Elnara Negri

Livre-docente pela Faculdade de Medicina da USP e pneumologista do Núcleo Avançado de Tórax do Hospital Sírio-Libanês

Opinião

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Pandemia da solidão

O isolamento social atinge 16% da população mundial, alerta a OMS. Pesquisadores buscam identificar marcadores biológicos associados a essa condição para novas abordagens e tratamentos

Pandemia da solidão
Pandemia da solidão
Os púlpitos exaltam a maternidade como missão divina, mas raramente criam espaços para escutar o cansaço ou a solidão das mães evangélicas. Foto: Divulgação/BdF
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A cada dia, novas evidências científicas reforçam a correlação direta entre isolamento social e altas taxas de morbidade e mortalidade em todo o mundo. A solidão produz efeitos comparáveis aos do tabagismo e da obesidade. Um estudo recente buscou desvendar a biologia por trás de relações sociais e da saúde mental a partir de dados do Biobanco do Reino Unido. Mais de 40 mil amostras de sangue foram analisadas em busca de uma assinatura específica de proteínas séricas associadas ao isolamento social – em outras palavras, um exame capaz de detectar a solidão.

Parece maluquice, não é? Mas, desde os anos 2000, a inflamação sistêmica vem sendo associada ao isolamento social – vale lembrar que o aumento da poluição ambiental também contribui para o estado inflamatório. Com esses dados em mente, os pesquisadores testaram cerca de 2,9 mil proteínas plasmáticas do Biobanco do Reino Unido, em busca de uma assinatura da solidão. Surpreendentemente, proteínas ligadas à inflamação e às respostas antivirais e imunológicas foram implicadas nesse processo.

Durante o acompanhamento de 40 mil pacientes, realizado ao longo de 14 anos, mais da metade dessas proteínas foi prospectivamente associada a doenças cardiovasculares, diabetes, AVC e ao aumento da mortalidade por diversas causas, além de alterações em áreas do cérebro envolvidas em processos emocionais e sociais. Com a biologia da solidão sendo desvendada, estaria se abrindo o caminho para um tratamento medicamentoso do isolamento social? A resposta não é tão simples, mas esses achados podem tornar-se uma ferramenta útil para identificar pessoas com maior risco e que necessitem de atenção redobrada.

Em junho do ano passado, a Organização Mundial da Saúde publicou um estudo sobre o agravamento do isolamento social no mundo. Essa condição está diretamente ligada ao aumento de doenças cardiovasculares, diabetes, demência, depressão, ansiedade, abuso de drogas, alcoolismo e suicídio. Para se ter uma ideia da magnitude do problema, estima-se que a solidão afete em torno de 16% da população global – ou seja, um em cada seis habitantes vivenciou essa experiência nos últimos dez anos.

Assustadoramente, o fenômeno tem sido mais incidente entre adolescentes e adultos jovens, atingindo também, aproximadamente, de 20% a 30% das pessoas com mais de 60 anos. O isolamento social mostra-se ainda mais grave entre a população LGBTIQ+, pessoas com necessidades especiais, migrantes e minorias raciais. Estima-se que cerca de 900 mil mortes por ano sejam consequência dessa verdadeira pandemia da solidão.

É sabido que o isolamento social não condiz com a condição humana. Hannah Arendt já nos alertava, em meados dos anos 1950: “A solidão ceifa radicalmente as pessoas da conexão humana”. Para ela, a solidão era uma espécie de selva na qual o indivíduo se sente abandonado, mesmo quando está cercado por outros. Tratava-se, nas palavras da filósofa, de “uma das experiências mais radicais e desesperadoras vivenciadas pelo homem”. Segundo ­Arendt­, “quando experimentamos a solidão, somos incapazes de fazer novos começos”. A pensadora acreditava que a essência do totalitarismo e do terror dos regimes ditatoriais residia justamente na disseminação desse sentimento aterrorizante na população. Alertava ainda que, embora regimes totalitários específicos possam ruir, a chamada “solidão organizada” que os sustenta permanece como uma ameaça persistente.

No mundo moderno, essa solidão parece ser amplificada pelo uso desmedido das redes sociais, redução das interações humanas, perda da empatia, estímulo à competitividade e à lei do mais forte. Em vez de cooperar, ensinamos nossos filhos a competir, e eles se perdem em busca de likes nas telas da web. Que futuro nos espera se estamos perdendo a nossa humanidade? Arendt nos alertava: “O totalitarismo destrói a capacidade do homem de pensar, ao mesmo tempo que transforma cada um, em seu isolamento solitário, num ser contra todos os outros”. Precisamos acordar. •

Publicado na edição n° 1397 de CartaCapital, em 28 de janeiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Pandemia da solidão’

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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