Filipe Porto

Pesquisador no Observatório de Política Externa e Inserção Internacional do Brasil, o OPEB, da Universidade Federal do ABC.

Opinião

Qual será o futuro da política de Covid-zero na China?

Foco excessivo na onda de protestos impede reconhecimento de que dificuldades enfrentadas pela China ao longo da pandemia vão além de seu sistema político

Funcionária de limpeza em estação ferroviária de Pequim. Foto: Wang Zhao/AFP
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A vice-primeira-ministra e líder da política de Covid-zero da China, Sun Chunlan, declarou que o país está enfrentando uma situação nova frente à Covid-19. A conjuntura requer revisão das medidas de prevenção e controle da pandemia, ressaltando a importância da identificação das variantes do vírus, o avanço da vacinação e a experiência acumulada desde o começo da pandemia até então.

No cerne da questão está a onda de protestos que tem se espalhado por todo o país, motivados pela falta de clareza das medidas adotadas para a prevenção e controle da pandemia.

Mas Pequim tem realmente um novo plano? Mais do que isso: as mudanças anunciadas pelo governo central da China são uma reação à onda de protestos no país ou já estavam em andamento?

Diversas foram as motivações que culminaram na onda de protestos ao redor da China entre novembro e dezembro de 2022. Alguns manifestaram contra a política de Covid-zero, especificamente; muitos outros pelo fim de toda a política, de forma mais ampla. Alguns expressaram insatisfação direta com o governo e a figura de Xi Jinping.

Talvez nunca saibamos, mas faz-se necessário alertar contra o excesso de atenção dado por diversos analistas de que os protestos tenham influenciado diretamente as mudanças recentemente anunciadas na política de Covid-zero. Essas considerações são ingênuas e impedem o reconhecimento de que as dificuldades enfrentadas pela China durante a pandemia vão muito além de seu sistema político.

Antes mesmo dos protestos, Pequim já havia emitido sinais de mudança, quando no início de novembro estabeleceu 20 medidas de flexibilização, que incluíram a redução da quarentena para viajantes que chegassem ao país e o fim da restrição imposta aos voos internacionais de transportar passageiros infectados.

O anúncio de 10 novas medidas, em dezembro de 2022, sinalizam uma nova fase de controle da pandemia na China, em complementaridade aos esforços anteriores.

Longe de reconhecer a influência dos protestos, a mídia estatal chinesa enfatizou que o país está constantemente mudando suas diretrizes de acordo com recomendações científicas e técnicas, além do aprendizado que tem acumulado desde o início da pandemia. Um artigo da Xinhua, em chinês, detalha a política de prevenção à Covid-19 na China ao longo dos últimos três anos.

O presidente da China, Xi Jinping. Foto: Reprodução

As frustrações com a política de Covid-zero começaram a surgir na medida em que o mundo começou a retomar a vida normal, com o início e avanço das campanhas de vacinação, a flexibilização das medidas de controle e de lockdown, a abertura das fronteiras nacionais, além da retomada do trabalho, da atividade industrial e do setor de serviços.

A política garante agilidade e rapidez na prevenção, principalmente na rápida detecção das pessoas contaminadas pela Covid-19, o que pode ser considerado um sucesso. Mas na mesma rapidez são acionadas medidas de contenção, que colocam a sociedade chinesa em estado de permanente incerteza na vida cotidiana.

Os protestos recentes não devem ser vistos como “súbitos” ou espontâneos. Eles se concentram, principalmente, nas frustrações do público com a falta de previsibilidade da política de Covid-zero.

Isso pode atingir, de fato, um território perigoso para o Partido Comunista chinês (PCCh). Todas as grandes repressões do passado – Tiananmen, o movimento Falun Gong, etc. – envolveram causas que mobilizaram um grande número de pessoas e desafiaram a legitimidade do governo central.

Mas ainda precisamos ser cautelosos ao traçar paralelos diretos com 1989, como alguns estão fazendo.

A China implementou intensas reformas após o ocorrido na Praça da Paz Celestial e aperfeiçoou seus mecanismos de vigilância sobre a população. O PCCh também pode estar permitindo protestos até certo ponto, como uma espécie de válvula de alívio de pressão, antes que um “alerta vermelho” possa ser emitido para que o governo inicie ondas de repressão popular, assim como nos protestos de Hong Kong.

Além disso, o PCCh de hoje não tem facções divididas, como havia em 1989. Xi tem políticos próximos de sua órbita instalados nos níveis central e provincial do governo, e talvez seja menos provável que essas elites apoiem os manifestantes da maneira que a elite política o fez em 1989.

Mais significativo do que debater sobre as possíveis ameaças ao regime político da China seria avaliar o significado das constantes revisões da política de Covid-zero no país.

Ainda é cedo para falar do sucesso ou se, de fato, as flexibilizações vão ter resultados positivos, mas há algo simbólico nesses movimentos: se a China pretende retomar o crescimento econômico, superar os reflexos negativos da pandemia, garantir a estabilidade e legitimidade do regime político do país, faz sentido atender às demandas de seu povo.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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