Milton Rondó

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Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da ONU e representante, alterno, do Itamaraty no extinto Consea

Opinião

Precisamos lutar por uma alimentação escolar gratuita e universal

No entanto, os impérios continuam investindo em armas, em vez de comida

Créditos: divulgação Créditos: divulgação
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“E dou a minha palavra de que a única coisa que consigo recordar desse período é justamente o que me levou à evasão: fome. Era a primeira vez que eu estudava tão longe de casa, era a primeira vez que eu precisava carregar algum dinheiro comigo para poder comer na rua, e a minha mãe não tinha esse dinheiro para me dar.”
José Falero.

José Falero é, para mim, um dos melhores jovens escritores da atualidade. O trecho acima é de “Mas em que mundo tu vive?“, coletânea de crônicas dele, editada pela Todavia.

Por ironia, embora eu tenha morado em Porto Alegre, fui ter contato em São Paulo com a obra do gaúcho Falero, graças ao livreiro Ronaldo Rangel Rodrigues, da livraria situada no Espaço Unibanco de Cinemas, na Rua Augusta.

Ronaldo foi taxativo sobre “Os supridores”: “o melhor que li no ano passado.”. Concordei, após a leitura.

Falero tem a capacidade de falar várias línguas, das gírias da Lomba do Pinheiro, periferia de Porto Alegre, onde mora, a sofisticadas formas de transmitir sentimentos, provando que o mérito do escritor é o de comunicar – da forma mais exata e ao maior número de leitores – de maneira profunda e inclusiva (e sem teorizar, rs).

Sobre o tema da fome, Falero aprofunda seu experimentar, na crônica “Campo minado”, de onde extraí o trecho citado acima e o seguinte: “Fome. Ainda hoje, quando passo de ônibus na frente do Inácio, a primeira e única coisa que me vem à cabeça é isso: fome. Vontade de comprar um lanche no intervalo e nunca ter dinheiro. Ver outros alunos comendo e nunca poder comer também. Sair das aulas ao meio-dia, com o estômago roncando, sentir no ar o cheiro dos lanches e das refeições das lanchonetes e dos restaurantes da Azenha e nunca poder comprar uma porra dum pastel sequer!…Só Deus sabe como me revolto com essa lembrança. Só Deus sabe o que me dá vontade de fazer toda vez que penso nisso. Quando penso nisso, e agora mesmo estou pensando, só Deus sabe o tamanho do esforço que tenho que fazer para que não se esvaia de mim toda e qualquer alegria, para que não se evapore meu sorriso, para que eu possa conservar em mim alguma doçura.”

Com efeito, o que mais atrai estudantes para a escola, em pleno século XXI, é comida! No Brasil, na América Latina, Caribe, África e na Ásia.

Por isso, precisamos lutar cada vez mais por uma alimentação escolar gratuita e universal! O direito à alimentação é direito humano, portanto fundamental, universal!

No entanto, os impérios continuam investindo em armas, em vez de comida.

Os Estados Unidos da América (EUA) têm mais de 700 bases militares espalhadas pelo mundo. Ou seja, número superior ao triplo de países existentes.

Pelo menos nessa miserável condição belicista, os países ricos estão em desvantagem: 44 bases estadunidenses estão na Itália e 119, na Alemanha, com dezenas de milhares de militares.

Entretanto, até nos EUA a alimentação escolar é paga, havendo pais com dívidas superiores a 20 mil dólares em alimentação escolar dos filhos; sentenças judiciais já foram expedidas, ameaçando-os de perderem até a guarda dos filhos!

Retornado ao tema dos livros e dos romances (e mais uma vez citando um gaúcho, Moacyr Scliar, em “Amor em texto, amor em contexto”, volume que traz diálogo dele com a escritora Ana Maria Machado) lê-se: “Não podemos esquecer que o grande século do romance, o século XIX, foi muito repressivo. O melhor exemplo disso é a Inglaterra vitoriana”, afirmou Scliar. Ao que contestou, certeira, Ana Maria: “No mínimo, era hipócrita.”

Nesse sentido, que felicidade termos escritores que fotografam seus e nossos mundos com lentes que denunciam, iluminam e, dessa forma, permitem identificar as injustiças e, assim, talvez corrigi-las!

Em “Olhar”, coletânea de ensaios da Companhia das Letras, o psicanalista Renato Mezan, inicia seu artigo, “A medusa e o telescópio ou Berggasse 19”, lembrando, porém, os limites do olhar e citando o diplomata Guimarães Rosa: “Nenhum olhos têm fundo; a vida, também, não.”

Ao recordar o estádio de Freud, de seis meses, na Clínica Salpêtrière de Paris, dirigida pelo psiquiatra Jean-Martin Charcot, em 1885, Mezan nota o que Freud enfatizaria sobre Charcot, no elogio fúnebre do professor: “No necrológio que redigiu em 1893, quando seu mestre veio a falecer, o discípulo ressalta o papel da visualidade no trabalho de Charcot: este se denominava un visuel, e considerava o ver como o início de toda operação científica…”.

Sempre citando o referido preito de Freud a Charcot, Mezan recorda a acuidade de Freud sobre o método de observação do professor: “Muitas vezes o ouvimos afirmar que a maior satisfação de que um homem poderia gozar era ver algo novo, isto é, reconhecê-lo como novo; e, em observações constantemente repetidas, retornava ao mérito e à dificuldade de uma tal visão, perguntando-se a que razão se deveria que os médicos nunca vissem nada além daquilo que haviam aprendido a ver […]”.

Destarte, Mezan conclui que: “O verdadeiro prazer está no conhecer, e a visão é mais deciframento que contemplação…’ver’ é principalmente ‘observar com atenção’…; é de se supor que a injunção de fechar os olhos tivesse o sentido de contribuir ainda mais para reduzir os estímulos externos, favorecendo desta maneira o trabalho da livre-associação…A livre-associação é a forma pela qual Freud procede à análise dos seus sonhos.”

Principalmente, neste ano, somos chamados ao discernimento, à observação, à livre-associação (que é a própria definição da inteligência), a todas e todos acessível, independentemente de educação formal; pois a vida é mais importante, como já dissera o grande Oscar Niemeyer sobre sua magnífica arquitetura – e mais instrutiva, ouso acrescer.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Milton Rondó

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