Paulo Gustavo e o Brasil que vai nos matando aos poucos, e aos montes

O ator foi mais uma vítima da política de morte que toma conta do País, escreve Luana Tolentino

Foto: Reprodução/Instagram

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Opinião

Ao contrário da Miriam, minha irmã, que adorava assistir a comédias, nunca dei muita atenção para o gênero. Na verdade, sempre gostei mais de música e dos livros.

Escrevo isso para justificar o fato de eu não ter assistido aos filmes, às peças e aos programas de TV protagonizados pelo ator Paulo Gustavo, morto na última terça-feira, em decorrência da Covid-19.

 

 

O fato de eu não ter acompanhado a trajetória de sucesso do humorista niteroiense de perto não me impede de reconhecer o talento e a grandeza de seu trabalho. Em 15 anos de carreira, Paulo Gustavo levou mais de 20 milhões de pessoas aos cinemas, lotou teatros de todo o Brasil, elevou a audiência de canais pagos.

Paulo fez da existência e da arte uma forma de ativismo. Sua vida pessoal e seus personagens se entrelaçavam. Para ele, a homossexualidade não era um tabu ou motivo de vergonha. Longe disso. Ela estava nas capas de revista, nos palcos e nas telas, sempre de maneira sincera, divertida e afetuosa. Um grande feito, principalmente em se tratando de um país que ostenta o título de ser o que mais mata homossexuais, transexuais e travestis no mundo.

Durante os 53 dias em que permaneceu internado, ficou evidente que Paulo Gustavo era uma unanimidade. Uma corrente de oração se formou em torno do pai do Gael e do Romeu. Após sua morte, o Brasil descobriu que além de talentoso, o filho da dona Déa era um homem generoso, preocupado com as causas sociais.

Segundo Susana Garcia, médica, roteirista e amiga íntima do ator, em meio ao colapso do sistema de saúde de Manaus, Paulo doou 500 mil reais para compra de oxigênio. Em uma postagem no Instagram, o padre Julio Lancellotti revelou que Paulo Gustavo destinou 1,5 milhão para as Obras Sociais Irmã Dulce.

Fiquei muito triste quando soube que o quadro de saúde de Paulo Gustavo era irreversível. Com a divulgação de que a luta dele pela vida havia chegado ao fim, fui tomada por uma estranha sensação de vazio, de silêncio. No que diz respeito a mortes de pessoas famosas, acho que senti algo parecido somente em 2019, quando Beth Carvalho, de quem sou fã, faleceu. Mas com o Paulo Gustavo foi diferente. Era uma tristeza que ficou ruminando, como se de repente eu tivesse ficado oca por dentro.

Foi então que me dei conta do simbolismo da morte de Paulo Gustavo. Um homem jovem, casado, pai de dois filhos, saudável e amado por milhões de pessoas. Com ele, as vítimas da Covid-19, que se transformaram em números divulgados diariamente no noticiário, ganharam rosto, corpo, nome, sobrenome, endereço, RG, CPF. Uma percepção que somente as pessoas com perdas de pessoas da família – ou muito próximas – já haviam experimentado.

Com Paulo, nos deparamos com um vírus que ceifa o que o Brasil tem de melhor, castra talentos, destrói famílias, deixa crianças órfãs. É como se Paulo Gustavo nos sacudisse e dissesse: “Estamos na merda!”. Na noite de quarta-feira, durante o programa “Saia Justa”, emocionada, Astrid Fontenelle disse que Paulo Gustavo sempre usava essa expressão ao falar da situação do Brasil.

Paulo Gustavo se junta às mais de 417 mil vítimas da Covid-19, que padeceram em razão da ausência de políticas, ações e falas comprometidas com o combate ao coronavírus e aos impactos que ele tem gerado na vida da população. Quase 14 meses após o início da pandemia, ainda impera um discurso negacionista, criminoso por parte de quem tem a obrigação legal e moral de zelar pelo bem-estar dos brasileiros. Passados três meses do início da vacinação, ainda não temos um plano nacional de imunização que mereça esse nome. Muito pelo contrário. Em várias cidades, a aplicação das vacinas está suspensa. E não há qualquer perspectiva de que essa lentidão tenha fim nos próximos dias.

Mesmo sendo uma mulher de fé, recuso-me a concordar com quem diz que “Deus quis assim” ou que “a missão de Paulo Gustavo foi cumprida”.Paulo Gustavo foi mais uma vítima da política de morte que toma conta do País.

Paulo Gustavo se vai num momento em que muitos caminham com o sentimento de que, embora vivos, estamos morrendo aos poucos. Uns de fome, outros de tristeza, alguns de medo, tantos mais de desalento. Só nessa quinta-feira, 25 pessoas morreram de tiros em uma chacina ocorrida na favela do Jacarezinho, no Rio, executada por forças policiais. Tem sido difícil enxergar uma saída para o inferno que se abate sobre nós.

Paulo Gustavo, que ao longo da carreira fez tanta gente rir e espalhou amor, ao partir, infelizmente, personifica também um Brasil arrasado, destruído, que vai nos matando aos poucos, e aos montes.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Mestra em Educação pela UFOP. Atuou como professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana. Atualmente tem se dedicado à Formação Inicial e Continuada de Professores. É autora do livro Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula, lançado em 2018 pela Mazza Edições.

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