

Colunas
Para que serve a poesia?
Uma das melhores formas de encarar a aridez da vida é acalentar a alma com o lirismo de nossos grandes poetas do século XX
A vida é árida. São muitos deveres, muitas obrigações, muitas demandas às quais temos de atender e que nos impedem de, simplesmente, usufruir do tempo, das nossas fantasias, das canções que passam pelo ar. Já usei este espaço, em outra ocasião, para falar sobre o agradável refúgio que a música nos proporciona. Trata-se de um dos melhores antídotos contra a tristeza, mesmo quando a composição parece triste. Se é capaz de nos comover, a música também agita e aquece nosso coração.
Outro importante elixir para aumentar nosso gosto pela vida é a poesia, que tem sido minha fiel companheira desde a juventude. Sei de cor alguns poemas de grandes autores brasileiros. O mais longo talvez seja Passagem da Noite, de Carlos Drummond de Andrade, um de meus poetas favoritos, com seus 40 versos distribuídos em quatro estrofes. O primeiro trecho já é arrebatador para qualquer um que desperte de sonhos intranquilos:
É noite. Sinto que é noite/ não porque a sombra descesse/ (bem me importa a face negra),/ mas porque dentro de mim,/ no fundo de mim, o grito/ se calou, fez-se desânimo./ Sinto que nós somos noite,/ que palpitamos no escuro/ e em noite nos dissolvemos./ Sinto que é noite no vento, noite nas águas, na pedra.
Mais adiante, o deslumbramento do autor diante da alvorada: Mas salve, olhar de alegria!/ E salve, dia que surge!/ Os corpos saltam do sono,/ o mundo se recompõe./ Que gozo na bicicleta!/ Existir: seja como for./ A fraterna entrega do pão./ Amar: mesmo nas canções. E, por fim, um desfecho ainda mais belo: Clara manhã, obrigado,/ o essencial é viver!
No poema Memória, Drummond também traduz em poucas, mas certeiras, palavras as tenras lembranças de amores passados: Amar o perdido/ deixa confundido/ este coração./ Nada pode o olvido/ contra o sem sentido/ apelo do Não./ As coisas tangíveis/ tornam-se insensíveis/ à palma da mão./ Mas as coisas findas,/ muito mais que lindas,/ essas ficarão.
Não é só de coisas belas que a poesia se nutre. Diante das incertezas de um mundo permeado por conflitos e opressão, às vezes é necessário deixar o amor de lado para refletir sobre sentimentos menos nobres, como sugere nosso grande Drummond em Congresso Internacional do Medo: Provisoriamente não cantaremos o amor,/ que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos./ Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,/ não cantaremos o ódio, porque este não existe,/ existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,/ o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,/ o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,/ cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,/ cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte./ Depois morreremos de medo/ e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.
Já João Cabral de Melo Neto transformou a poesia em um poderoso instrumento de denúncia social. Concebido para o teatro, o poema Morte e Vida Severina ganhou uma histórica adaptação no Tuca, o teatro da PUC de São Paulo, em 1965, sob a direção de Silnei Siqueira e Roberto Freire, com uma inesquecível trilha sonora composta por Chico Buarque. Os versos do escritor pernambucano são cortantes, como revela este excerto: Somos muitos Severinos/ iguais em tudo na vida:/ na mesma cabeça grande/ que a custo é que se equilibra,/ no mesmo ventre crescido/ sobre as mesmas pernas finas/ e iguais também porque o sangue/ que usamos tem pouca tinta./ E se somos Severinos/ iguais em tudo na vida,/ morremos de morte igual,/ mesma morte Severina:/ que é a morte de que se morre/ de velhice antes dos trinta,/ de emboscada antes dos vinte/ de fome um pouco por dia/ (de fraqueza e de doença/ é que a morte Severina/ ataca em qualquer idade,/ e até gente não nascida).
Sempre é possível, porém, tecer a mais dilacerante crítica social com singeleza, como nos mostra Manuel Bandeira no célebre poema Irene no Céu: Irene preta/ Irene boa/ Irene sempre de bom humor./ Imagino Irene entrando no céu:/ — Licença, meu branco!/ E São Pedro bonachão:/ — Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.
Se o leitor deseja nutrir a alma e encontrar formas de encarar a aridez da vida, nossos grandes poetas do século XX têm muito a ensinar.
E que vivam as artes, todas elas! •
Publicado na edição n° 1418 de CartaCapital, em 24 de junho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Para que serve a poesia?’
A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.
O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.
Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.
Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.



