Jamil Chade

Jornalista, correspondente internacional, escritor e integrante do conselho do Instituto Vladimir Herzog

Opinião

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Pax Americana…

… Ou o último suspiro de uma hegemonia?

Pax Americana…
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Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apresenta o documento de fundação do Conselho de Paz – foto: Fabrice Coffrini/AFP
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Um ano após tomar posse, Donald Trump quer uma ONU para chamar de sua, sugere que suas­ ambições territoriais não podem ser questionadas, promove uma reviravolta nas alianças tradicionais dos EUA e, acima de tudo, atua para frear a impressão de que governa um país em decadência.

A ordem é a de estabelecer uma espécie de novo status para a Pax Americana, ordenamento global que atenderia aos interesses dos EUA. Mas, entre analistas, diplomatas e mesmo banqueiros, há uma impressão de que, no lugar de força, o que Trump demonstra ao mundo é a fragilidade de uma nação. Numa recente reunião entre financistas suíços, em Genebra, um deles constatou que, se por décadas o dólar era a referência por conta da hegemonia econômica dos EUA, hoje a moeda norte-americana apenas mantém tal status graças à força bélica.

Trump sabe que a China é seu maior rival e sua administração descreve Pequim como a principal ameaça existencial da história de 250 anos dos EUA. Mas a disputa por fazer parte daqueles que vão ditar as regras do século XXI tem passado não mais pela liderança, mas pelo domínio e ameaça. A situação ainda se contrasta radicalmente com o pensamento de acadêmicos e a elite política dos EUA, que, nos anos 1990, considerou que o apogeu do país estava assegurado por décadas.

Em 1998, o ex-conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Zbigniew ­Brzezinski, escreveu que “a extensão e a onipresença do poder mundial norte-americano são únicas hoje”. “Os Estados Unidos não apenas controlam todos os oceanos e mares do mundo, mas também desenvolveram uma forte capacidade militar para o controle costeiro anfíbio, o que lhes permite projetar poder de maneira politicamente significativa.” Mais: “Suas legiões militares estão firmemente entrincheiradas nas extremidades ocidental e oriental da Eurásia e também controlam o Golfo Pérsico. Os vassalos e tributários dos Estados Unidos, alguns aspirando a laços ainda mais formais com Washington, estão espalhados por todo o continente eurasiático”.

Num recente artigo no jornal El ­País, o romancista indiano Pankaj Mishra lembrou como, em 1990, com o colapso do comunismo soviético e a aparente proximidade do fim da história, o escritor V.S. Naipaul elogiou a americanização do mundo. “Em uma palestra proferida no Manhattan Institute, uma instituição nova-iorquina de direita, ele afirmou que o ideal norte-americano da busca da felicidade havia posto fim ao longo debate ideológico sobre qual estilo de vida e qual sociedade eram os melhores e estava criando uma civilização universal.”

Em 1999, o colunista de The New York Times Thomas Friedman chegou a desejar: “Quero que todos sejam americanos”. Quem também apostava no poder estadunidense era Henry Kissinger. “Na aurora do novo milênio”, afirmou, “os Estados Unidos desfrutam de uma preeminência inigualável até mesmo pelos maiores impérios do passado.” De armamentos a empreendedorismo, da ciência à tecnologia, do ensino superior à cultura popular, os EUA exercem uma ascensão sem precedentes em todo o mundo, estimou.

Quando tanques norte-americanos entraram em Bagdá, em 2003, o cientista político John Ikenberry escreveu: “O que a década de 1990 forjou foi uma América unipolar mais poderosa do que qualquer outro grande Estado da história.”

Naquele momento, o sentimento era de que existia um século XXI assegurado para os interesses de Washington. Mas foram justamente os fracassos dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque que revelaram que esses julgamentos apressados eram também míopes. Enquanto as operações de guerra se estendiam, poucos pareciam querer prestar a devida atenção à constituição de novos polos de poder, ao desembarque da China no primeiro plano do planeta, na retomada do orgulho nacionalista russo e no desenvolvimento da economia de mercados emergentes.

Para restabelecer seu papel no mundo, Trump sabe que só lhe resta uma alternativa, a de romper com as regras internacionais, asfixiar as instituições da governança global, reivindicar territórios estratégicos e chantagear aliados e adversários com o que resta de poder de sua economia.

Mishra talvez traga uma das melhores definições sobre o momento atual: “A civilização universal que os Estados Unidos ofereciam era mera ilusão. Seu declínio é talvez mais esclarecedor e significativo do que o desaparecimento da ilusão comunista em 1991”.

A nova Pax Americana não será uma operação de sedução, acompanhada pela cultura de massa, Hollywood, Disney, McDonald’s e Coca-Cola. Será imposta pelas canhoneiras, sanções e agressividade de um governo ciente, no fundo, do fim de sua liderança. •

Publicado na edição n° 1397 de CartaCapital, em 28 de janeiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Pax Americana…’

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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