PMs sublevados podem fazer do Brasil uma Bolívia?

A temperatura sobe no Brasil e fica difícil discernir o que está a um palmo à frente.

Foto: Eduardo Saraiva/ A2IMG

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Opinião

No domingo 28, o policial militar Wesley Soares foi morto por soldados do BOPE no Farol da Barra, importante ponto turístico de Salvador. O policial empunhava um fuzil, tinha o rosto camuflado e vestia seu uniforme.

Segundo o comando da PM, Soares teve um surto Durante o cerco, teria oscilado entre momentos de fúria e de calma, alternando disposição para negociar com disparos para o alto e o lançamento ao mar de isopores e bicicletas de ambulantes. Ferido, foi levado ao Hospital Geral do Estado, onde faleceu.

O trágico episódio foi politizado quase imediatamente. A deputada federal Bia Kicis (PSL-DF), presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, disse no Twitter que o policial foi “baleado e morto por seus colegas por se recusar a fazer o indigno trabalho de perseguir e prender trabalhadores” por supostamente ter se indignado com as medidas de restrição à circulação em vias públicas e ao fechamento de atividades não-essenciais pelo governo estadual.

 

A explicação oficial sobre o “surto” seria, assim, uma mentira para encobrir seu posicionamento contra o lockdown e o isolamento social.

A proximidade da família Bolsonaro com as PMs estaduais é historicamente consistente e altamente documentada. A categoria, em especial os escalões mais baixos, vem apoiando o presidente, contrariando a obrigação de não se pronunciar politicamente. A politização das PMs nos faz lembrar de processo similar ocorrido recentemente na Bolívia.

Em novembro de 2019, após vitória de Evo Morales nas eleições presidenciais, diversas unidades da Polícia Nacional Boliviana – corporação similar às PMs – sublevaram-se, somando-se a civis que se negavam a aceitar o resultado das urnas. Apoiado por governadores oposicionistas, o motim policial se espalhou pelo país, levando a confrontos com mortos e feridos. Alegando sentir que sua família e ele próprio corriam perigo de morte, Morales renunciou ao cargo, em processo tutelado pelas Forças Armadas. Logo após Morales deixar o país, a senadora Jeanine Áñez se autodeclarou presidente, com o apoio dos militares.

Um ano depois, Luis Arce, do mesmo partido de Morales, venceu novas eleições. Morales voltou do exílio e, em março de 2021, Áñez foi presa acusada de “conspiração e terrorismo”.

A radicalização das polícias militares poderia gerar no Brasil uma situação análoga à boliviana. Se greves e motins pró-bolsonaristas eclodirem no país, seria possível que as Forças Armadas fossem chamadas para apaziguar a situação. A ação das Forças Armadas poderia, até mesmo, ser amparada na Constituição, com governadores estaduais requisitando ação federal para proteger as instituições e para garantir lei e ordem.

Em um cenário assim, os militares poderiam vir a endossar um governo “palatável” ao “Centrão”, ao agronegócio, ao sistema financeiro, às classes médias não-bolsonaristas, à indústria, aos setores mais moderados do antibolsonarismo e, até mesmo, ao sistema internacional. Nesse caso, o motim das PMs seria usado como justificativa para justificar um “soft coup” (“golpe brando”) redentor.

Cerca de 8 horas após seu primeiro tuíte, Bia Kicis publicou outro, apagando o anterior. Afirmou, agora, ter-se comovido com a história de Soares, mas que é preciso “aguardar as investigações” e reconhecer a “fundamental hierarquia militar”. Apesar da retratação, os hashtags em alta no Twitter são: #wesleiheroinacional e #ruicostagenocida. No mundo das fake news e das manipulações das informações na rede, o que interessa é acender o pavio. Foi o que fez Bia Kicis.

Aos oficiais generais das Forças Armadas, do Exército em especial, e aos comandantes das PMs, cabe prestar atenção à politização de seus subordinados. É preciso que nos perguntemos: a quem serve a radicalização dos baixos escalões nas PMs e nas Forças Armadas? Por que alimentar o descontentamento de PMs com o Estado de Direito? Por que, por exemplo, PMs não foram incluídos na lista de vacinação prioritária se eles e elas estão na “linha de frente”?

Não esqueçamos que, no Brasil, há um histórico de insubordinações militares que levaram a situações trágicas que feriram a pátria, a cidadania e as próprias forças de segurança do País. Junto com essa turbulência entre PMs, o ministro da Defesa General Fernando de Azevedo e Silva deixou o cargo. O substituto é outro general, Braga Netto, chefe da intervenção federal no Rio de Janeiro em 2018. Nessa função, Braga Netto supervisionou a PM fluminense.

A temperatura sobe no Brasil e fica difícil discernir o que está a um palmo à frente.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Doutor em Relações Internacionais pela PUC-SP e Sorbonne Nouvelle e professor no Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (UFF), membro fundador do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (NEIP, www.neip.info) e da Red Latinoamericana de Estudios sobre Drogas (REDESDAL, www.redesdal.org). Além de autor de dezenas de capítulos e artigos sobre o tema das políticas de drogas, é autor dos livros “Narcotráfico, uma guerra na guerra” (Desatino, 2012) e “Política e Drogas nas Américas: uma genealogia do narcotráfico” (Desatino, 2017) e coeditor dos livros “Drug Policies and the Politics of Drugs in the Americas” (Springer, 2016); “Drogas, Política y Sociedad en América Latina y el Caribe” (CIDE, 2015) e “Política e Drogas no Brasil” (Mercado de Letras, 2018). Twitter: @thethiagor

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