Esther Solano

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Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Complutense de Madri e professora de Relações Internacionais da Unifesp

Opinião

Por que eleitores de Bolsonaro pretendem votar em Lula neste ano?

Entendê-los é entender as eleições de 2022

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Meus amigos, os Bolsolulas são um fato. Existem. Estão entre nós. Durante estes últimos dias, ando a conversar com eleitores de Norte a Sul do País dos mais diversos perfis, mas todos com um denominador comum, votaram em Bolsonaro em 2018 e votarão em Lula em 2022.

Vamos entender os argumentos dos Bolsolulas, pois entendê-los é entender o Brasil. Entendê-los é entender as eleições deste ano:

1. Todos confessaram nas entrevistas ter votado em Bolsonaro por desejo de mudança, por um sentimento de frustração total com o sistema político. A tirania do novo. A desolação com um sistema representativo que abandona mais do que representa e deixa aberta a porta para os monstros.

2. Todos disseram também que a Operação Lava Jato foi um elemento decisivo do seu voto. Acreditaram nela, acreditaram em Sergio Moro, acreditaram na culpa do PT, acreditaram na culpa de Lula. Mas também disseram que, depois da ida de Moro para o ministério de Bolsonaro e depois das anulações das condenações, começaram a duvidar da operação, de tal forma que hoje muitos admitem ter se sentido enganados. A Lava Jato, para estes, tornou-se um circo, um golpe, uma perseguição política orquestrada por quem não queria a volta de Lula ao poder. Meus amigos, acho essas declarações poderosíssimas. A mentira da Lava Jato tem desmoronado. A farsa do juiz Messias chega ao seu fim. Reparem: entrevistamos vários eleitores indecisos que dizem cogitar do voto em Moro. Todos confidenciaram que, se ele chegar mais perto das eleições com essa intenção de voto miúda, votarão em Lula.

3. Dizem ter se arrependido do voto em Bolsonaro. Várias são as críticas, que convergem em três, fundamentalmente: sua desumanidade, demonstrada na pandemia e no comportamento intolerável diante das catástrofes de Bahia e Minas Gerais, seu comportamento autoritário e agressivo e uma situação econômica insustentável que jogou muitos na pobreza e no desespero. A mentira de Bolsonaro também se desmorona.

4. Votarão em Lula em 2022. As razões são as mais básicas, as mais humanas, as mais sofridas. Votarão em Lula porque passam fome. Votarão em Lula porque não conseguem pagar as contas. Votarão em Lula porque não conseguem pagar o botijão de gás. Votarão nele porque, na época que governava, a vida estava melhor, dava para comer carne, dava para economizar, e, como disse uma senhora numa das entrevistas, “dava para sonhar um pouquinho”. Votarão em Lula porque “não dá mais”, porque “pior que está não pode ficar”, porque “chegamos ao fundo do poço”. Votarão em Lula porque “ele cuida dos pobres”, “ele se preocupa com o povo”. É isso, meus amigos. A onda Lula está em alta e é poderosa. A coisa chega a tal ponto que a grande maioria até afirma conversar com gente próxima, parentes, amigos, colegas do trabalho, sobre a opção de votar em Lula, rememorando coletivamente um passado onde a vida tinha mais dignidade.

5. Sobre a possível chapa de Lula com Geraldo Alckmin, a resposta é bastante clara: a chapa é positiva, supõe uma aliança para reunificar o País, significará um ponto de equilibro, um meio-termo entre ideologias opostas que devem encontrar o diálogo, ampliará a base petista, diminuirá o antipetismo, “desradicalizará” o PT. A união de esquerda e direita trará uma convergência que o Brasil precisa. Reconheço que não esperava uma aceitação tão grande.

6. Por fim, todos têm medo. Medo de que Bolsonaro tente dar um golpe com o apoio de alguns segmentos militares e medo do que eles consideram o risco mais viável: grupos bolsonaristas radicais e agressivos saírem às ruas e criarem uma situação de caos e violência generalizada. Esta será, eles dizem, a eleição mais violenta que o Brasil viveu. Entendo o medo deles. Sinceramente, não acho que as Forças Armadas embarquem numa tentativa golpista, mas a ameaça de algum grupo bolsonarista mais extremo disposto a alguma brutalidade me parece uma possibilidade real. A única coisa que nos poderia livrar disso é que, no fundo, eles são uns covardes, uns frouxos medíocres que escondem sua pusilanimidade fazendo arminha com a mão. Quem sabe, talvez Bolsonaro perca a eleição e eles fiquem em casa, esbravejando no Telegram, mas se cagando de medo de ir para as ruas.

É isso, meus amigos, estamos diante de um cenário que, por fim, nos dá esperança. Com cautela, com estratégia, com inteligência, mas com esperança. A fome vai nos trazer Lula de volta. No fundo, é terrível. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1193 DE CARTACAPITAL, EM 2 DE FEVEREIRO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Bolsolulas”

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Esther Solano

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Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Complutense de Madri e professora de Relações Internacionais da Unifesp

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