Para Bolsonaro, é melhor ser chamado de golpista do que de ladrão

Por isso, ele insiste tanto em temas que não interessam à maioria dos brasileiros, fazendo ameaças que sabe não poder cumprir

Foto: EVARISTO SA / AFP

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Opinião

O que leva um presidente da República a subir o tom das ameaças a ministros do Supremo e ampliar a crise institucional para defender um corrupto como Roberto Jefferson, que encarna o que há de mais podre no sistema político brasileiro e já foi condenado por lavagem de dinheiro e corrupção passiva? Não é somente pela solidariedade entre comparsas que sempre chafurdaram juntos no mesmo esgoto. Também não é só porque Jefferson – renascido “Bob Jeff” no berço da delinquência digital bolsonarista – é presidente do PTB, partido que compõe a base de apoio do governo no Congresso Nacional.

A resposta é mais simples e bastante reveladora do tamanho do desespero do presidente: Bolsonaro prefere sair em defesa de mais um bandido e ampliar a crise do que ter de falar sobre a propina da vacina, o leilão de cargos e verbas para o “Centrão”, os 15 milhões de desempregados ou o preço da comida, que empurra 19 milhões de brasileiros para a fome.

A semana que começou com o fumacê dos tanques no desfile na Esplanada dos Ministérios acabou com outra cortina de fumaça: a reação presidencial à prisão de Roberto Jefferson. Não deixa de ser constrangedor que Bolsonaro degrade as Forças Armadas a cumprir o mesmo papel que ele deu a um escroque como Bob Jeff na encenação golpista.

Parece absurdo, e é. Mas a estratégia funciona. Para Bolsonaro, é melhor ser chamado de golpista do que de ladrão de vacina e propineiro

Por isso, ele insiste tanto em temas que não interessam à maioria dos brasileiros, fazendo ameaças que sabe não poder cumprir. Pela primeira vez, desde a redemocratização, temos um presidente que, na prática, escolheu não assumir o cargo: sentou na cadeira, mas decidiu não desempenhar o trabalho. Bolsonaro não governa, é um agitador. E um agitador tem a vantagem de não precisar apresentar um projeto de País nem oferecer respostas concretas para os problemas reais dos brasileiros. Ele necessita apenas manter a turba atiçada, empolgar a tropa, para a eterna guerra contra inimigos imaginários.

Por isso, o Planalto sob Bolsonaro tem apenas três funções: garantir a boquinha da família e dos amigos, espalhar fake news e fabricar factoides para dar a falsa sensação de que há um governo. Tarefas que cumpre com enorme eficiência: no último mês, enfrentamos cortinas de fumaça sobre urna eletrônica, eleições, tanques velhos e Roberto Jefferson.

 

 

O método não é novo e, como tudo no bolsonarismo, a inspiração não veio de gente respeitável – não, desta vez o assunto não são os milicianos amigos de ­Bolsonaro no Rio de Janeiro, vamos ultrapassar as fronteiras. A Hungria, de ­Viktor Órban, e a Polônia, de Andrzej ­Duda, transformaram a comunidade LGBTQIA+ em inimiga pública número 1 e, dentre muitas barbaridades, querem proibir casais homossexuais de adotar filhos. O Vox na Espanha, a Liga na Itália e os neonazistas aliados de Bolsonaro da AfD na Alemanha usam o batido discurso da ameaça cultural da imigração para ganhar musculatura política e cadeiras nos Parlamentos. É a velha tática de canalizar para inimigos imaginários a justificada revolta popular com a piora nas condições materiais de vida e a falta de esperança no futuro. Tem sido mais fácil e eficiente do que encarar a complexidade da realidade.

Para entendermos o Brasil sob Bolsonaro e as estratégias de sobrevivência do presidente temos de analisar o nosso País neste contexto de avanço global da extrema-direita. Um livro fundamental para compreender o fenômeno e pensarmos sobre os caminhos para superá-lo é Engenheiros do Caos, do italiano ­Giuliano­ Da Empoli. Resumindo, a ofensiva da direita fascista é resultado da sua capacidade de mobilizar, através do algoritmo das redes sociais, a cólera da população contra um sistema político­ e econômico que, além de ser incapaz de responder às demandas da maioria da sociedade, funciona como máquina de reproduzir privilégios. Há um sentimento de alienação da cidadania misturado ao medo da eliminação, seja física, por causa da crise econômica, seja simbólica, através do avanço da imigração. No Brasil, incluímos o medo da eliminação provocado pela violência urbana.

O primeiro passo que precisamos dar é não cair nas armadilhas de Bolsonaro, que nos atrai para jogar sempre no seu campo e segundo as suas regras. Não podemos deixar que a extrema-direita siga agendando o debate com pautas que servem apenas como instrumento de agitação numa guerra política delirante. Temos de botar a bola no chão e propor um novo projeto de país que ofereça respostas concretas aos problemas das pessoas.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1171 DE CARTACAPITAL, EM 19 DE AGOSTO DE 2021.

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É professor de história e deputado federal pelo PSOL do Rio de Janeiro.

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