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Por que Habermas morre ‘em baixa’
É verdade que a teoria social se move por rupturas fundamentais. Mas é verdade também que, nos últimos tempos, o espaço emotivo da reflexão social prefere o prazer exótico do pessimismo
Jürgen Habermas foi um pensador enorme, e completo. Sua obra se dedica a quase tudo que existe, no mundo social, passando pelos problemas simbólicos, pelos desafios da técnica e, muito fortemente, pelas questões do direito e da democracia.
Direito e democracia eram para Habermas os grandes nós, talvez, da crise moral do Ocidente, capitaneada pela inflação da técnica e da coisificação. Seu pensamento era generoso e positivo, no sentido em que visava construir o mundo pela palavra, sem deixar de reconhecer que outra crise complicada –a crise da linguagem– açodava (e açoda) a reconstituição da esfera pública, que ele tanto perseguia.
O pensamento de Habermas dava muito pouco espaço para a acidez e o sarcasmo. Tinha algo de religioso, no sentido de uma responsabilidade austera e por vezes lacônica. Sua escrita tinha poucos volteios, embora fosse por vezes elíptica. É compreensível que Habermas fosse assim: saiu dos horrores da Guerra, mas se afastou de Theodor W. Adorno por seu sentimento de “fé no homem”. Por isso, apanhou dos ‘adornianos’ mais extremos, que de Habermas debocharam com alguma frequência, fazendo uma caricatura por vezes sórdida de seu “agir comunicativo”.
Habermas foi um pensador de vulto, e a pecha de inocência que lhe foi pegada não faz jus à complexidade de suas proposições. Por isso, entre outras coisas, Habermas morre “em baixa”.
É verdade que a teoria social se move por rupturas fundamentais. Mas é verdade também que, nos últimos tempos, o espaço emotivo da reflexão social prefere o prazer exótico do pessimismo, que não tem necessariamente uma cientificidade maior, mas atrai as audiências conforme a Poética de Aristoteles já previa: preferimos contemplar o horror e falar de sua inevitabilidade. Habermas distanciou-se disso e deixou um legado de rigor.
Ainda sobre esse legado, nunca é demais lembrar o famoso episódio que viveu em São Paulo, com colegas da USP. Habermas foi levado por um grupo de professores para almoçar no restaurante Senzala (no início dos anos 1990, se não me engano) e enquanto se faziam os pedidos, perguntou a um dos presentes o que significava a palavra “senzala”.
Ao ser informado de que a senzala era o lugar de dormida dos africanos escravizados no Brasil, pediu a todos para ir embora. Dizem que não estava bravo, nem irritado, mas que, com autoridade paroquial, perguntou aos colegas se gostariam de ser levados a almoçar, na Alemanha, em um restaurante chamado Auschwitz. A cena foi constrangedora, dizem. Mas ele se manteve firme.
O episódio vai muito além da anedota, pois revela um cuidado tocante com a relação entre conhecimento e vida, e mostra com muita clareza os vínculos que ele perseguiu, filosoficamente, entre linguagem, política e ética.
Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
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