento até os sanitários – ou a aplicação das normas de saúde e segurança no trabalho. Além disso, oferece transparência, ao assegurar o direito de os trabalhadores receberem uma descrição das metas fixadas pelos empregadores, abrangendo o número de tarefas que devem ser realizadas ou de materiais que devem ser produzidos ou manuseados, bem como as consequências empregatícias em caso de não cumprimento dessas metas. A lei é considerada um avanço para melhorar as condições de trabalho nesses centros de distribuição.

Atualmente, a Amazon possui 10 centros de distribuição no Brasil e anunciou que abrirá outros dois até o fim de 2021. Ainda não se tem notícia da reprodução dessas práticas trabalhistas abusivas em nosso país. Contudo, a sua importação poderá violar direitos dos trabalhadores, como a privacidade e a saúde e segurança no trabalho. Além disso, é importante termos conhecimento das condições de trabalho em outras empresas de comércio eletrônico que possuem centros de distribuição. Afinal, na disputa de quem entrega um produto mais rápido e a um custo mais baixo, o perdedor não pode ser o trabalhador.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Doutor em Direito pela Universidade de São Paulo e Procurador do Trabalho

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