‘Por que vocês querem nos matar?’

A partir de comovente relato pessoal, Patricia Valim reflete sobre a crescente violência contra a mulher no Brasil

‘Por que vocês querem nos matar?’

Justiça,Opinião

No último dia 04 de março foi divulgado o resultado do levantamento da Rede de Observatórios da Segurança realizado em cinco estados – SP, RJ, BA, PE e CE -, durante o primeiro semestre de 2020, incluindo os primeiros meses da pandemia do coronavírus que até hoje assola o mundo. Dos 1823 casos monitorados pela Rede, 449 foram vítimas de feminicídio: quando uma mulher é assassinada pelo motivo de ser mulher. Desses, 200 mulheres foram mortas em São Paulo, concentrando 40% dos casos monitorados; Pernambuco é o segundo estado com mais casos de feminicídio; Bahia é o estado com maior número de homicídio de mulheres; Rio de Janeiro é o segundo estado que mais agride mulheres; Ceará registrou 74% mais casos de feminicídios que o governo do estado registrou, ou seja: é o estado com o maior número de Boletins de Ocorrência maquiados.

Trocando em miúdos o resultado divulgado na última semana: cinco mulheres são assassinadas por dia nesses estados.

Quando se considera o alerta de especialistas sobre o crime de feminicídio ser “maquiado” e frequentemente registrado como lesão corporal ou homicídio doloso, a realidade transforma o feminicídio no Brasil em um crime que beira à epidemia, praticado sobretudo por companheiros e ex-companheiros da vítima dentro de sua casa. Uma mulher correr alto risco de morte dentro da própria casa – onde ela deveria estar segura – não é a única contradição que cerca o feminicídio aqui, nos Tristes Trópicos.

O Brasil é um dos países que tem as três melhores leis do mundo para o combate da violência contra as mulheres e com tipificação específica, a Lei Maria da Penha (2005) – além de ser signatário de duas Convenções Internacionais: “Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher” (CEDAW/ONU) e a “Convenção de Belém do Pará”. Porém, contudo, entretanto, não obstante, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgou no ano passado que um terço das mulheres brasileiras já sofreram alguma forma de violência. Eu sou uma delas, e peço licença para lhes contar parte dessa história.

Há três anos, eu me apaixonei por um homem de setenta e poucos anos, vinte anos mais velho do que eu. Charmoso, inteligente, perseguido por ser combativo, irônico na medida certa, ele também ficou encantado, mas a história não foi adiante porque temos a mesma qualidade: somos monogâmicos seriais. Também somos amigos até hoje, mas não foi simples lidar com esse não vivido na época. E na tentativa de superar isso, tomei uma decisão impulsiva que me deixou sequelas físicas e emocionais. Lembro como se fosse hoje: era o final de um evento acadêmico no auditório da Faculdade de Engenharia da UFBA, ele se aproximou, estava pálido, olhou nos meus olhos, me beijou, me abraçou forte e foi embora de cabeça baixa.

Nessa mesma época, um colega de profissão que acabado de se separar estava em Salvador para um seminário e me convidou para jantar antes de voltar para São Paulo. Aceitei. Conversa vai, cerveja vem, risadas, um abraço apertado e um beijo demorado. Menos de um mês depois, começo de ano, ele voltou para Salvador para passar férias e me pediu em namoro.

Tudo parecia divertido e leve nas férias de janeiro até eu encontrar um colega de militância na cidade de Cachoeira. Um homem bonito, divertido e cheio de histórias rapidamente despertou o ciúme do então namorado, que brigou comigo e depois se desculpou pedindo paciência, pois ele teria que se adaptar ao fato de estar namorando uma mulher bonita e que chamava atenção. Burrinha, fiquei toda prosa e achava engraçado quando ele queria saber com quem eu já tinha namorado antes dele.

Na noite anterior à festa do 2 de fevereiro, fomos encontrar umas amigas no Rio Vermelho, bairro boêmio de Salvador. Depois de um show e de cortejos de rua, fomos tomar um gim em um bar e ele esmurrou um moço na frente de todo mundo porque disse ter visto ele tocar o meu cabelo. O moço estava com o namorado e não tinha feito nada além de ter sido meu aluno na universidade. Ele chorou muito, pediu desculpas, disse que estava bêbado, prometeu que nunca mais faria isso e jurou amor eterno enquanto a gente transava. Logo depois, o carnaval chegou anunciando o inferno de Dante que seria a minha vida nos meses seguintes.

Do tamanho da saia da minha fantasia, até o italiano dono da pousada que não parava de me olhar em uma praia deserta da ilha de Itaparica, passando episódio no qual a PM/BA nos agrediu porque eu tentei parar uma tortura a céu aberto de um rapaz negro que já estava algemado e no chão. O episódio é conhecido e paradigmático do modus operandi desse tipo de homem: eu respondi o processo sozinha porque ele não apareceu na audiência e nem enviou um vídeo com o relato do que acontecera naquela noite por medo de prejudicar sua carreira – que é a mesma que a minha.

O fato é que o tempo passava e ele ia piorando.

As aulas começaram e não demorou para esse sujeito começar a stalkear quem curtia minhas postagens e a querer saber com quem eu tinha conversado durante o dia, me pedia fotos dos lugares em que eu estava e fui fazendo o mesmo. Em uma noite depois de uma participação minha em um evento de trabalho em São Paulo fui jantar com amigos e ele chegou depois e tudo parecia tranquilo até que ao chegar na casa dele, enquanto a gente namorava ele segurou o meu rosto forte, olhou nos meus olhos e me disse sem meias palavras: “eu te mato se você me trair”.

Eu me culpo até hoje por não ter terminado tudo ali porque a primeira agressão aconteceu dois dias depois. Ele fez um jantar para amigos em comum na noite anterior ao meu retorno para Salvador. No final daquela noite massa, ajudei a recolher o lixo, fui escovar os dentes para dormir e soube que um moleque que eu nunca vi na vida, mas participava de um mesmo grupo de zap, tinha me mandado uma mensagem privada querendo me ver nua. Isso me rendeu empurrão da cama e um chute – que ele disse ter sido sem querer. A relação prosseguiu entre brigas pesadas e juras de amor eterno.

No mês seguinte, ele esperou que eu dormisse e passou a madrugada vasculhando as mensagens no meu celular: descobriu que eu estava apaixonada por outro homem antes de começar a namorar com ele e que eu tive uma história em 2016 que ele não sabia, Ele ficou transtornado, sobretudo porque divulgaram em um grupo de zap interestadual a foto de uma assembleia em um sindicato na qual eu estava sentada entre uma amiga e o homem por quem estive apaixonada antes de começar esse namoro. Ele quis saber quem estava na assembleia e disse que ele não conhecia ninguém. Ele me mandou a foto, me xingou, gritou e quando nos encontramos para conversar, depois de beber muito, me agrediu porque ele não era “corno”.

A mulher não precisa ficar com outrem para um homem achar que pode se vingar dela. Basta ela ser mulher. Basta uma piada de “corno” e a possibilidade de “todo mundo considerar esse homem corno” para a mulher sofrer todo tipo de agressão. Aliás, depois que terminamos da pior maneira em uma festa ele repetia que ninguém acreditaria em mim porque, em seus termos, tenho fama de namoradeira e briguenta na militância político-partidária. E ele tinha razão: quase ninguém acredita em uma mulher até ela ser morta ou ter sequelas físicas irreversíveis.

Sete cirurgias na boca para corrigir os dentes tortos pela perda óssea, um dedo torto para sempre porque foi quebrado em dois lugares, uma orelha rasgada por um brinco arrancado e a luta diária para tirar o agressor do meu espelho e evitar que eles nos matem, inclusive simbolicamente. É por isso que eu conto essa história envolvendo pessoas que tiveram acesso à educação, saúde e cultura e possuem renda e formação escolar bem acima da média brasileira.

É por tudo isso que eu encerro esse artigo com a divulgação do coletivo de ajuda mútua e rede de apoio para mulheres agredidas “Outras Bárbaras”. A primeira reunião virtual será em 28 de março de 2021, às 19 horas, com o tema “por que você quis me matar?” É preciso barra-los e só conseguiremos coletivamente. Para participar é só enviar um email com nome e contato para: [email protected]

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Professora do departamento de História da Universidade Federal da Bahia.

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