Palestinos tem muita esperança no Brasil

A vida tornou-se impossível, de modo que as Nações Unidas em seus relatórios afirmam que Gaza será inabitável em 2020

Palestinos tem muita esperança no Brasil

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No último dia 31 de março, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, visitou a cidade sagrada de Jerusalém e anunciou a abertura de um escritório de negócios do seu país. Na visita ele estava acompanhado do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, quando visitaram o Muro do AlBuraq (das Lamentações) na área da mesquita de Al-Aqsa, dois lugares sagrados para o povo palestino.

A visita causou grave indignação entre o povo palestino. Não por causa da visita à Cidade Santa, mas porque aquela visita foi uma clara violação de direito internacional e porque o gesto do presidente Bolsonaro contraria a longa história da relação do povo palestino e brasileiro. Esses dois povos têm laços há dezenas e até centenas de anos, já que a primeira visita de um chefe de Estado brasileiro foi realizada pelo imperador do Brasil, D. Pedro II, ainda durante o reinado do império Otomano, no ano de 1876.

Presidente Jair Bolsonaro durante visita ao Muro das Lamentações

Nas últimas décadas o Brasil apoiou o direito do povo palestino à liberdade e independência, com repercussão nos países da América Latina e entre os países do BRICS. O Brasil foi o primeiro país de América Latina a reconhecer o Estado da Palestina em 2010, votando favoravelmente aos direitos dos palestinos em todos os fóruns internacionais, além de ter contribuído com o bem-estar do nosso povo através de generosas doações aos nossos programas de obras públicas e socorro aos refugiados por meio da Agência UNRWA, ou diretamente através da Representação do Brasil na cidade de Ramallah, ajudando a fortalecer a infraestrutura nos Territórios Ocupados.

O Brasil ocupa uma posição de grande respeito nos corações dos palestinos, que é incentivado pela grande comunidade palestina com mais de 80 mil pessoas que chegaram ao Brasil desde o final do século XIX. Os palestinos foram bem acolhidos no Brasil e contribuíram na construção da sua segundo pátria, o Brasil. Esta é uma prova de amor ao Brasil que se manifesta entre outras formas, como na torcida pela seleção brasileira de futebol. Além do mais, o reconhecimento do Brasil é de grande importância pela sua liderança em nível regional e internacional, como país emergente, a décima maior economia do mundo e maior país da América Latina.

Nós palestinos estamos na nossa terra há milhares de anos, criamos uma civilização e contribuímos para o bem-estar da humanidade. Agora estamos sofrendo com a Ocupação israelense, que tem como objetivo ampliar o crime iniciado em 1948 através da Nakba, a tragédia que assassinou milhares e nos colocou para fora do nosso país, roubando nossa terra e destruindo lugares sagrados para cristãos e muçulmanos.

Talvez o que vimos e ouvimos recentemente de políticos israelenses em suas campanhas reflitam como eles veem seu relacionamento com os palestinos e o futuro do conflito. Muitos deles são orgulhosos de quantos palestinos foram mortos e quantas casas foram demolidas, ou mesmo da expulsão dos palestinos para a anexação do restante da Cisjordânia.

No aniversário do Dia da Terra, que é comemorado no dia 30 de março de cada ano, dezenas de milhares de palestinos saíram de forma pacífica na Faixa de Gaza em 2018, com o apoio de todas as correntes políticas e segmentos da sociedade palestina, para reclamar seu direito de voltar para as suas casas de onde foram expulsos em 1948 e exigir o fim do bloqueio criminoso que foi imposto por Israel desde 2007, tornando Gaza em uma grande prisão a céu aberto, que muitos israelenses descrevem como os campos de detenção semelhantes aos que os nazistas fizeram contra os judeus na Europa nos anos de 1930 e 1940.

A vida tornou-se impossível, de modo que as Nações Unidas em seus relatórios afirmam que Gaza será inabitável em 2020, ou seja, já no próximo ano.

Foi por isso que esses milhares de palestinos foram para a cerca de separação leste da fronteira da Faixa de Gaza sem que isso represente ameaça a ninguém, como confirma relatório da ONU e da Organização internacional de Direitos Humanos, que acompanharam todas as sextas-feiras esse movimento que é conhecido como a Grande Marcha do Retorno.

Palestinos participando da Grande Marcha do Retorno

E qual foi a reação de Israel? O uso da força letal de atiradores treinados e o resultado até hoje é de cerca de 300 mártires e mais de 28 mil feridos, centenas deles mulheres e crianças. Centenas ficaram incapacitados para a vida toda. Enquanto o Conselho de Direitos Humanos da ONU vem investigado os eventos da Marcha do retorno em Gaza e confirmou que Israel comete crime de guerra contra civis pacíficos, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu considerou a morte de 300 palestinos pacíficos como “uma decisão sábia e correta”.

Nós, como palestinos, lutamos por um objetivo: a liberdade, a independência, o direito à autodeterminação, o estabelecimento de nosso estado independente com Jerusalém sua capital e a viver em paz com o resto do mundo.

Esta é a oportunidade para enfatizar que nosso problema básico com os judeus não é a religião, mas com a ocupação em nossa terra. Nós somos orgulhosos de que em nossa terra tenham vivido judeus, cristãos e muçulmanos em paz por centenas de anos.

Afirmamos que nossa esperança pelo apoio do Brasil aos nossos direitos inalienáveis é grande. E que a atual política brasileira, liderada pelo presidente Bolsonaro, do nosso ponto de vista, não serve aos interesses comuns e complexos da região e do Brasil, com esta posição tendenciosa em favor da política de Ocupação e contrária ao Direito Internacional, não antagoniza apenas os palestinos, mas os mais de 450 milhões de árabes e mais de 1,7 bilhões de muçulmanos ao redor do mundo.

Segundo o Direito Internacional, Jerusalém é uma cidade ocupada e Israel não tem o direito de legitimar sua Ocupação, dar cobertura para violar os santuários islâmicos e cristãos ou demolir a mesquita de Al-Aqsa para construir um suposto templo. Esta política imprudente não serve a estabilidade e paz na região, mas reforça o estado de tensão, caos e extremismo e impulsiona o prolongamento do conflito.

Estamos confiantes de que o Brasil e seus grande povo, com enorme potencial nos níveis regional e internacional, pode desempenhar um papel central em ajudar o povo palestino a alcançar sua liberdade e independência e ajudar a região a alcançar estabilidade e prosperidade.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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