Petrobras completa 68 anos sob o mais perigoso desmonte de sua história

A festa de aniversário da maior estatal brasileira é motivo de alegria para poucos, escreve Deyvid Bacelar

Sede da estatal Petrobras. Foto: Agência Brasil

Sede da estatal Petrobras. Foto: Agência Brasil

Opinião

A Petrobras completa 68 anos em 3 de outubro. Certamente, muitos acionistas da empresa, sobretudo os privados e os estrangeiros, terão motivos para comemorar. A gestão da companhia anunciou a distribuição de perto de 41 bilhões de reais em dividendos neste ano.

Contudo, esse ganho para poucos reflete imensas perdas. A começar pela própria Petrobras, que, sob falácias de “aumento da concorrência” e “queda dos preços”, tem vendido ativos importantes, em áreas estratégicas. A maior empresa estatal do Brasil, histórica impulsionadora do desenvolvimento econômico e social nacional e regional, tem se tornado uma mera produtora e exportadora de petróleo bruto, concentrada nas regiões Sudeste e Sul, deixando as outras áreas do País entregues à sorte.

A compra e venda de ativos faz parte da estratégia de qualquer empresa, e não é diferente com a Petrobras. Entretanto, surpreende a atual velocidade desse processo. Levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos, com base em números divulgados pela petroleira, mostra que a média mensal de teasers de vendas no governo Bolsonaro, de janeiro de 2019 a agosto de 2021 (dois anos e sete meses), foi de 2,1. No período de junho de 2016 a dezembro de 2018 (dois anos e seis meses), essa média foi de 1,4. E entre janeiro de 2013 e maio de 2016 (três anos e meio), a média de teasers foi de 0,4 por mês.

 

 

Também chama atenção a qualidade dos ativos vendidos, que farão falta nos médio e longo prazos para a própria sustentabilidade da companhia. Com a privatização de refinarias, gasodutos de transporte, distribuidoras de gás natural, de GLP e de combustíveis, a Petrobras deixa de ser uma empresa integrada e perde capacidade econômico-financeira de resistir a sobressaltos do volátil mercado global de petróleo e gás natural.

Tais vendas são feitas “a preço de banana”. Cálculos do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, e também de instituições financeiras como o BTG Pactual e a XP Investimentos, mostram que a Refinaria Landulpho Alves (Rlam), na Bahia, vendida por 1,65 bilhão de dólares, valeria entre 3 bilhões e 4 bilhões. A Isaac Sabá, no Amazonas, foi vendida por 189,5 milhões de dólares, 70% do seu valor de mercado, de acordo com o Ineep.

Além disso, a companhia torna-se cada vez mais “suja”, ao se desfazer de projetos eólicos e da Petrobras Biocombustível, produtora de biodiesel. A venda desses projetos e o corte de investimentos em fontes renováveis é ainda mais inexplicável por ir na contramão de todas as grandes petroleiras mundiais. Cientes de que a transição energética é um caminho sem volta, petrolíferas como Shell, BP, Repsol e Exxon ampliam investimentos em energia limpa, não apenas por uma exigência da sociedade e uma necessidade do planeta, mas para garantir sua sobrevivência no futuro.

Nem sequer a gestão da Petrobras pode dizer que tem direcionado tais recursos para áreas mais “rentáveis”. No ano passado, a companhia investiu 8 bilhões de dólares, um volume similar ao realizado em 2004, de 7 bilhões, e um sexto do realizado em 2013, de 48 bilhões. Para o período de 2021 a 2025, o investimento previsto é de 11 bilhões de dólares anuais, bem menor, portanto, do registrado há oito anos.

Além dessa entrega de um patrimônio que é da população brasileira, a gestão da Petrobras pune a sociedade diretamente em seu bolso, com a manutenção da política de Preço de Paridade de Importação para os combustíveis. Os constantes aumentos não param de pressionar a inflação – o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, de 1,14%, foi o maior desde a criação do Plano Real, em 1994, e fez a inflação chegar a 10,05% em 12 meses, quase o dobro da meta do governo. Até mesmo o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, criticou a velocidade dos reajustes promovidos pela estatal.

Enquanto se desfaz de ativos estratégicos, a empresa distribui 41 bilhões de reais em dividendos

Essa política cruel de preços dos combustíveis ignora a grave crise econômica e social brasileira. Mas, não satisfeita em garantir lucros altos apenas para os acionistas da companhia e esquecer o papel social da estatal, a gestão da Petrobras continua a reduzir a quantidade de trabalhadores próprios e terceirizados. O resultado é a queda da massa salarial, da renda e também dos empregos, em um país com 15 milhões de desempregados.

No fim do ano passado, a Petrobras registrava um total de 49.050 trabalhadores próprios. O número é bem próximo aos 48,8 mil de 2003 e quase a metade (queda de 43%) dos 86,1 mil empregados em 2013. Entre os terceirizados, o drama é ainda maior. A diminuição na quantidade desses trabalhadores foi de 74% entre 2013 e 2020. Para piorar: é crescente os casos de terceirizados que tomam calote dos contratantes. Em boa parte desses casos, a gestão da Petrobras lava as mãos e finge que não tem a menor responsabilidade sobre essa violência.

Assim, vemos a Petrobrás chegar aos 68 anos menor, investindo menos, deixando de lado as fontes renováveis, maltratando brasileiros e brasileiras com desemprego e gasolina, gás de cozinha e óleo diesel cada vez mais caros e fazendo com que alimentos e outros produtos subam de preço. Enquanto os acionistas celebram os dividendos, a população brasileira sofre. A festa de aniversário da maior estatal brasileira é motivo de alegria para poucos.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1177 DE CARTACAPITAL, EM 30 DE SETEMBRO DE 2021.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Coordenador-geral da Federação Única de Petroleiros

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