Opinião
Pílulas Opinativas, parte 1
‘Quero indignação. O agronegócio vai melhor do que vocês’, escreve Rui Daher
Prezados leitores e leitoras, como histórico, um drink (aproprio-me da predominância da língua e da cultura norte-americanas), genuinamente brasileiro, e o mais consumido, quando junto e misturado, conhecido em botecos mil de azul anil, é o Rabo de Galo (necessárias maiúsculas, enquanto as minúsculas reservamos aos diversos “mudernos” cocktail, coquetel, whatever). Jovens ricos, vocês têm certeza dessas novas invenções? Touro vermelho com qualquer álcool aí? O planeta tonteou mesmo. Se não, experimentem a escolha nossa, sábios jurássicos.
Rabo de Galo, combina cachaça e vermute Cinzano. Surgiu nesta cidade de São Paulo, talvez em outras mais, porém não reportadas, em 1950.
Não foi na Casa Fasano, em que um italiano de Milão, Vittorio, 1902, abriu, uma brasserie na Praça Antonio Prado. Na época, morador do centro da cidade, muitas vezes minha mãe levou-me lá para um chá e bolo. Lembro dos candelabros ao redor. Gáudio.
Então, bairros, vilas, botecos, cadeiras nas calçadas, não ficavam muito longe do centro da cidade. Brás, Mooca, Casa Verde, Ipiranga, Campos Elíseos, Centro, com certeza, foram bairros distribuidores da saborosa bebida.
Não era necessário mais do que três quilômetros até chegarmos às margens dos rios Tietê ou Pinheiros, onde remávamos, pescávamos e banhava-nos, e o Rabo de Galo vicejava.
A cidade crescia em feroz velocidade, direção às periferias. Lembram-se? “São Paulo não pode parar”. E com a cidade não parava o deleite pela mistura alcoólica.
Claro que nunca escreveria sem a certeza de sua pontaria.
Cinzano? Empresa italiana, fundada em 1757, que enxergou o Brasil e seus numerosos clientes oriundi.
Se não sabem, ou não querem convalidar a marota propaganda da TV Globo, de que tudo á agro, tech e pop, cedam. No caso do Rabo de Galo, é.
Cana-de-açúcar destilada, mais 70 a 80% de vinho de uvas, e … parabéns.
Querem mais? Algo dos agronegócios ou da miserabilidade que percebo vicejar nas cidades em que a pandemia e o patrulhamento familiar ainda me permitem percorrer?
Dou. Em estilo corrido.
Em qualquer lugar que os leitores andem, fora dos guetos de luxo das metrópoles ou em polos onde reina o agronegócio de exportação, beneficiado por cotações externas e câmbio, vocês sentirão a tristeza da impotência, o formigar dos andrajos, o grito da fome.
A miséria brasileira, diuturnamente, é esfregada em nossas caras. Se escancara em fedor, dentes faltantes, todos eles escancarados pela educação a que pouco tiveram acesso.
Não foram vagabundos. Queriam-na. Percebo isso se repetir há 70 anos, como vejo os mais próximos dizendo que “o mundo sempre foi assim”.
Leões na arena para nossa diversão? Reativaram o Coliseu, em Roma, aqui na Federação de Corporações? Serão os antigos gladiadores as atuais milícias bolsonaristas, agora, por decreto, oficialmente armadas?
Quero indignação. O agronegócio vai melhor do que vocês e essa nossa vocação é irreversível, mas não suficiente para um desenvolvimento social harmônico, como pedem, hoje em dia, o capitalismo e a democracia.
Não estarei aqui, mas vocês jovens estarão. Não abandonem a luta por menor desigualdade, pois.
Inté.
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